O Papa gosta de Marx

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Por: Caroline | 17 Março 2014

“Esperamos por Marx por cerca de quarenta anos. E ele acaba de chegar, mas é um sacerdote católico”. O jovem Reinhard Marx (foto) se divertia ao iniciar dessa maneira seu discurso quando tinha que atravessar a cortina de ferro em suas viagens pelas “Landers”, da antiga União Soviética (URSS), antes da queda do muro de Berlim. Hoje, dentro do colégio cardinalício é um dos “big shots” da Igreja alemã. O cardeal que se identifica como corredator do Manifesto do Partido Comunista, é um dos mais espontâneos e abertamente sintonizado com a percepção evangélica que anima a Igreja na era do Papa Francisco.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 13-03-2014. A tradução é do Cepat.

Antes do Conclave, Marx y Bergoglio não haviam tido grandes contatos. O Papa argentino deve ter apreciado a energia e a, quase nula, propensão às queixas vitimistas que distinguem aquele jovem filho extrovertido da Vestfália, região histórica da Alemanha. Desse modo, a um mês do início do pontificado, Marx foi chamado a integrar o “C8” (o conselho dos oito cardeais que ajudam Francisco na reforma da Cúria e no governo de toda a Igreja). Posteriormente, em março, Papa Francisco o nomeou como Coordenador do novo Conselho para a Economia, entidade que coordenará e supervisionará todas as atividades econômico-administrativas do Vaticano. E na quarta-feira, 12 de março, os bispos alemães o elegeram Presidente da Conferência Episcopal, destacando, desde o início, sua função como garantia de uma nova direção que retomará as relações entre a Igreja alemã e a Santa Sé.

Fonte: http://goo.gl/eHyjfg

Marx e Bergoglio são diferentes tanto pela idade como pelo temperamento. Entretanto compartilham o “sensus” pastoral que ajuda a ver as coisas tal como são: sem ingenuidades e sem catastrofismos paralisadores. Os expoentes das etiquetas políticas aplicadas a Igreja, que ficaram completamente desorientados com o Pontificado bergogliano, estão buscando atribuir-lhe o papel de “progressista”. Operação de desinformação que deixa transparecer certas ideologias patéticas.

Na Igreja alemã, recolhida há décadas, a oposição entre opostas leituras ideológicas herdadas do Concílio, Marx sempre foi um bispo “naturaliter” wojtyliano e, em seguida, ratzingeriano, mas sem ostentações. Diferentemente dos outros, seu convite para o colégio cardinalício não foi ditado pela lógica das implementações ou mudanças na deprimente representação das facções eclesiásticas. Foi justamente Papa Ratzinger quem o chamou para guiar a diocese de Munique e Freising, as quais ele mesmo já havia dirigido entre 1978 e 1981.

Agora, na guerra iniciada contra o cardeal Walter Kasper (em diferentes blogs e sítios neo-moralistas) devido ao seu pronunciamento sobre a família durante o último Consistório, Marx tomou partido pelo cardeal ancião. E seus argumentos, expostos com sua habitual clareza (“O fundamento teológico da relação do cardeal Walter Kasper não pode ser posta em discussão”), têm autoridade e persuasão, pois não podem ser resolvidos com queixas de um seguidor da arqueologia clerical-progressista.

A possibilidade de que a Igreja alemã possa, com o tempo, adequar-se a “voltar à fonte sugerida por Papa Francisco, emancipando-se das velhas dialéticas extenuantes nas quais tem esbarrado durante décadas, terá um ponto de apoio no enérgico sentido eclesial de Reinhard Marx. Ele sabe muito bem que, enquanto os círculos católicos se congestionam em batalhas absurdas entre “progressistas” e “conservadores”, em alguns Landers do oriente alemão os não batizados superam os 80%. “Todos os estratos sociais”, recordava Marx em uma entrevista de 2009, “podem escolher o que quiserem, a religião que queiram professar, ou quantas vezes irão se casar (até cinco ou seis vezes). É um caminho inédito, vertiginoso e, para cada um dos indivíduos envolvidos, inclusive para os bispos, poder ser cansativo e doloroso. Todavia não o atravessaremos em virtude de slogans sobre a maldade da sociedade ou por supostos erros cometidos pelo Papa, nem mesmo sobre o celibato sacerdotal e outras questões secundárias”.
 
De maneira resumida, as afinidades entre o arcebispo de Munique e o atual bispo de Roma saltam aos olhos: a comum sensibilidade pastoral sobre os efeitos dolorosos provocados nas existências de povos inteiros sob a ideologia messiânica neo-liberalista. E a instintiva aversão pelos que reduzem o cristianismo a uma ideologia religiosa que apoia a economia de mercado. Sempre jogando com a homonímia que o vincula ao filósofo que residiu em Londres. Reinhard Marx intitulou seu livro mais famoso, publicado em 2008, com estas palavras: “Das Kapital”. Este livro representa uma convincente “crítica cristã as razões de mercado”. Uma mina de planejamentos analíticos pouco usuais, sobretudo em relação às abstrações moralizantes das intervenções de muitos autoproclamados especialistas em doutrina social da Igreja.
 
De acordo com Marx, a principal vítima da aceleração capitalista que começou nos anos 90 é, justamente, essa economia social de mercado, irrigada pela doutrina social da Igreja, que parecia ter sido desmentida através dos fatos provenientes das profecias marxistas sobre o colapso sistemático do capitalismo. “Tenho notado com surpresa”, escreveu o homem da Igreja em seu “Capital”, dirigindo-se ao filósofo do mesmo nome, “que o senhor, caro Marx, há 150 anos havia observado que ‘o entrelaçamento de todos os povos na rede do mercado mundial e, como consequência disto, o caráter internacional do regime capitalista’”. E é justamente no “homo economicus” traçado pelo messiânico capitalista que se realiza o economicismo de Karl Marx, a redução de todo o humano a categorias econômicas.

O bispo alemão enfrenta, com a paixão pastoral e tons “bergoglianos”, os efeitos concretos (e devastadores para a vida de milhões de pessoas) que colocaram em funcionamento os espirais da especulação desenfreada. Fala com conhecimento de causa sobre os Global Players a desertificação do varejo. Conta com anedotas cotidianas da erosão dos salários e dos estados sociais, a precariedade universal do trabalho e o “aumento espantoso nos Estados Unidos do número de ‘working poors’, isto é, as pessoas que mesmo tendo um emprego fixo, vivem abaixo da linha da pobreza”. Fotografia feita com dados numéricos, que causam calafrios para a acumulação do capital das oligarquias dos super-ricos. Ridiculariza principalmente aqueles que querem difundir a imagem da Igreja como “produtora moral”, garantia da correção “compassiva” do neocapitalismo, para adoçar a clivagem social imposta pelos novos modelos econômicos.

“Apesar de todas as críticas dirigidas a Igreja – escreve Reinhard Marx – dela espera-se, de qualquer forma, o “rearmamento moral” na ausência de outras instituições. Como se pudesse cozer a moral como se assa um pão. Ou como se a moral fosse a essência do cristianismo, como se Jesus houvesse essencialmente pensado em fundar nossa sociedade na moral. Não consigo encontrar nenhuma confirmação, ao folhear as páginas do Evangelho, de que esta tenha sido sua principal preocupação”.
 
Certamente, quem já anunciava o triunfo das “companies” do capitalismo global e na gestão dos assuntos econômicos do Vaticano (estigmatizando-o com a característica contraditória da reforma colocada em andamento por Francisco) terão que revisar suas previsões após a chegada de uma pessoa como Marx, que coordenará o novo Conselho Vaticano para a economia.

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