Os equívocos do gênero. Artigo de Christian Albini

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02 Abril 2014

Já se fala da teoria de gênero como há algumas décadas se falava do comunismo. Mas onde estão os Marx e os Lênin do gênero? Quais são o Manifesto e o Capital dessa ideologia? Como se chama e onde o seu partido tem sede? Em nenhum lugar, em todos os textos e discursos católicos sobre o gênero, encontra-se uma resposta a essas perguntas, porque, na realidade, "a" teoria de gênero simplesmente não existe.

A análise é do teólogo leigo italiano Christian Albini, coordenador do Centro de Espiritualidade da diocese de Crema, na Itália, e sócio-fundador da Associação Viandanti. O artigo foi publicado no sítio Vino Nuovo, 28-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um fantasma vaga pela Igreja Católica, o gênero.

Bispos, teólogos, meios de comunicação parecem competir ao denunciar o perigo que vem da teoria de gênero, que gostaria de apagar a diferença entre homem e mulher e, com ela, destruir matrimônio, família e papéis parentais.

O gênero aparece como a nova heresia que conquistou políticos e intelectuais, assediando a Igreja e o direito natural em nome do casamento gay. Da lei contra a homofobia aos registros dos casais de fato, passando pela educação sexual nas escolas, tudo parece impulsionado por um grande complô gender, levado adiante pelo movimento LGBT, como se fosse uma espécie de Spectre poderoso e ramificado. Essa narrativa está muito difundida no discurso público católico. Evoca um perigo e um inimigo contra o qual é preciso vigiar e se mobilizar.

O fato é que, talvez, as coisas não sejam exatamente assim.

Comecemos pelo "inimigo". Já se fala da teoria de gênero como há algumas décadas se falava do comunismo. Mas onde estão os Marx e os Lênin do gênero? Quais são o Manifesto e o Capital dessa ideologia? Como se chama e onde o seu partido tem sede? Em nenhum lugar, em todos os textos e discursos católicos sobre o gênero, encontra-se uma resposta a essas perguntas, porque, na realidade, "a" teoria de gênero simplesmente não existe.

Há 20 anos, quando eu frequentava a faculdade, nos meus cursos, eu me deparei com os "estudos de gênero" (gender studies no mundo acadêmico anglo-saxão), uma denominação que reúne pesquisas filosóficas, sociológicas e psicológicas que estudavam o feminino e posteriormente o masculino. Essas reflexões nasciam da conscientização de que a imagem da mulher e o seu lugar na sociedade eram determinados por uma cultura predominantemente masculina, que perpetuava uma ideia de inferioridade e uma prática de subordinação da mulher.

O objetivo era a compreensão da identidade e da diferença feminina, na medida em que não dependem do dado biológico, mas de uma elaboração simbólica e cultural. Um exemplo banal e imediato é a ideia, por um longo tempo universalmente aceita, da inferioridade intelectual da mulher, excluindo-a assim da vida política e dos estudos. Na mesma linha, os gender studies, inevitavelmente, começaram a se ocupar com as homossexualidades, que levantam questões particulares.

O ponto é que as teorias formuladas a esse respeito são muitas e muito diferentes. As representações a que me referi, por isso, são forçações arbitrárias, pois não refletem a realidade. Só as teorias mais radicais postulam uma insignificância da diferença biológica e, mais a montante, antropológica, com os riscos de desestabilização social e de desintegração da identidade do humano denunciados pelo Magistério. É um mau entendimento que fecha a porta, no mundo católico, a um debate sereno, porque muitas questões e perspectivas são reunidas indevidamente sob o rótulo depreciativo do gender.

Assim, joga-se fora com a água suja o bebê de um patrimônio de pensamento que ajuda a reconhecer e a valorizar plenamente na sociedade, mas também na Igreja, as riquezas do masculino e do feminino. Isso significa não conseguir compreender profundamente a imagem de Deus no "homem e mulher os criou" do Gênesis.

Se não soubéssemos pensar o feminino para além de costumes e representações estereotipadas, por exemplo, como compreender o exercício da maternidade na economia, na política, na ciência, para além do ato de gerar fisicamente os filhos? E o mesmo vale para o masculino. E para além da maternidade e da paternidade?

Há dez anos, Franco Giulio Brambilla, hoje bispo de Novara, denunciava um atraso na antropologia cristã: entre a identidade profunda e a sua realização, está a cultura, ou seja, os usos e costumes que estruturam a consciência e as relações. Em que consiste uma cultura cristã da identidade de gênero? Em outras palavras, como a fé cristã faz discernir e viver concretamente no cotidiano a verdade do ser homem e mulher? Certamente, isso significa romper relações de poder que é cômodo manter. Pensemos na discussão sobre as mulheres nas listas eleitorais...

O Papa Francisco sabe muito bem disso, quando põe o problema do acesso das mulheres a papéis de decisão na Igreja (cf. Evangelii gaudium 104). Também o sabem ainda melhor muitas teólogas, religiosas e leigas, que conhecem bem esses temas e cuja voz ainda encontra pouco espaço.

Entre elas, lembro Serena Noceti, vice-presidente da Associação Teológica Italiana, que publicou recentemente um texto interessante, Sex gender system: una prospettiva? (no livro coletivo Avendo qualcosa da dire. Teologhe e teologi rileggono il Vaticano II, Ed. Paoline, 2014), que ajuda a ter ideias mais precisas. Retomo apenas duas passagens.

"A pergunta sobre a identidade de homens e mulheres coloca-se no cruzamento entre natureza e cultura, sem reduções indevidas e insustentável unicamente ao dado da diferença biológica e genética, sem restrições a leituras estáticas dos 'papéis sociais'."

Isso significa desmascarar falsas ideias de natureza, que remontam a uma filosofia essencialista e a-histórica, que legitimam a marginalização feminina também em âmbito religioso. De fato, nos documentos da Igreja "o sujeito humano é apresentado de modo aparentemente neutro. Hoje, estamos mais atentos ao fato de que, na realidade, toda theoria antropológica ocidental nasce e se desenvolve em torno de um código androcêntrico, em torno a um masculino universalizado e declarado neutro. A perspectiva de gender permite decodificar o implícito, criticar os conceitos falsamente universais de pessoa, indivíduo, sujeito eclesial, revelar os mecanismos simbólicos do masculino e do feminino na liturgia, ao dizer Deus e o ser humano, ao pensar a revelação e a história da salvação, ao definir a Igreja (por exemplo, as metáforas femininas de esposa e mãe)".

 

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