Testemunhar a fé em tempos de adversidades. Cristãos e ditadura no Brasil

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Por: Jonas | 14 Abril 2014

Até que ponto é legítimo um cristão se envolver em lutas revolucionárias, em prol do bem comum? Qual é o limite de sua inserção? Qual deve ser o seu testemunho quando a realidade social, política e econômica lhe exige uma resposta profética? Essas e outras questões foram debatidas no ciclo de cinema Testemunhos da Fé, organizado pelo CEPAT/CJCIAS em parceria com a Pastoral da PUCPR e o IHU, em Curitiba. O ciclo de cinema fez alusão à relação entre fé e justiça social no bárbaro período de supressão das liberdades, durante os 21 anos da ditadura civil e militar no Brasil.

Foram quatro exibições: Ato de Fé (Alexandre Rampazzo), Hélder Câmara: o Santo Rebelde (Érica Bauer), Batismo de Sangue (Helvécio Ratton) e, por fim, O Evangelho segundo São Mateus (Pier Paolo Pasolini). Buscou-se oferecer uma atividade cultural que auxiliasse os participantes em sua preparação para a Páscoa, a partir desses testemunhos da fé, que tem como fonte a espiritualidade cristã encarnada na realidade social.

O comentarista do documentário Ato de Fé, Domenico Costella (FAVI/IFIL), ressaltou que o papa Paulo VI, em sua carta encíclica Popularum Progressio, abre uma exceção para a participação do cristão em insurreições em “casos de tirania evidente e prolongada que ofendesse gravemente os direitos fundamentais da pessoa humana e prejudicasse o bem comum do país” (n.31). Uma exceção que pode ser considerada revolucionária para o período em que a carta foi escrita: 1967. Costella relembrou o grande feito do Concílio Vaticano II ao considerar a Igreja como Povo de Deus e ao inseri-la no mundo. É dentro desse contexto que é possível entender a mudança de orientação da Igreja no Brasil, que passa de uma postura de legitimação do golpe militar para um reconhecimento dos grandes males desse regime.

Apesar da grande covardia de setores eclesiásticos, muitos cristãos, a partir de uma consciência bíblico-política, dentro do espírito da Teologia da Libertação, comprometeram-se com aqueles que buscavam a superação do regime ditatorial. Esse envolvimento de cristãos com a esquerda brasileira não é livre de contradições, contudo pode ser considerado uma tomada de posição, ou seja, parte da premissa de que a Igreja tem um lado, não é neutra, mas assume as dores e o compromisso com os setores nunca contemplados pelas elites brasileiras.

Figura emblemática desse período, dom Hélder Câmara foi uma das vozes da denúncia contra as torturas e atrocidades da ditadura militar. Discursou em muitos espaços e universidades fora do país, acarretando a fúria dos militares. Eclesiástico de fundamental participação no Concílio Vaticano II e na guinada da Igreja brasileira em favor dos setores populares e excluídos, Hélder Câmara não apenas sonhava as mudanças, mas criava mediações para que elas se tornassem realidade, como é o caso da sua importante participação na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e do Conselho Episcopal Latino-Americano. Na opinião de Mário Antonio Betiato (PUCPR), Hélder Câmara acreditava no processo de conscientização das pessoas, aliando política e pastoral, uma vez que política é sempre mediação para o bem comum, para a felicidade humana. Betiato lamentou o silêncio atual da Igreja a respeito de Hélder Câmara, a quem descreveu como poeta, político, místico, profeta, sacerdote, missionário... A ditadura tentou lhe calar, matou pessoas que eram queridas por ele, mas sua voz continua ressoando. E continua ainda hoje, diante do grande silêncio da Igreja, exceto manifestações proféticas de alguns poucos bispos brasileiros. Durante os anos da ditadura, Hélder Câmara assumiu um lado do conflito. Como disse Betiato, “Deus não é imparcial, está ao lado dos pobres”.

