A ética precisa de um pouco de utopia. Artigo de Enrico Berti

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12 Maio 2014

Hans Jonas, graças à competência adquirida em estudos anteriores no campo da biologia, chama a atenção para o fato de que os progressos da ciência e da técnica já tornaram cada indivíduo interdependente de todos os outros homens, e que os comportamentos da humanidade de hoje terão consequências de grande porte para a humanidade das gerações futuras.

A opinião é do filósofo italiano Enrico Berti, professor da Universidade de Pádua e membro da Pontifícia Academia das Ciências. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 06-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como filósofo, eu busquei na filosofia contemporânea os argumentos que possam justificar a responsabilidade humana em relação à natureza e acredito que encontrei alguns válidos no livro de Hans Jonas, O princípio responsabilidade.

No livro em questão, cujo título se contrapõe polemicamente ao do livro do marxista Ernst Bloch, O princípio esperança, Jonas, graças à competência adquirida em estudos anteriores no campo da biologia, chama a atenção, acima de tudo, para o fato de que os progressos da ciência e da técnica já tornaram cada indivíduo interdependente de todos os outros homens, e que os comportamentos da humanidade de hoje terão consequências de grande porte para a humanidade das gerações futuras.

Por essas razões Jonas mostra a insuficiência, hoje, de uma ética puramente individualista, isto é, voltada somente à análise do comportamento individual, como foi grande parte da ética tradicional, particularmente a de Kant, e afirma a necessidade de elaborar uma ''ética do futuro", que se fundamente em princípios racionais e, portanto, seja demonstrável para todos.

O único fundamento possível dessa nova ética é – segundo Jonas – a existência de um finalismo na natureza, seja em nível humano, seja em nível infra-humano, isto é, de mundo vivo em geral, do qual resulte que as ações dos indivíduos são efetivamente orientadas para um escopo.

Tal escopo, em geral, é a conservação da vida, isto é, a defesa da espécie, e isso – segundo Jonas – também é um valor, ou seja, é bom, porque o ser é preferível ao nada (já que este último não é suscetível a qualquer avaliação) e, como tal, é um dever ser, isto é, uma norma vinculante também do ponto de vista moral.

Digno de nota, além disso, é a recusa de Jonas de recorrer à fé religiosa como fundamento da ética, recusa motivada pelo fato de que "a fé não não está disponível por demanda", enquanto "a metafísica sempre foi uma questão da razão, e esta última pode incomodar a pedido".

Portanto, conclui ele, "o filósofo laico que trabalha em vista de uma ética deve, acima de tudo, admitir, apesar de Kant, a possibilidade de uma metafísica racional, contanto que o racional não seja definido exclusivamente com base nos critérios da ciência positiva" (p. 57). Isso me parece ser um bom exemplo da ética laica.

O livro de Jonas, no entanto, também tem os seus limites, claramente identificáveis e derivados, provavelmente, justamente da sua formação heideggeriana, isto é, substancialmente tardo-romântica, pessimista, naturalista, estetizante, propensa sobretudo a "deixar o ser ser", a não intervir, não transformar, não tentar melhorar as coisas, por medo de piorá-las.

Os sinais dessa tendência são claramente reconhecíveis na sua redução do fim da natureza e do homem à pura sobrevivência, entendida em sentido quase exclusivamente biológico. Nesse caso, no entanto, Jonas, de fato, não é aristotélico, porque, para Aristóteles, o fim do homem e da polis (que é a "sociedade perfeita") não é apenas o "viver", ou seja, o sobreviver (que é o fim da família e da aldeia, isto é, das comunidades imperfeitas), mas é o "viver bem", ou seja, aquela que hoje chamaríamos de uma boa qualidade de vida e que, para Aristóteles, consiste na plena realização de si mesmo.

Portanto, têm razão aqueles que acusam Jonas de biologismo, de naturalismo, de conservadorismo, mesmo que os pacifistas a todo o custo não teriam o direito de fazer isso, aqueles que antepõem a conservação da vida a qualquer outro valor, ou os defensores de uma teoria "sutil" (thin) da ética, por exemplo a ética da justiça simples (John Rawls), que consideram tarefa da política apenas a garantia de condições puramente negativas, como uma renda mínima (a sobrevivência) e a liberdade, deixando depois que cada um escolha em que deve consistir a sua felicidade (sem considerar que aqueles que ignoram as próprias capacidades não podem nem mesmo desejar realizá-las).

Sob esse aspecto, um economista como Amartya K. Sen é certamente mais progressista e "aristotélico", quando propõe uma teoria mais "espessa" (thick) da ética, isto é, não apenas uma ética da justiça ou da sobrevivência, mas sim uma ética do "bem", onde por "bem" se entende a plena realização de todas as capacidades do homem, o seu "florescimento" completo, a sua "plenitude" (fulfilment).

Naturalmente, isso implica uma disponibilidade à transformação do existente (não apenas a deixá-lo ser), um compromisso político em favor da emancipação (não apenas da conservação), uma certa dose de otimismo e, talvez, também de utopia (sem a qual não se faz história).


