Casamento e família: ''Estou dentro da melhor tradição da Igreja'', afirma Walter Kasper

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22 Abril 2014

"O problema é sério demais para ser objeto de uma discussão sem fundamento." A afirmação, em um comentário publicado nessa terça-feira, 15, pela agência católica de língua alemã Kath.net, é do cardeal Walter Kasper, o homem encarregado por Francisco de abrir o debate sobre a família em vista do duplo encontro sinodal de outubro do próximo ano.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 16-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Kasper interveio para responder às críticas contra a sua conferência movidas pelo teólogo espanhol Juan José Perez Soba, professor de teologia pastoral do matrimônio e da família do Pontifício Instituto João Paulo II de Roma.

No dia anterior, também na Kath.net – retomando o que já havia escrito no jornal Il Foglio do dia 7 de março passado –, Perez Soba reiterara todas as suas perplexidades acerca da intervenção de Kasper diante do Sacro Colégio, que tinha alimentado um amplo debate entre os eminentíssimos (houve muitas intervenções contra a conferência, mas também inúmeras a favor).

"Admira-me que o professor Soba, sem aduzir qualquer motivação, afirme que eu proponho uma interpretação diferente do vínculo matrimonial que o priva do seu significado", escreve o presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, lembrando que tinha "excluído inequivocamente a possibilidade de um segundo matrimônio sacramental se o cônjuge anterior ainda está vivo". Possibilidade contra a qual, no entanto, já havia se lançado, tempos atrás, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, em mais de uma intervenção pública.

No máximo, especifica Kasper, "eu fiz de tudo para afirmar como e de que modo a doutrina da Igreja sobre o matrimônio não constitui uma teoria abstrata, mas está a serviço da real felicidade do homem, representando um estímulo para a pastoral da família e do matrimônio. Não consigo conceber que esse meu pensamento não tenha sido captado", acrescentou o purpurado.

Perez Soba explicara no Il Foglio que "a conversão da ferida da infidelidade nasce apenas da verdadeira misericórdia", isto é, quando é removido todo vínculo contrário à aliança sacramental no seu sentido esponsal. É esse – dizia – "o perdão que vem de misericórdia autêntica, muito diferente da simples tolerância e distante da questão casuística da alternativa entre rigorismo e laxismo. É o verdadeiro remédio que cura a ferida da infidelidade. Assim, o pecado de adultério deixa de ser o único pecado que poderia ser absolvido sem arrependimento e conversão".

Uma tese que Kasper devolve ao remetente: "A afirmação de que eu considero o adultério como o único pecado cuja remissão ocorre sem arrependimento é um absurdo puro, assim como não tem sentido afirmar que, para mim, a misericórdia equivale à tolerância do mal. Naturalmente, não se justifica o pecado, mas sim o pecador".

E depois o cardeal alemão acrescenta: "O tema da conferência não é mais a admissão à comunhão, mas sim ao sacramento da penitência e, portanto, à absolvição. A penitência pressupõe o reconhecimento da culpa e o relativo arrependimento, mas também a misericórdia e a remissão divina quando o pecador retorna a Deus".

Um terceiro ponto, enfim, levou Kasper a responder ao professor do instituto fundado por João Paulo II no início dos anos 1980: "Perez Soba defende que eu citei duas vezes no livro de Giovanni Cereti, sobre o qual ele manifestou duras críticas [críticas, na realidade, levantadas de modo aprofundado também pelo cardeal Walter Brandmüller, eminente historiador da Igreja], mas, na realidade, deveria afirmar que, por duas vezes, eu citei o então professor Joseph Ratzinger".

Mais do que "questões históricas", portanto, a proposta de Kasper é "a proposta de um caminho para além do rigorismo e do laxismo", referindo-se nisso a "Tomás de Aquino e Afonso de Ligório, o padroeiro dos teólogos moralistas".

Além disso, acrescenta o teólogo ex-assistente de Hans Küng, "eu citei 12 vezes a Familiaris consortio de João Paulo II", definido como "ilustre papa". Portanto, observa ainda, "encontro-me em boa companhia, ou seja, dentro da melhor tradição da Igreja".

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