“Hoje em dia, a ciência assusta tanto a esquerda como a direita”, afirma o filósofo Mario Bunge

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Por: Jonas | 05 Maio 2014

Mario Bunge (foto) (Buenos Aires, 1919) é “um filósofo da ciência curioso”. Primeiramente, estudante de física e depois de filosofia, doutor com uma tese sobre cinética do elétron relativista, foi professor na Argentina, de onde partiu por motivos políticos em 1963.

 
Fonte: http://goo.gl/eS7UEr  

Após passar três anos dando aula em vários países, em 1965, chegou ao Canadá. Na Universidade McGill de Montreal deu aulas e hoje continua sendo professor emérito. Bunge visita Madri de passagem para Gênova, porque, como destaca, “dali é minha senhora”. Em Gênova passará dois meses, corrigindo a versão inglesa de suas memórias: “Vou observando que há passagens muito locais que quero mudar. Espero publicá-las em setembro”.

Serão as memórias de um lúcido observador do século XX, um observante atento da realidade analisada, sob o prisma materialista que o define, combatendo as escolas filosóficas “que não ajudam a buscar a verdade”, as doutrinas que anulam o ser humano e, também, as falsas ciências, da homeopatia à psicanálise, sempre com grandes doses de razão e de humor. Prêmio Príncipe de Astúrias de Humanidades e Comunicação, em 1982, seus livros estão publicados na Espanha por Gedisa e por Laetoli.

A entrevista é de Antonio Calvo Roy, publicada por El País, 02-05-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Pode haver filosofia fora da ciência?

Pode. A maior parte dos filósofos não sabe nada de ciência, estão vários milênios atrasados e não podem se aprofundar em questões importantes, que já foram respondidas pela ciência como, por exemplo, o que é a vida, a psique, a justiça...

Você disse que a ciência e a técnica são os motores do desenvolvimento. Como a crise está atingindo a produção de conhecimento?

De uma dupla forma. Primeiro reduziram em quase todas as partes os fundos para a pesquisa e, segundo, há uma crise ideológica e hoje a ciência assusta tanto a esquerda como a direita. Antes, os únicos inimigos da ciência estavam na direita; hoje há muitos esquerdistas que confundem a ciência com a técnica e acreditam que é, antes de tudo, uma ferramenta nas mãos das grandes empresas.

Aprenderemos algo desta crise?

Os golpes não ensinam nada, não acredito que aprendamos desta crise, sobretudo se os governos continuarem pedindo conselhos aos economistas que contribuíram para criá-la, aos partidários de políticas sem regulação.

Você disse que a técnica, diferente da ciência básica, mas semelhante à ideologia, nem sempre é moralmente neutra e nem, portanto, socialmente imparcial. Qual é a sua avaliação global sobre a atual expansão das tecnologias da informação e suas aplicações?

Todo avanço técnico tem aspectos positivos e negativos, desde o telefone celular ao iPad, que facilitaram a aquisição de informação, mas que estão destruindo a sociedade, isolando-a cada vez mais. Estão tendo um efeito desolador, por exemplo, cada vez mais se leem menos livros. Antes, os estudantes dedicavam 25 horas semanais para estudar, mas agora já são 15 e dentro de alguns anos serão 10 ou 5. As bibliotecas estão vazias.

O avanço e a facilidade da comunicação são positivos para a pesquisa?

A busca de informação faz com que tudo seja mais rápido, mas obstaculiza a criatividade e a imaginação. Antes, quando alguém não encontrava algo na biblioteca tinha que inventá-lo ou reinventá-lo, exigia-se mais esforço, agora se exige menos e isso não é bom.

Na biologia contemporânea há uma forte tendência à genomização que leva ao determinismo genético. O que você pensa disto?

Os biólogos autênticos não são deterministas genéticos. Hoje se fala de epigenética, o estudo das transformações que o genoma vai sofrendo pela ação do ambiente. Acreditava-se que o genoma estava blindado contra o ambiente, mas hoje sabemos que um rato separado de sua mãe terá uma progênie socialmente inadaptada.

É uma nova forma de determinismo genético?

Não, não é determinismo. Há dois determinantes, os genes e a experiência. É como perguntar que longitude tem um campo de futebol. O que importa não é apenas a longitude, é também a largura, a área, o mesmo acontece com o herdado e o aprendido. É inútil nascer com uma grande carga genética, caso se nasça em um deserto, um deserto cultural ou político que torne impossível a busca de novas ideias.

Cajal, com certa ironia, escreveu que o ser humano tem uma glândula do crer que vai se extinguindo pouco a pouco, mas que ainda continua presente. O que você pensa sobre o auge das falsas ciências?

Há algo de paradoxal. Quanto maior é a educação de uma pessoa, mais disposta está em acreditar em pseudociências, porque descobre a sua existência. O paradoxal é que a educação, da forma como está, ao invés de fazer com que as pessoas pensem de forma científica, faz com que se tornem mais supersticiosas. É muito comum encontrar especialistas científicos que se tratam com psicanalistas ou homeopatas.

O que se pode fazer?

É preciso qualificar a maneira de ensinar, que continua sendo muito dogmática. Ideias são ensinadas, mas não se ensina a debatê-las. A finalidade da educação é educar, não avaliar. Claro que necessito saber se o trabalho foi eficaz ou não, é necessária alguma maneira de avaliar, mas não com exames, que apenas valorizam a memória e fazem com que o processo de aprendizagem seja aterrador, ao invés de ser agradável e até excitante.

Há certa rejeição atual da sociedade para com a ciência, em questões como as vacinas. Ao que se deve?

É parte da rebelião dos mal educados. Há duas categorias de rebeldes, os que sabem algo e os que não sabem nada e se rebelam contra tudo e acreditam que todos os organismos do Estado, inclusive as escolas, são parte de uma conspiração para dominar as pessoas. É a noção do saber entendido apenas como uma arma política. Pode-se utilizar como arma política, mas a ciência tem uma finalidade, estimular e satisfazer a curiosidade.

O que você diria para aqueles que consideram que a história, a sociologia ou a psicologia não são ciências?

A história é muito mais científica do que a cosmologia. O bom historiador busca e apresenta evidência de prova, diferente dos cosmólogos fantasiosos, como Hawking. A história é a mais científica das ciências sociais.

E a economia?

É uma semiciência.

Como imagina o mundo em 2050?

Não me animo, não sou profeta. Pode ser que continue se degradando, pode ser que encontre um caminho mais razoável. Neste momento, a situação mundial está muito ruim, e o mundo está dominado por um império, como estava o mundo mediterrâneo ao final do império romano, e esse império está se expandindo.

A ciência será mais rápida na resolução de problemas como a degradação ambiental, por exemplo, ou a degradação avançará mais?

O mito moderno é que as tecnologias da informação vão nos salvar, que melhorarão a sociedade e salvarão a natureza, é um mito completo. Com um computador não se cultiva o trigo, embora convenha que o trator tenha reguladores eletrônicos, mas os grandes avanços na agricultura se devem à genética e à engenharia, que construiu máquinas melhores.

Então, atreve-se a fazer um prognóstico?

Os profetas me dão raiva porque confundem seus desejos com as possibilidades. Para fazer predições são necessárias leis e não temos leis de evolução da sociedade.

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