Frei Tito de Alencar de Lima, um dos dominicanos presos e torturados durante a ditadura, foi outro testemunho de fé ressaltado pelo ciclo de cinema. Após a exibição do filme Batismo de Sangue, um público comovido e atordoado pelas marcas da tortura debateu a respeitos dos limites de nossa capacidade de humanização diante da experiência do mal, presente nas relações entre torturadores e torturados. O envolvimento de jovens dominicanos com a Aliança Libertadora Nacional (ALN) serviu como pretexto para que religiosos, assim como ocorreu com outros cidadãos, fossem duramente torturados. Foram verdadeiros crimes contra a humanidade. O professor Angelo Ricordi (PUCPR) destacou que a tortura significa a total abolição da comunicação entre o torturador e a vítima. Na tortura, a palavra perde a sacralidade, pois o torturador só enxerga o banimento e a segregação de sua vítima. Ricordi destacou que mais do que a tortura física, o delegado Fleury, um dos mais carrascos desse período, destruiu Tito por dentro. Mesmo liberto da prisão, Tito nunca mais conseguiu se libertar da presença opressora de Fleury em seus pensamentos. Nesse sentido, o suicídio de Frei Tito significou um grito pela vida. “Antes morrer, que perder a vida”, escreveu o frei dominicano.

Angelo Ricordi fez a leitura de um belíssimo depoimento enviado por Paulo Botas, ex-frei dominicano, que conviveu com Tito, onde afirma que: “A ‘Resistência Brasileira no Exílio’, com o consentimento do grupo dominicano, organizou encontros para que (Tito) narrasse a sua tortura, detalhe por detalhe, em auditórios repletos de militantes de esquerda, intelectuais e religiosos e religiosas de todos os naipes. Forjavam dessa maneira, aos olhos europeus, uma ‘Igreja Perseguida no Brasil’, ocultando que os militantes da ALN foram presos por falha de segurança de sua própria organização. Tito internalizava, a cada nova narrativa, seus carrascos e aprofundava a sua dor no exílio e no banimento”. Ao final de seu depoimento, Botas considera que “Tito foi simplesmente um homem... sem veleidades de heroísmo nem auréolas de santidade”, e solicita para “que não sejamos nós a trair a sua vida e memória, transformando-o num espectro do que nunca foi e nem poderá ser para atender nossos desejos, frustrações ou aspirações políticas e religiosas”.

Entre os participantes desse debate, as feridas da ditadura também se mostraram vivas. Após relato emocionante como o desse ex-frei dominicano, um dos participantes se expôs publicamente, afirmando que também foi torturado pelo mesmo delegado Fleury. Seminarista no passado, tal participante lamentou tanto as dores deixadas pela tortura, como também as dores provocadas pela omissão dos líderes religiosos, que não tiveram a coragem de se solidarizar com os jovens cristãos que sonhavam com uma alternativa ao Estado ditatorial.

O ciclo de cinema Testemunhos da Fé foi encerrado com o debate sobre a figura de Jesus, apresentada pelo filme de Pasolini: O Evangelho segundo Mateus, de 1964. Seu filme é protagonizado por atores não profissionais. Nele reforça o discurso de Jesus, ou seja, um discurso revolucionário, com uma força profética que incomodou as autoridades da época em razão da extrema coerência entre o que Jesus dizia e vivia. O filme de Pasolini, homossexual e comunista, é dedicado a João XXIII, que despertou grande esperança na Igreja de sua época. Pasolini tenta recuperar o Jesus das origens, distante de todas as apoteoses advindas dos constructos posteriores. Nesse sentido, é um filme extremamente vinculado ao contexto social vivido por Jesus. O modelo de Jesus é o do Servo Sofredor, do segundo livro de Isaías. Foi a exibição ideal para encerrar essa atividade, pois, como bem disse Luzia do Rocio Pires Ramos (CEBI/Santos-Milani), Jesus é o verdadeiro testemunho de fé, uma vez que foi radicalmente fiel ao projeto de Deus.

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CEPAT/CJCIAS.

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