Paulo VI na Terra Santa. Há 50 anos, o início das viagens papais

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Por: Jonas | 22 Maio 2014

Foi a primeira das nove viagens ao estrangeiro de Paulo VI (desde 1812, quando Pio VII foi levado por Napoleão ao exílio forçado de Fontainebleau, nenhum dos Pontífices havia saído da Itália). O Papa Montini, em janeiro de 1964, com o Concílio em andamento, fez uma breve, mas intensa peregrinação de três dias à Terra Santa, onde visitou 11 locais de dois países diferentes. Em maio de 2014, para comemorar o 50º aniversário daquela visita, o Papa Francisco visitará a Terra Santa e abraçará ao Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I.

 
Fonte: http://goo.gl/3CtW5L  

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 20-05-2014. A tradução é do Cepat.

Ao concluir os trabalhos da segunda sessão do Vaticano II, no dia 4 de dezembro de 1963, o Papa Montini anunciou supreendentemente aos padres conciliares: “Estamos convencidos de que para obter um bom resultado do Concílio, devemos elevar pias súplicas, multiplicar as obras e, após maduras reflexões e muitas orações dirigidas a Deus, decidimos nos dirigir como peregrinos àquela terra, pátria do Senhor nosso Jesus Cristo... com a intenção de reevocar, pessoalmente, os principais mistérios de nossa salvação, ou seja, a encarnação e a redenção”.

“Veremos aquela terra venerada”, acrescentou Paulo VI, “de onde São Pedro partiu e para a qual nenhum de seus sucessores nunca mais voltou. Contudo, nós, muito humildemente e por um tempo muito breve, voltaremos ali em espírito de devota oração, de renovação espiritual, para oferecer a Cristo sua Igreja; para chamar a ela, una e santa, os Irmãos separados; para implorar a divina misericórdia em favor da paz”.

A ideia de visitar a terra de Jesus se encontra em uma nota manuscrita do Pontífice, que leva a data de 21 de setembro de 1963. “Após uma longa reflexão, e depois de ter invocado a luz divina... parece que se deve estudar positivamente como possível uma visita do Papa aos Lugares Santos na Palestina... Que esta peregrinação seja rapidíssima, que tenha um caráter de simplicidade, de piedade, de penitência e de caridade”. É a única das viagens de Paulo VI que não nasceu de uma circunstância particular, de uma celebração ou de um convite.

Para preparar a visita, o Papa enviou à Terra Santa, em segredo, monsenhor Jaques Martin, prelado francês da Secretaria de Estado, e seu secretário particular, dom Pasquale Macchi. Paulo VI queria que a peregrinação incluísse uma etapa em Damasco, seguindo as pegadas do apóstolo dos gentios, cujo nome escolheu, mas o projeto se revelou impossível. Antes da saída, Montini quis que o padre Giulio Bevilacqua pregasse um retiro espiritual para todos os que participariam da peregrinação. A Custódia Franciscana na Terra Santa recebeu a tarefa de organizar as diferentes celebrações religiosas e de criar um escritório de informação para ajudar aos milhares de jornalistas que acompanharam o evento.

No dia 4 de janeiro de 1964, o rei Hussein da Jordânia recebeu o Papa na sua chegada em Amán. Fazia frio e o voo havia durado mais do que o previsto. A cerimônia de acolhida durou poucos minutos. O rei, com uniforme militar, estava comovido e agradeceu pela honra da visita. O Papa Montini disse: “Aquele que deseja amar a vida e ver dias alegras, evite o mal e faça o bem, busque a paz e a siga”. Em seguida, realizou a viagem de 100 quilômetros para Jerusalém. O rei, em uma pequena aeronave, acompanhou o percurso do alto.

As pessoas esperam o Papa nas ruas e o carro do Pontífice recebe as carícias de muitíssimas mãos que se esticam para tocá-lo. Às 15h20min da tarde, o carro chega às margens do rio Jordão, onde os peregrinos de Roma entoam o “Pater Noster” e abençoa a pequena multidão que se reuniu ao seu redor. Antes de chegar a Jerusalém, uma etapa em Betânia, na pequena localidade onde está o monte das oliveiras. Paulo VI, em companhia dos franciscanos da Custódia, visita os restos da casa de Lázaro, detém-se a rezar na pequena Igreja de pedra amarela e ao sair solta uma pomba.

Termina a viagem pelo deserto. O Papa Montini admira os poderosos muros que rodeiam a cidade santa. O carro com bandeiras vaticanas é recebido por uma multidão dividida em duas fileiras; aproxima-se de Jerusalém e está entardecendo. O Papa Montini é cercado pelas pessoas. De nada adianta os esforços dos guardas encarregados de garantir a segurança do hóspede.

