Uma alimentação dependente do petróleo

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Por: Caroline | 06 Maio 2014

Nós comemos petróleo, mesmo que não percebamos. O atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos é dependente do “ouro negro”. Sem petróleo não poderíamos comer tal qual o fazemos atualmente. Todavia, frente a um cenário no qual será cada vez mais difícil extrair petróleo que também será cada vez mais caro, como iremos nos alimentar? Essas são algumas reflexões que Esther Vivas, espanhola, ativista e escritora de diversos livros sobre movimentos sociais e consumo responsável, apresenta nesse artigo, publicado por El Publico, 05-05-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A agricultura industrial nos tornou dependentes do petróleo. Desde o cultivo, a colheita, a comercialização até o consumo, ele tornou-se uma necessidade. A revolução verde, as políticas que diziam que iriam modernizar a agricultura e acabariam com a fome, e que foram implementadas entre os anos 40 e 70, nos transformaram em “junkies” (dependentes) deste combustível fóssil, em parte graças a seu preço relativamente barato. A mecanização dos sistemas agrícolas e o uso intensivo de fertilizantes e pesticidas químicos são o melhor exemplo de tal cenário. Estas políticas significaram a privatização da agricultura, deixando-nos, agricultores e consumidores, nas mãos de poucas empresas do agronegócio.

Apesar de a revolução verde insistir que aumentaria a produção de comida e, como consequência, iríamos ter o fim da fome, na realidade não observou-se esse resultado. Por um lado, sabemos que a produção por hectare cresceu. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), entre os anos 70 e 90, o total de alimentos per capita a nível mundial subiu cerca de 11%. Contudo, isto não repercutiu, como assinala Jorge Riechmann em sua obra “Cuidar la (T)tierra’”, em uma diminuição real da fome, já que o número de pessoas famintas no planeta, nesse mesmo período e sem contar a China, cuja política agrícola, regia-se em outros parâmetros, ascendeu, também em 11%, isto é dos 536 milhões para os 597.

Em troca, a revolução verde teve consequências muito negativas para pequenos e médios agricultores e para a segurança alimentar em longo prazo. Concretamente, o poder das empresas agroindustriais aumentou em toda a cadeia produtiva, provocando a perda de 90% da agro e biodiversidade, reduzindo-se massivamente o nível freático, aumentando-se a salinização e a erosão do solo, e deslocando milhares de agricultores do campo para cidades miseráveis, desmantelando os sistemas agrícolas tradicionais e nos tornando dependentes do petróleo.

Uma agricultura “junkie”

A introdução da maquinaria agrícola em grande escala foi um dos primeiros passos. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 1850, como indica o informe Food, Energy and Society, a tração animal era a principal fonte de energia no campo e representava cerca de 53% do total, seguida da força humana, com cerca de 13%. Cem anos mais tarde, em 1950, ambas somavam apenas 1% frente à introdução das máquinas de combustível fóssil. A dependência da maquinaria agrícola (tratores, colheitadeiras, caminhões,...), cuja necessidade atual em grandes plantações e monocultura é enorme. Desde a etapa de produção, a agricultura está “viciada” no petróleo.

O sistema agrícola atual, com o cultivo de alimentos em grandes estufas, independente da temporalidade e o clima mostra que, mesmo assim, a necessidade de derivados de petróleo e o consumo energético ainda são elevados. Desde mangueiras passando por contêineres, acolchoados, malhas até o teto e cobertas, tudo é de plástico. O Estado espanhol, de acordo com os dados do Ministério da Agricultura e Meio Ambiente, está no centro do cultivo com o plástico na Europa mediterrânea com 66 mil hectares cultivados, a maior parte em Andaluzia e, em particular em Almería, seguida, mais distantemente, de Múrcia e das Ilhas Canárias. E, o que fazer com tanto plástico uma vez que sua vida útil chega ao fim?

