''Le Goff descobriu as mil facetas da Idade Média'' Entrevista com Marc Ferro

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03 Abril 2014

Uma entrevista com o historiador Marc Ferro, colaborador do grande estudioso recém-falecido desde os tempos dos "Annales": "Sinto não só pelo erudito, mas também pelo homem que amava a música e a boa cozinha".

A reportagem é de Fabio Gambaro, publicada no jornal La Repubblica, 01-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Foi o melhor historiador da Idade Média que eu já conheci e é o historiador mais emblemático da nova historiografia francesa." É assim que Marc Ferro lembra de Jacques Le Goff, com o qual, durante décadas, compartilhou a aventura dos Annales, unanimemente considerada a página mais importante da historiografia francesa do século XX.

"Eu conhecia Le Goff há quase 50 anos", diz o historiador francês, autor de cerca de 60 livros, muitos dos quais traduzidos também ao italiano. "Desde o fim dos anos 1960, ambos chamados por Braudel, fizemos parte do grupo dos Annales. Junto com Emmanuel Le Roy Ladurie, dirigimos a revista por muitos anos, antes de deixar a direção a historiadores mais jovem do que nós."

Eis a entrevista.

Qual foi a contribuição de Le Goff para a historiografia da Idade Média?

Os seus estudos renovaram radicalmente a nossa visão daquela época histórica. E isso graças sobretudo à sua grande criatividade. Le Goff, de fato, sempre se interessou por temas de pesquisa geralmente ignorados pela história mais tradicional. Por exemplo, foi o primeiro a estudar a problemática do tempo na Idade Média, mostrando como o tempo dos mercadores era diferente do tempo da Igreja do dos agricultores. Demonstrando que os mercadores tinham uma visão diferente do presente e do futuro, ele soube enfrentar de maneira radicalmente nova um problema essencial para a história, ou seja, a percepção do tempo. Outro aspecto fundamental do seu trabalho é a atenção à mentalidade dos grupos sociais, que para ele era algo muito diferente das ideias e das ideologias.

Le Goff também se interessou por alguns aspectos da história da religião...

E, também nesse caso, com grande originalidade, já que jogou luz sobre âmbitos da história social e religiosa aos quais até então ninguém tinha pensado. Prova disso são os seus estudos sobre o purgatório, através dos quais mostrou que, depois de ter inventado a ideia do purgatório, o homem medieval pôde organizar a própria vida de forma diferente. De fato, a partir daquele momento, ele teve a oportunidade de redimir os próprios pecados, por exemplo, com a caridade. Em suma, Le Goff olhava para a história sempre de um modo novo.

Essa originalidade também está presente quando ele aborda personagens históricos mais conhecidos?

Certamente. Pense-se em San Luigi, o seu livro dedicado a Luís IX da França. Aqui também há uma grande novidade, porque ele conseguiu se livrar de todas as lendas da tradição, reconstruindo, ao invés, a história do rei santo através de uma variedade de documentos oficiais, testemunhos diretos, cartas da Igreja etc., propondo assim um retrato rico em nuances totalmente inédito.

Para usar o título de um livro seu, Le Goff soube nos levar Para uma outra Idade Média (Vozes, 2013)?

A meu ver, sim. Antes dele, dominava a ideia de uma Idade Média uniformemente obscura e decadente, que se seguiu a um renascimento igualmente uniforme. Le Goff mostrou que a realidade é muito mais complexa e que, sobretudo, não existe uma Idade Média única, resumível a uma única dimensão. Graças aos seus estudos, sabemos que há muitas idades médias diferentes. E, além disso, ele mostrou que as segmentações históricas são frequentemente esquemáticas e enganosas, como ele repetiu no seu último livro publicado no início deste ano, Faut-il vraiment découper l'Histoire en tranches (Seuil).

Le Goff foi um historiador da Idade Média que, no entanto, nunca permaneceu encerrado no passado...

É verdade, ele não era um estudioso encerrado na torre de marfim das suas pesquisas. Ele se interessava muito pelo presente e defendia com gosto – e sempre com grande coerência – as suas ideias de esquerda. Em várias ocasiões, ele também se posicionou publicamente, embora não fosse um daqueles intelectuais que sempre precisa intervir sobre tudo. Nos anos 1970 e 1980, esteve muito próximo dos historiadores poloneses e do seu amigo Bronislaw Geremek, ajudando-os a se libertarem do peso e do controle do partido. Portanto, ele era muito atento ao temas da liberdade e, mais tarde, às problemáticas da Europa.

No plano humano, como ele era?

Era um homem muito sociável, que amava a música e a boa cozinha. Ele gostava muito de discutir. E, de fato, nas reuniões dos Annales, discutíamos muitas vezes apaixonadamente, mas sempre de maneira cortês e conciliadora. Le Goff também tinha o gosto da transmissão e do ensino. Ele teve muitos alunos e discípulos, conseguindo formar toda uma nova geração de historiadores. Em suma, a historiografia francesa lhe deve muitíssimo. E seu nome deve ser colocado ao lado dos grandes historiadores que o precederam, Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel.

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