A teologia militante de Bonhoeffer. Artigo de Paolo Ricca

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09 Abril 2014

"Bonhoeffer viveu pessoalmente aquilo que ele diz em Resistência e submissão, isto é: ‘Entramos em um tempo em que o pensamento não pode mais ser o luxo do espectador, mas deve se colocar inteiramente a serviço da ação’".

Hoje, no 69º aniversário de sua morte, por enforcamento pelas forças nazistas, publicamos aqui uma reflexão sobre a teologia do pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, escrita pelo teólogo valdense italiano Paolo Ricca.

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 06-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Bonhoeffer é um dos poucos teólogos mártires, não só do nosso século, mas também de toda a história cristã. Tivemos teólogos mártires na Igreja antiga: pensemos em Justino ou em Cipriano; tivemos entre os anabatistas do século XVI – pensemos em Balthasar Hubmeier e Michael Sattler –, mas se trata de exceções.

Em geral, os acadêmicos, mesmo aqueles que pertencem à academia teológica, não se expõem às tempestades da história e mesmo em situações de conflito acabam sempre salvando a própria pele, seja pelo seu status social, geralmente privilegiado, seja por uma particular inclinação ao pensamento cortesão que muitas vezes caracteriza os acadêmicos de todos os tipos [...].

Ora, Bonhoeffer, que tinha diante de si uma brilhante carreira universitária, em certo ponto abandonou a cátedra, encontrou-se na luta da história do seu povo e acabou na forca do campo de extermínio de Flossenbürg, com apenas 39 anos de idade, na madrugada de 9 de abril de 1945 [...].

Ele viveu pessoalmente aquilo que ele diz em Resistência e submissão (Ed. Sinodal, 2003), isto é: "Entramos em um tempo em que o pensamento não pode mais ser o luxo do espectador, mas deve se colocar inteiramente a serviço da ação" [...].

Bonhoeffer logo percebeu que a universidade não é capaz de produzir um cristianismo militante capaz de enfrentar adequadamente o paganismo nazista. Por isso, arranca a reflexão teológica do contexto universitário e a enxerta na experiência viva da Igreja Confessante. Mas logo se dá conta de que a Igreja Confessante, no fim das contas, preocupa-se consigo mesma, com a sua ortodoxia, isto é, preocupa-se em vencer a batalha contra os "cristão-alemães" que queriam "nazificar" a Igreja: batalha sacrossanta, batalha necessária, batalha vencida, mas, mesmo assim, sempre batalha pela Igreja, pela salvaguarda da própria identidade.

Mas a missão da Igreja é o mundo, a sua preocupação principal devia ser a Alemanha, o povo alemão seduzido pelos nacional-socialismo. Nesse ponto, Bonhoeffer também abandona a Igreja Confessante, não no sentido de que se excluiu dos seus registros, mas no sentido de que, silenciosamente, emigrou dela e entra na fase em que o tema não é mais a universidade, não é mais a Igreja, é o mundo, o mundo "adulto" e secularizado, e dentro desse mundo mundo Bonhoeffer repensa e repropõe a sua fé cristã [...].

Ele imediatamente intuiu o caráter perverso do nacional-socialismo. No dia seguinte à nomeação de Hitler a chanceler do Reich, 30 de janeiro de 1933, Bonhoeffer colocou no ar uma transmissão radiofônica que girava em torno de duas palavras-chave daquele momento histórico, embora não falasse nem indiretamente de Hitler: führer (guia, líder) e verführer (sedutor).

O führer, o guia, é uma função legítima: hoje falamos de líderes. Mas o führer pode se tornar verführer, sedutor, quando interpreta o seu papel como o de um Messias, um Enviado de Deus, um Salvador do povo. Quando o führer se torna uma figura messiânica, torna-se um Sedutor. Bonhoeffer foi então profeta sem saber: mesmo não se referindo a Hitler, falava dele.

O seu compromisso político tem dois componentes. O primeiro é uma particular clarividência para discernir a natureza profundamente pagã do nacional-socialismo e, portanto, de declarar a sua incompatibilidade com o cristianismo. O segundo é a sua decisão de participar em primeira pessoa na conspiração que se propunha a eliminação de Hitler através de um atentado.