O uso intensivo de fertilizantes e pesticidas químicos são uma mostra a mais da dependência do modelo alimentar do petróleo. A comercialização de fertilizantes e pesticidas aumentaram em 18% e 160% entre os anos de 1980 e 1998, respectivamente, de acordo com o relatório Eating oil: food suply in a changing climate. O sistema agrícola dominante necessita de altas doses de fertilizantes elaborados com petróleo e gás natural, como amoníaco, ureia etc., que substituem os nutrientes do solo. Multinacionais petroleiras, como Repsol, Exxon Mobile, Shell, Petrobrás contam em suas carteiras com os investimentos em produção e comercialização de fertilizantes agrícolas.

Os pesticidas químicos de síntese são outra fonte importante de dependência deste combustível fóssil. A revolução verde, como analisávamos, generalizou o uso de pesticidas e, em consequência, a necessidade de petróleo para elabora-los. E tudo isto, sem mencionar o impacto sobre o meio-ambiente que tais agrotóxicos, a contaminação e o esgotamento de terras e de águas, além das consequências para a saúde de campesinos e consumidores.

Alimento viajante

Observamos a necessidade de petróleo, assim como, das longas viagens que os alimentos realizam: desde o local de seu cultivo até o lugar em que serão consumidos. Calcula-se que a comida viaja em média cinco mil quilômetros do campo até o prato, segundo o informe dos Amigos da Terra, com o hidrocarboneto necessário e impacto ambiental consequente. Estes “alimentos viajantes”, de acordo com tal informe, geram quase cinco milhões de toneladas de CO2 ao ano, contribuindo para o agravamento da mudança climática.

A globalização alimentar, em sua corrida para obter o máximo benefício, desloca a produção de alimentos, como o fez com tantos outros âmbitos da economia produtiva. Ela produz-se em grande escala nos países do Sul, aproveitando-se de condições de trabalho precárias e da legislação ambiental inexistente e, posteriormente, vende sua mercadoria na Europa a um preço competitivo. Ou produz ao Norte, graças a subvenções agrárias que estão nas mãos de grandes empresas, para depois comercializar as tais mercadorias subsidiadas na outra ponta do planeta, vendendo abaixo do preço do custo e fazendo uma concorrência desleal à produção interna. Aqui reside o porquê dos alimentos “quilométricos”: o máximo benefício para alguns poucos e a máxima precariedade, pobreza e contaminação ambiental para a maioria.

No ano de 2007, o Estado espanhol importou mais de 29 milhões de toneladas de alimentos, cerca de 50% a mais que em 1995. Três quartos foram cereais, preparados de cereais e alimentos para o gado industrial, a maior parte vinda da Europa, América Central e do Sul, como indica o relatório Alimentos Quilométricos. Inclusive os alimentos típicos, como o grão de bico ou o vinho, acabaram sendo consumindo a milhares de quilômetros de distância. Cerca de 87% do grão de bico que comemos na Espanha vem do México, no estado Espanhol seu cultivo caiu progressivamente. Qual é o sentido de tal atividade internacional tão intensa, a partir de um ponto de vista social e meio-ambiental? Nenhum.

Uma comida típica dominical na Grã Bretanha, ou as batatas da Itália, cenouras da África do Sul, feijões da Tailândia, vitela da Austrália, brócolis da Guatemala e o morango da Califórnia e uvas da Nova Zelândia como sobremesa geram, de acordo com o relatório Eating oil: food suply in a changing climate, 650 vezes mais gases de efeito estufa, devido ao transporte, do que se tal comida tivesse sido cultivada e comprada localmente. O total de quilômetros que o conjunto destes “alimentos viajantes” somam do campo até a mesa é de 81 mil, o equivalente a duas voltas inteiras no planeta terra. Algo irracional se tivermos em conta que muitos destes produtos também são cultivados no próprio território.  A Grã Bretanha importa grandes quantidades de leite, de porco, cordeiro e outros alimentos básicos, apesar de exportar quantidades similares dos mesmos. Na Espanha, ocorre o mesmo.