Hans Jonas, graças à competência adquirida em estudos anteriores no campo da biologia, chama a atenção para o fato de que os progressos da ciência e da técnica já tornaram cada indivíduo interdependente de todos os outros homens, e que os comportamentos da humanidade de hoje terão consequências de grande porte para a humanidade das gerações futuras.


A opinião é do filósofo italiano Enrico Berti, professor da Universidade de Pádua e membro da Pontifícia Academia das Ciências. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 06-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Eis o texto.


Como filósofo, eu busquei na filosofia contemporânea os argumentos que possam justificar a responsabilidade humana em relação à natureza e acredito que encontrei alguns válidos no livro de Hans Jonas, >>O princípio responsabilidade.


No livro em questão, cujo título se contrapõe polemicamente ao do livro do marxista Ernst Bloch, >>O princípio esperança, Jonas, graças à competência adquirida em estudos anteriores no campo da biologia, chama a atenção, acima de tudo, para o fato de que os progressos da ciência e da técnica já tornaram cada indivíduo interdependente de todos os outros homens, e que os comportamentos da humanidade de hoje terão consequências de grande porte para a humanidade das gerações futuras.


Por essas razões Jonas mostra a insuficiência, hoje, de uma ética puramente individualista, isto é, voltada somente à análise do comportamento individual, como foi grande parte da ética tradicional, particularmente a de Kant, e afirma a necessidade de elaborar uma ''ética do futuro", que se fundamente em princípios racionais e, portanto, seja demonstrável para todos.


O único fundamento possível dessa nova ética é – segundo Jonas – a existência de um finalismo na natureza, seja em nível humano, seja em nível infra-humano, isto é, de mundo vivo em geral, do qual resulte que as ações dos indivíduos são efetivamente orientadas para um escopo.


Tal escopo, em geral, é a conservação da vida, isto é, a defesa da espécie, e isso – segundo Jonas – também é um valor, ou seja, é bom, porque o ser é preferível ao nada (já que este último não é suscetível a qualquer avaliação) e, como tal, é um dever ser, isto é, uma norma vinculante também do ponto de vista moral.


Digno de nota, além disso, é a recusa de Jonas de recorrer à fé religiosa como fundamento da ética, recusa motivada pelo fato de que "a fé não não está disponível por demanda", enquanto "a metafísica sempre foi uma questão da razão, e esta última pode incomodar a pedido".


Portanto, conclui ele, "o filósofo laico que trabalha em vista de uma ética deve, acima de tudo, admitir, apesar de Kant, a possibilidade de uma metafísica racional, contanto que o racional não seja definido exclusivamente com base nos critérios da ciência positiva" (p. 57). Isso me parece ser um bom exemplo da ética laica.


O livro de Jonas, no entanto, também tem os seus limites, claramente identificáveis e derivados, provavelmente, justamente da sua formação heideggeriana, isto é, substancialmente tardo-romântica, pessimista, naturalista, estetizante, propensa sobretudo a "deixar o ser ser", a não intervir, não transformar, não tentar melhorar as coisas, por medo de piorá-las.


Os sinais dessa tendência são claramente reconhecíveis na sua redução do fim da natureza e do homem à pura sobrevivência, entendida em sentido quase exclusivamente biológico. Nesse caso, no entanto, Jonas, de fato, não é aristotélico, porque, para Aristóteles, o fim do homem e da polis (que é a "sociedade perfeita") não é apenas o "viver", ou seja, o sobreviver (que é o fim da família e da aldeia, isto é, das comunidades imperfeitas), mas é o "viver bem", ou seja, aquela que hoje chamaríamos de uma boa qualidade de vida e que, para Aristóteles, consiste na plena realização de si mesmo.


Portanto, têm razão aqueles que acusam Jonas de biologismo, de naturalismo, de conservadorismo, mesmo que os pacifistas a todo o custo não teriam o direito de fazer isso, aqueles que antepõem a conservação da vida a qualquer outro valor, ou os defensores de uma teoria "sutil" (thin) da ética, por exemplo a ética da justiça simples (John Rawls), que consideram tarefa da política apenas a garantia de condições puramente negativas, como uma renda mínima (a sobrevivência) e a liberdade, deixando depois que cada um escolha em que deve consistir a sua felicidade (sem considerar que aqueles que ignoram as próprias capacidades não podem nem mesmo desejar realizá-las).


Sob esse aspecto, um economista como Amartya K. Sen é certamente mais progressista e "aristotélico", quando propõe uma teoria mais "espessa" (thick) da ética, isto é, não apenas uma ética da justiça ou da sobrevivência, mas sim uma ética do "bem", onde por "bem" se entende a plena realização de todas as capacidades do homem, o seu "florescimento" completo, a sua "plenitude" (fulfilment).


Naturalmente, isso implica uma disponibilidade à transformação do existente (não apenas a deixá-lo ser), um compromisso político em favor da emancipação (não apenas da conservação), uma certa dose de otimismo e, talvez, também de utopia (sem a qual não se faz história).


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