O primeiro componente está presente em Bonhoeffer desde o início. O espião revelador do caráter anticristão do nazismo foi, para Bonhoeffer, a sua guerra contra os judeus e contra tudo o que há de judeu no cristianismo, começando por Jesus e pelos apóstolos. Mas os teóricos do nacional-socialismo como Rosenberg falavam de um Cristo ariano e heroico, modelo de todas as virtudes combativas e de todos os sacrifícios. Segundo ele, era Paulo que tinha judaizado o cristianismo de Jesus, que era outra coisa bem diferente.

Mas mesmo Hitler, embora adotando uma atitude aparentemente tolerante em relação às Igrejas, meditava, quando chegasse o momento, sobre "erradicar o cristianismo da Alemanha até suas mais recônditas fibras e raízes" [...].

Segundo Hitler, ou se é cristão ou se é alemão, mas não ambos. O nacional-socialismo determinaria a conversão do povo alemão do cristianismo ao paganismo hitleriano. O Natal seria o nascimento do heroísmo alemão e da liberdade alemã. A Páscoa seria a festa da ressurreição do povo alemão. A suástica tomaria o lugar da cruz cristã [...].

Uma síntese dessa nova religião nos é oferecida pelas palavras contidas na obra de Alfred Rosenberg, Il mito del XX secolo (1930) [...].

A Igreja Confessante tinha, sim, combatido a doutrina dos cristão-alemães, mas não tinha se inclinado abertamente contra o regime de Hitler. O que Bonhoeffer fez, ao invés, de dois modos: primeiro, com a sua imediata e radical oposição ao chamado "parágrafo ariano" – uma lei que impunha que a Igreja demitisse todos os pastores que fossem judeus que se tornaram cristãos ou que tivessem qualquer ascendência judaica, mesmo que distante. Bonhoeffer não hesitou em declarar que, se tivesse aceitado o parágrafo ariano, a Igreja renegaria a si mesma, além do Evangelho; uma Igreja que aceita introduzir um discriminador de tipo racista entre os seus membros ou ministros não é mais uma Igreja cristã.

O segundo modo pelo qual Bonhoeffer se opôs frontalmente ao nacional-socialismo foi a sua escolha de um pacifismo radical justamente nos anos em que Hitler impunha à Alemanha uma corrida armamentista desenfreada, e aqueles que se professavam pacifistas eram considerados traidores e sabotadores da pátria.

Bonhoeffer proferiu naqueles anos (início dos anos 1930) discursos memoráveis, como aquele em que afirmou que a paz não é obtida nem com a diplomacia, nem com a internacionalização dos capitais financeiros, nem aumentando os arsenais militares, mas apenas com um ato de fé: "Ousar a paz por fé".

Ou aquele em que ele propôs a convocação de um concílio universal com o qual "a Igreja de Cristo, em nome de Cristo, tira as armas das mãos dos seus filhos e os proíbe de fazer a guerra e invoca a paz de Cristo sobre o mundo delirante".

O segundo aspecto com compromisso político de Bonhoeffer foi a sua participação direta na conspiração que teve como objetivo se livrar de Hitler [...].

Desse testemunho de fé na emergência criada pelo advento do nacional-socialismo, emergem duas indicações. A primeira é que, em relação à história (local, nacional, internacional), a Igreja, assim como cada indivíduo cristão, tem uma insubstituível função de sentinela: ela vigia sobre a noite e vê o perigo quando ele ainda está longe, alerta a cidade, levanta a voz em favor daqueles que não têm voz, sabe discernir o bem do mal, tem a coragem de dizer a verdade desmascarando a vergonha, de defender o órfão e a viúva, ou seja, os fracos da sociedade. Essa tarefa política é parte integrante da vocação da Igreja.

A segunda indicação é que nem sempre a escolha moral para um cristão (e para qualquer outro) é entre o bem e o mal, mas muitas vezes é entre um mal maior e um mal menor. Por isso é tão difícil de viver cristãmente.

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