As imagens mostram o Pontífice de Brescia rodeado por soldados jordanianos. A multidão o leva pelas vielas da Cidade Santa. Pálido, mas sorridente, Paulo VI consegue chegar ileso à meta, o Santo Sepulcro, onde celebraria a missa. Nessa mesma tarde, o padre Bevilacqua, amigo do Papa, revelou para um grupo de jornalistas que, há muitos anos, o Papa lhe havia contado um desejo: “Sonho um Papa que viva livre da pompa da corte e das prisões protocolares. Finalmente só, em meio de seus diáconos”. E por isso, concluiu Bevilacqua, “estou convencido de que hoje, apesar de ter sido levado pela multidão, ele está mais feliz do que quando desce em São Pedro sobre a cadeira gestatória, entre as alabardas dos guardas e as púrpuras dos cardeais”. O secretário do Papa, dom Macchi, foi violentamente afastado do grupo e só conseguiu se reunir com ele no Santo Sepulcro graças a uma motocicleta.

Finalmente, após deter percorrido o último trajeto, o Papa está em frente à Basílica em que fica o sepulcro de Jesus. A Igreja está iluminada por potentes refletores e o Pontífice quase não tem espaço para celebrar a missa. Durante a celebração, a luz se desaparece e sobre a Basílica cai o claro-escuro produzido por algumas velas. Acompanhado por dois cerimoniários, Paulo VI entra no Sepulcro, deixa um ramo de oliveira sobre o mármore que cobre a pedra em que esteve o corpo sem vida de Cristo. O Papa se ajoelha. Ao final, emocionado, recita sua oração pessoal:

“Eis nos aqui, oh Senhor Jesus:
Viemos como os culpados voltam ao lugar de seu crime;
Viemos como aquele que Te seguiu, mas que também Te traiu; fiéis, infiéis, temos sido muitas vezes;
Viemos para confessar a misteriosa relação entre nossos pecados e a Tua Paixão: nossa obra, Tua obra;
Viemos para bater no peito, para pedir perdão, para implorar a tua misericórdia; porque sabemos que podes e queres nos perdoar.
Porque expiaste conosco.
Tu és a nossa redenção, Tu és nossa esperança”.

A celebração na entrada do Santo Sepulcro foi para Montini o momento mais emocionante e comovedor do dia, como revelaria aos cardeais que o receberam em seu retorno a Roma.

Depois da missa, o Papa recebeu na delegação apostólica de Jerusalém as visitas do patriarca greco-ortodoxo Benedictos e do patriarca armênio Yeghische Derderian. Pouco mais tarde, Paulo VI visita Benedictos e se reúne com a comunidade católica de rito oriental na Igreja de Santa Ana, e concluiu sua jornada no Getsêmani participando da oração da Hora Santa na Igreja dedicada à agonia de Jesus.

Também ali, o Papa é recebido por uma grande multidão que o rodeia e quase lhe impede o acesso ao templo. São onze e meia da noite de um dia extraordinário, que tinha começado, para Montini, antes do alvorecer.

No domingo, dia 5 de janeiro pela manhã, às 9h00s, o Papa entra no estado de Israel. É recebido pelo presidente Salman Shazar e o líder dos rabinos Nissim. O encontro acontece no monte de Megido, um lugar cheio de história e de significado que é mencionado no livro do Apocalipse. O Papa saúda, repetindo a palavra “Shalom”. O presidente, por sua parte, diz: “Com profundo respeito e com plena consciência do alcance histórico de um evento sem precedentes nas gerações passadas, em meu nome e do Estado de Israel acolho ao Sumo Pontífice...”. Paulo VI, que em seu discurso nunca pronuncia as palavras “Estado de Israel”, responde: “Incluímo-nos com muito gosto junto aos filhos do ‘povo da Aliança’, cujo papel na história religiosa da humanidade não podemos esquecer”.

Em seguida, o Papa retoma seu caminho para Galileia, direção de Nazaré. Celebra a missa na pequena gruta em que estão os restos da casa de Maria e pronuncia uma reinterpretação moderna das bem-aventuranças evangélicas: “Bem-aventurados nós se, pobres de espírito, sabemos nos livrar da confiança nos bens econômicos e colocamos nossos desejos primeiros nos bens espirituais e religiosos, e se respeitamos e amamos aos pobres como irmãos e imagens viventes de Cristo. Bem-aventurados nós se, educados na mansidão dos fortes, sabemos renunciar ao triste poder do ódio e da vergonha e conhecemos a sabedoria de preferir em detrimento ao temor das armas a generosidade do perdão, a aliança da liberdade e do trabalho, a conquista da verdade e da paz”.

A peregrinação prossegue. É um esplêndido meio-dia quando Paulo VI, sorridente, sobe a escada talhada na rocha em Tabga para chegar às margens do “mar da Galileia”, o lago de Tiberíades em cujas aguas navegava o barco de Pedro. No horizonte, a vista é a das colinas da Síria. O Papa se detém para rezar ajoelhado na rocha que fica no lugar em que, segundo a tradição, Jesus confiou o primado a Simão Pedro. Depois, Montini visita o sítio arqueológico de Cafarnaum, no qual estão as ruínas da aldeia em que Pedro e seu irmão André viviam e onde estava a sinagoga em que Jesus falou.

