Francisco, o primeiro papa globalizado e a sua visão periférica

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • Cardeal Luis Antonio Tagle: a melhor nomeação do papa

    LER MAIS
  • Novo bispo austríaco se opõe ao celibato sacerdotal obrigatório

    LER MAIS
  • O Estado não existe na terra indígena mais letal para os guardiões da floresta

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

14 Abril 2014

"Para entender Bergoglio, devemos nos distanciar do nosso horizonte europeu." O professor Andrea Riccardi, historiador e fundador da Comunidade de Santo Egídio, considera Francisco como o primeiro papa da globalização: é preciso afastar o olhar da Europa "não porque se deva levar em consideração um horizonte apenas latino-americano, mas um horizonte verdadeiramente mundial", diz, acrescentando que, "em um horizonte global, o problema da secularização não é tão central, além disso".

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 08-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na opinião de Riccardi, "o cristianismo – e em parte o catolicismo – é desafiado hoje pela globalização, em um mundo que, depois de 2006, ficou caracterizado, para mais da metade dos habitantes, por grandes megalópoles. E é aí que se desenvolve o desafio de um mundo que faz com que as cidades se tornem periferia". Aqui "o cristianismo não é desafiado pela secularização laica, mas pelo anonimato, pela pulverização das existências, por outros mundos religiosos".

Para perceber isso, basta olhar para o México, onde "há uma linguagem religiosa global, mas que se expressa através do culto à Santa Muerte". Isso, explica o professor de história contemporânea da Terceira Universidade de Roma, "não é secularização, mas sim globalização; uma globalização que tem como pano de fundo um tecido religioso".

Um processo que atravessa as fronteiras dos continentes: em Kinshasa, Lagos e Kampala, "vemos fenômenos diferentes, mas de certa forma análogos". E assim também em Mumbai ou Xangai, onde o catolicismo é uma pequena minoria. "Eu acho que o desafio de Bergoglio se coloca nessa perspectiva, a de um mundo globalizado."

Um desafio que parece superar a questão das minorias criativas "que determinam o futuro", tão central em Bento XVI. Na opinião de Riccardi, "Bergoglio – e ao dizer isto eu o coloco em um paradoxo – defende que esse povo não é tão incrédulo como nós acreditamos. É um povo que tem perguntas, que vai ao santuário, que é mais cristão do que pensamos. É um povo religioso, e é a isso que devemos falar, dar o querigma evangélico, isto é, aquelas palavras que despertam nisso a fé evangélica".

É aí, nessa realidade, "que se encarna a teologia do povo". Uma perspectiva que parece nova ao nosso interlocutor: "Francisco não vê tanto as fronteiras entre a Igreja e os outros, mas capta as conexões e olha para um grande povo, crente, crente a seu modo, pouco crente". Essa é a dimensão do ministério do papa, "um grande missionário", com o qual "se completa a recepção do Concílio", através da "canonização de João XXIII, o papa que convocou o Vaticano II, e de João Paulo II, o papa que o recebeu". Sem esquecer que Bergoglio "quer a beatificação de Paulo VI".

Riccardi (foto) recomenda atenção quando se fala do povo que muitas vezes o pontífice que veio quase do fim do mundo cita nas suas homilias na madrugada de Santa Marta e nos discursos oficiais: "O discurso do povo é caro ao catolicismo do século XIX, mas me parece que o povo de Bergoglio não é o povo do interior, mas sim o povo que – como dizia Todorov – é marcado pela desorientação. A Igreja de Bergoglio não deve traçar fronteiras, mas sim construir pontes. O povo é um povo periférico. O primeiro a levantar o problema foi o arcebispo de Paris, Emmanuel Suhard, durante a Segunda Guerra Mundial. No povo das periferias daquela França, os missionários encontravam como antagonista o Partido Comunista, com o seu messianismo social. Nas periferias de hoje, a situação é diferente. Há as máfias, e não é à toa que há um número de freiras, padres e leigos que são mortos por elas – um, nas maras de San Salvador, também era da Comunidade Santo Egídio. Esses missionários têm o objetivo de construir um centro na periferia e, portanto, de agregar o povo. É por isso que Francisco aponta acima de tudo para o querigma".