Comendo plástico

E uma vez que os alimentos chegam ao supermercado, o que ocorre? Plástico e mais plástico, com derivados do petróleo. Assim, encontramos uma embalagem primária que contém o alimento, uma embalagem secundária que permite uma exibição atrativa no estabelecimento e, finalmente, sacolas para levá-lo do “super” a casa. Na Catalunha, por exemplo, dos quatro milhões de toneladas anuais de resíduos, cerca de 25% correspondem a sacos de embalagens de plástico. Os supermercados embalam tudo, a venda a granel é algo do passado. Um estudo encomendado pela Agência Catalã do Consumo, concluiu que comprar no comércio local gera cerca de 69% a menos de resíduos do que um supermercado ou  uma grande área.

Uma anedota pessoal ilustra bem esta tendência. No início, as casas compravam a água engarrafada, em grandes garrafas de vidro de oito litros, hoje quase toda a água que é comercializada está engarrafada em embalagens plásticas. E está na moda, inclusive, compra-las em “packs” de seis unidades de um litro e meio. Não é de estranhar, pois, que dos 260 milhões de toneladas de resíduos plásticos no mundo, a maior parte seja de recipientes de água ou leite, como indica a Fundação Terra. O Estado espanhol, de acordo com a fonte, é o principal produtor na Europa de sacolas plásticas de apenas um uso e o terceiro consumidor. Calcula-se que a vida útil de uma sacola plástica é de 12 minutos em média, contudo sua decomposição pode demorar cerca de 400 anos. Então, tirem suas próprias conclusões.

Vivemos em um planeta de plástico, como retratou brilhantemente o austríaco Werner Boote em seu filme “Plastic Planet” (2009), no qual afirmava: “A quantidade de plástico que temos produzido desde o início da era do plástico é suficiente para circular até seis vezes o planeta com sacolas”. E não é só isso, que impacto há na saúde essa onipresença em nossa vida cotidiana? Um depoimento em tal filme dizia: “Comemos e bebemos plástico”. E isto, como denuncia o documentário, tarde ou cedo, nos trará a fatura.

A grande distribuição não apenas generalizou o consumo de grandes quantidades de plástico como, também, do uso do carro para ir às compras. A proliferação de hipermercados, grandes armazéns e centros comerciais na periferia das cidades forçou o uso de carros particulares para deslocar-se até estes estabelecimentos.  Ao tomarmos a Grã Bretanha como exemplo, e como indica o relatório Eating oil: food suply in a changing climate, entre os anos de 1985/86 e 1996/98 o número de viagens na semana, por pessoa, para fazer compras com o carro passou de 1,7 para 2,4. O total da distância percorrida também aumentou, dos 14 km por pessoa na semana, para 22 km, um aumento de 57%. Mais quilômetros, mais petróleo e mais CO2, em detrimento, além de tudo, do comércio local. Se no ano de 1998 existiam no Estado espanhol 95 mil estabelecimentos, em 2004 este número foi reduzido em 25 mil.

O que fazer?

De acordo com a Agência Internacional da Energia, a produção de petróleo convencional alcançou seu pico em 2006. Em um mundo onde o petróleo é escasso o que e como vamos comer? Em primeiro lugar, é necessário ter em conta que enquanto maior for da agricultura industrial, intensiva, quilométrica, globalizada, maior será a dependência do petróleo. Em contramão, quanto mais estivermos em um sistema de pequena agricultura, agroecológica, local, de temporada, menor será a “dependência” dos combustíveis fósseis. A conclusão, creio, é óbvia.

É urgente apostar em um modelo de agricultura e alimentação antagônico ao dominante, que coloque no centro as necessidades da maioria e do ecossistema. Não se trata de uma volta romântica ao passado, mas da necessidade urgente de cuidar da terra e garantir a comida para todos. Ou apostamos na mudança ou, quando não houver mais remédio, outros farão, como tantas vezes, negócio com nossa miséria. Não deixemos que a história se repita.

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