A etapa sucessiva da viagem é o Monte das Bem-aventuranças. Paulo VI comunica a nomeação episcopal de dom Giovanni Kaldany, vigário geral do Patriarcado latino, e de dom Martin, que havia preparado a histórica peregrinação. Na sequência, volta para Jerusalém, na parte judia da cidade. Paulo VI é recebido pelo primeiro-ministro Abba Eban e pelo prefeito da cidade. O Papa encerra o seu dia com uma oração no Cenáculo.

Antes de voltar para o lado árabe da cidade, o peregrino de Roma escuta, novamente, o presidente israelense Shazar. O Papa responde agradecendo por “este dia inesquecível”, e acrescenta palavras para defender a memoria do Papa Pacelli. É uma intervenção que não estava prevista e que o próprio Pontífice havia decidido na noite anterior: “Nosso grande predecessor Pio XII agiu com força e em muitas ocasiões, durante o último conflito mundial, e todo mundo sabe o que fez em defesa e pela salvação de todos os que suportavam a prova, sem nenhuma distinção. No entanto, como sabem, quiseram semear suspeitas e, inclusive, acusações contra a memória deste grande Pontífice. Temos a satisfação de ter a oportunidade de afirmar, neste dia e neste lugar: nada é mais injusto do que esse atentado contra tão venerável memória. Aqueles, como Nós, que conheceram mais de perto esta alma admirável, sabem até a sua sensibilidade, sua compaixão pelos sofrimentos humanos, seu valor e a bondade de seu coração podiam chegar. Também sabem muito bem aqueles que, terminada a guerra, vieram com lágrimas nos olhos agradecê-lo por lhes ter salvado a vida”.

No dia 5 de janeiro, à tarde, na sede da delegação, realiza-se o primeiro encontro e o primeiro abraço com o Patriarca de Constantinopla, Atenágoras I, que viajou até Jerusalém para saudá-lo. Pedro e André se encontram depois de séculos de divisão. O Papa e o Patriarca recitam o “Pater Noster” com suas respectivas delegações, em latim e em grego. Atenágoras diz que espera que este encontro “seja o alvorecer de um dia luminoso e abençoado, quando as gerações futuras comunguem no mesmo cálice do Santo Corpo e do Precioso Sangue do Senhor”. Montini oferece a Atenágoras um cálice de ouro.

No dia 6 de janeiro, festa da Epifania, Paulo VI se dirige a Belém. Os franciscanos da Custódia e o Patriarca de rito latino de Jerusalém o aguardam. O Papa vive pessoalmente as dolorosas divisões no mundo cristão e os rígidos horários estabelecidos pelo “status quo” nos lugares santos. Vê-se obrigado a terminar a missa às 8h30min; durante a celebração, acontecem outros dois cultos não católicos. Além disso, o Pontífice, vestido com os paramentos litúrgicos, é proibido de caminhar pela nave central da Basílica, encomendada à custódia dos greco-ortodoxos.

Na homilia, o Papa fala de ecumenismo e explica que a unidade “não pode ser obtida” colocando em jogo “verdades de fé”, mas repete: “Nós estamos dispostos a levar em consideração todos os meios razoáveis capazes de preparar as vias do diálogo”. Paulo VI renova seu chamado à paz: “Que os governantes escutem este grito de nosso coração e prossigam generosamente seus esforços para garantir a paz à humanidade, que com tanto ardor é aspirada”, e para “evitar, a qualquer custo, as angústias e o terror de uma nova guerra mundial, cujas consequências seriam incalculáveis”.

O Papa, depois, retorna para Jerusalém e visita Atenágoras. No discurso que entrega para a ocasião, lê-se: “Por uma e outra parte, as vias que conduzem à união são largas e estão cheias de dificuldades. Porém, os dois caminhos convergem de uma para outra e chegam à fonte do Evangelho. Não é de bom augúrio que este encontro, de hoje, aconteça justamente nesta Terra onde Cristo fundou sua Igreja e derramou seu Sangue por ela?”

O Papa retoma o caminho para Amán, onde volta a se encontrar com o rei Hussein. No aeroporto se despedem e ambos pronunciam novamente palavras sobre a paz. Paulo VI começa seu último discurso pronunciando algumas palavras em árabe. A multidão presente na cerimônia de despedida aplaude.

O avião do Pontífice aterrissa em Roma às 18h30min, do dia 6 de janeiro. Ao chegar à Praça São Pedro, Paulo VI se dirige à multidão que o recebe: “Minha viagem não foi apenas um fato singular e espiritual: tornou-se um advento que pode ter uma grande importância histórica”. Como sinal tangível e recordação de sua peregrinação, o Papa quer que se construa perto de Jerusalém um centro de estudos ecumênicos e, em Belém, um instituto para a educação dos surdos.

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