O conceito de periferia representa o eixo do documento final da V Conferência de Aparecida, em 2007 – que teve no então arcebispo de Buenos Aires o principal redator –, que, no entanto, não é novo: "É verdade, mas a globalização o coloca de modo novo, eu diria até monstruoso", observa Riccardi. O fato é que agora "o centro não existe mais. Tomemos São Paulo. Onde está o centro geográfico? Não há. A Igreja deve se comportar em consequência disso, encontrando outros caminhos. O problema de fundo para entender Bergoglio é compreender o porte do desafio representado pela agonia do cristianismo, nas palavras de Unamuno. Bergoglio sabe bem que o cristianismo é desafiado à morte e ele é o primeiro papa que enfrenta os riscos da globalização. Falamos tanto de secularização, mas a globalização não é tanto secularizante, mas sim desumanizante, descristianizante e deseclesializante, para usar dois neologismos".

Muitas vezes, como remédio para esse processo, se insiste na importância de recorrer à piedade popular, como muitas vezes fez o teólogo Juan Carlos Scannone, muito próximo de Bergoglio. Riccardi, no entanto, convida "a não ir em busca do intelectual do papa, que tem um pensamento próprio importante, forte e original. Eu – acrescenta o historiador – falaria mais de uma teologia da Igreja de Buenos Aires. É uma síntese de diversas expressões teológicas. A piedade popular foi um pouco desprezada no pós-Concílio, porque se introduziu no cristianismo uma espécie de geometria pastoral feita de passagens, e expressão disso é a visão da Conferência Episcopal Italiana dos anos 1970. Em um estudo que eu realizei, por exemplo, se vê como nos anos da crise (anos 1960-1970), nos santuários, houve um crescimento de pessoas, e não um decrescimento. Pois bem, Bergoglio insiste muito na piedade popular, mas não a considera uma religião consolatória, de segunda categoria. E aqui está Wojtyla, que amava ao mesmo tempo os círculos intelectuais e os santuários. A mensagem que ele passa, portanto, é o de um cristianismo que é um povo, não uma geometria".

De acordo com o fundador da Santo Egídio, "Bergoglio realiza uma desverticalização da Igreja. Não há categorias de cristãos de categoria A e B, clero e bispos. Todas essas categorias se encontram na realidade do povo de Deus. Assim, do lado de um teólogo, há um santuário, do lado de um bispo, há uma mãe. Não leigos sindicalizados que, depois, no fim, se tornam clericais. A ideia de Bergoglio é a de um povo em que há muitas moradas na casa do Pai, todas com grande dignidade e grande história. Não é um discurso que deve ser negligenciado. Ele já estava presente em João Paulo II".

E a paróquia é a "casa comum desse povo", embora Francisco "reconheça a capacidade evangelizadora dos movimentos". No papa jesuíta, explica Riccardi, há "uma ideia de paróquia a ser repensada, porque muitas vezes os cristãos viram a paróquia como uma espécie de proteção. Mas, em Bergoglio, há o chamado à saída. Uma paróquia – e isto é indicado claramente na Evangelii gaudium – que deve ser vista do lado de fora, que se torna uma espécie de santuário para se ir. Há a ideia da santuarização da paróquia, muito diferente da ideia que se tem dela como um mero centro de atividades. Para Francisco, a paróquia é o lugar do silêncio, da confissão".

Quanto às prioridades inscritas na agenda do pontífice, o nosso interlocutor não tem dúvidas: "Bergoglio queria ser missionário no Japão, e a Ásia está no topo da sua agenda. Mas, já nos anos 1930, dizia-se que a Ásia era o desafio – eu encontrei documentos da Propaganda Fide nesse sentido –, e depois as coisas não ocorreram para o melhor. Temos tantas belas Igrejas de minoria: Paquistão e Indonésia, por exemplo. Temos o crescimento da Coreia do Sul. Em primeiro lugar, porém , devemos começar dizendo que temos dois grandes 'continentes', a China e a Índia. Com esta última, temos o problema de ter que lidar com um mundo e uma cultura inclusiva totalmente particulares. Eu me lembro – conta Riccardi – de uma vitrine em Nova Déli onde havia símbolos cristãos no meio de estátuas hindus. É uma cultura que absorve. Na China, há o problema diplomático e político, já resolvido no Vietnã. A meu ver, é fundamental estudar o que é a secularização chinesa, mais do que a francesa ou alemã. É necessário investigar a combinação entre comunismo e capitalismo. Na China, o catolicismo pode ter grande espaço, mas, para que isso ocorra, é necessário que os problemas sejam resolvidos. E se, como diz Bergoglio, o tempo é superior ao espaço, mesmo com uma solução medíocre com o governo, se ganhariam anos para a Igreja Católica na China e para a evangelização".

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Francisco, o primeiro papa globalizado e a sua visão periférica - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV