A história dos jesuítas na América Latina, segundo Bergoglio

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09 Maio 2014

Chega à Itália a história fundamentada da presença e da obra da ordem inaciana na Argentina, escrita em 1987 pelo jesuíta Jorge M. Bergoglio.

O jornal Avvenire, 05-05-2014, publicou um trecho do livro. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ao redor de 1585, quando os jesuítas entram na nossa terra, ocorreu na América um fato eclesial significativo: a reunião do Terceiro Concílio de Lima, convocado por São Turíbio de Mogrovejo. Esse concílio marcaria as características fundamentais da nossa evangelização na fidelidade ao Concílio de Trento.

Os jesuítas, que tinham colaborado com os seus melhores teólogos no Concílio tridentino, não deixaram de contribuir com a sua ciência e experiência missionária com esse concílio regional: basta lembrar, a esse respeito, do insigne padre José de Acosta.

A teologia tridentina inspirara o trabalho de catequese dos missionários jesuítas. A concepção católica do homem ferido pelo pecado, mas não completamente corrompido, deu a esse trabalho um otimismo que valorizava as culturas indígenas e um impulso apostólico repleto de confiança nas possibilidades de salvação dos nossos nativos.

A partir do momento em que a graça salvadora não seria um mero título jurídico, externo ao homem, mas sim uma força transformadora, e a partir do momento em que o homem não perdeu totalmente a radical bondade que Deus Criador colocou no seu coração, não lhes pareceu utópico lançar-se na obra de catolicizar um continente. E assim aconteceu. Poucas vezes uma esperança foi coroada tão abundantemente. (…)

Esse otimismo foi realista, teve presente a experiência humana do pecado, com a consciência da radical indignidade diante da grandeza daquele Deus que se manifestou como Misericórdia na cruz de Cristo. Pregou a imensa bondade do Senhor, mas também o preço do nosso pecado e a necessidade de se proteger dele e de extirpá-lo.

A aspiração à salvação que treme no coração do homem teve, para os missionários, um conteúdo bem específico: eles despertaram desejos de batismo e deram a um povo identidade e senso de pertença.

Talvez não tenhamos nos debruçado o suficiente para refletir sobre o que significa – quando ao reconhecimento da dignidade do ser humano – ser chamados filhos de Deus e sê-lo realmente. Mediante a doutrina batismal, aqueles índios eram equipados com o verdadeiro sentido da vida: por que se combate, quais são os objetivos, o que se pode perder.

Significava lhes dizer de onde vinham e para onde iam, significava marcar uma rota e fixar uma meta. Significava dar-lhes uma consciência de superioridade, e de superioridade esmagadora: se Deus é por nós, quem ousará se opor a nós? Deus é mais poderoso do que o inimigo. Deus é mais forte do que a contrariedade.

Significava lhes dizer que vale a pena se deixar domesticar por Deus para ser indômitos e invencíveis entre os homens. Essa vocação de triunfo certo adquiriria uma forma devocional no obséquio àqueles que já alcançaram a estatura definitiva: os santos. E, para evidenciar tudo isso, para aqueles que se aproximavam para pedir a bênção, os missionários não apresentavam outro título senão o de "ministros de Deus", "os Padres" ou "os paí". (…)

A fidelidade à Santa Madre Igreja hierárquica informa o trabalho missionário. Aspirações e desejos expressados pela Igreja reunida no Terceiro Concílio de Lima em 1582 se encarnam na cotidianidade do trabalho. Fiel ao espírito de Trento, o Concílio de Lima delineia a imagem do bispo e, consequentemente, dos pastores que o acompanham na obra apostólica. (…)

A solicitude pastoral levada ao extremo de se sentirem pais aproxima os missionários dos seus filhos. E o Concílio recomendaria o estudo das línguas nativas, o que constitui uma séria vontade de assumir a cultura daqueles povos e gerar aqueles filhos na fé. Tratava-se de assumir a diversidade para realizar a autêntica unidade católica. Uma única doutrina se expressava em diversas línguas.

Desse modo, no Concílio, apresenta-se como feita e aprovada a tradução do catecismo (a do padre Acosta) na língua de Cuzco e na aimará, e se chega a dizer: "E para que o mesmo fruto seja obtido nos outros povos, que usam línguas diferentes das citadas, encarrega e recomenda a todos os bispos que, cada um na sua diocese, façam que seja traduzido por pessoas adequadas e piedosas o supracitado catecismo nas outras línguas".

Na prática, a seriedade dessa proposta não se detém na tradução dos catecismos, mas também leva a elaborar as gramáticas das línguas indígenas. Enquanto a Europa protestante se desintegrava na fratura imposta pela consciência individualista, a Igreja reforçava a diversidade das percepções "conscienciais" dos povos na unidade dada pela confissão de uma mesma fé. Uma fé que se centrará no pastor que torna visível e traduz a força unitiva da Consciência superior que a humanidade conheceu: a de Cristo.

Outra preocupação do Concílio de Lima foi adaptar a apresentação da mensagem em formas de culto que fossem atraentes para os indígenas. Eis: "Os bispos e os padres devem zelar com cuidado para fazer com que haja escola e capela de cantores, e, ao mesmo tempo, música de flautas e apitos e outros instrumentos adaptados às igrejas. Porque é sabido que essas nações de índios são atraídas e se aproximam extraordinariamente ao conhecimento e à veneração do Sumo Deus com as cerimônias exteriores e com os instrumentos de culto divino".

A audácia missionária não hesitou em envolver as mãos de artesãos indígenas na obra de moldar com a pintura, com a escultura e com a arquitetura os grandes mistérios da nossa fé cristã. A partir daí, a força salvífica do sofrimento de Cristo, a ternura de Maria, a glória dos santos e a feiúra do demônio têm um colorido e um sentido americanos. Nos seus ornamentos, os frontais barrocos acolheram a homenagem da nossa peculiar flora e fauna ao Único Senhor de todos. (…)

Uma realidade se torna símbolo quando o seu peso histórico é de tal estatura a ponto de reforçar o nosso presente e de abrir-lhe horizontes futuros. E esse relato (…) diz respeito à fundação da nossa Redução de San Francisco Javier entre os mocoví e aos dois homens que nela se destacam como protagonistas, o padre Francisco Burgés e o padre Florián Paucke.

Ambos amaram aquela experiência e deixaram escrito o que fizeram e viveram. Burgés escreveu no exílio o "Relatório sobre a fundação da cidade de San Javier dos mocoví", e Paucke, a apaixonante "Ida e retorno: uma estada entre os índios mocoví". (…)

Quem olha para a justiça em uma ótica "economicista" não entenderá muito desse projeto jesuíta: o objetivo era lhes dar a oportunidade de viver o que os tornava justos; ou seja, um modo de tratar da relação com Deus e com a comunidade, uma maneira de se situar na natureza, que tinha repercussões "econômicas", mas não se esgotava em uma "conduta econômica".

Jorge Mario Bergoglio

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