Vaticano pede para religiosos e padres viverem na pobreza e rejeitarem o capitalismo

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11 Março 2014

No último fim de semana a Congregação do Vaticano responsável por aproximadamente 900 mil padres, irmãos e irmãs das ordens religiosas de todo o mundo contou com eles para reavaliar o uso de seus ativos financeiros e criticar a economia de mercado capitalista, chamando-a de injusta para com os mais necessitados do mundo.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 10-03-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ao realizar uma conferência nas proximidades do Vaticano para cerca de 500 tesoureiros e tesoureiras das ordens globais no sábado e domingo, o escritório do Vaticano olhou para os primeiros ensinamentos da Igreja, contando com os participantes para que rejeitem a acumulação de bens a fim de seguir a Jesus, “o homem pobre que vive em solidariedade com os pobres”.

Estas foram as palavras de Dom José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação, que no discurso de abertura também disse: “Os discípulos não devem ter nada, nem pão, nem dinheiro consigo”.

Carballo continuou, criticando as ordens religiosas que têm acumulado riqueza ao longo dos anos: “Sempre justificamos a acumulação para a missão, mas este dinheiro não chega até a missão”.

O arcebispo disse que acumular tal riqueza “implica o perigo de não se estar na presença de Deus (...), de perdermos a memória de Deus – de confiarmos nele – e de acabarmos nos esquecendo dos pobres”.

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica organizou o primeiro encontro desse tipo a pedido do Papa Francisco.

Ao longo das cerca de 15 falas durante os dois dias, palestrantes convidados pelo organismo enfatizaram tanto as questões práticas que as ordens religiosas enfrentam no mundo – especialmente como lidar com propriedades vacantes e ativos numa época de encolhimento das vocações para a vida religiosa – quanto algumas questões mais amplas, como a forma que os religiosos devem responder às disparidades no sistema econômico global.

Um tema constante no evento, ocorrido na Pontifícia Universidade de Santo Antônio, em Roma, foi a crítica ao sistema capitalista, ao qual vários palestrantes chamaram de “estrutura de pecado” que, de modo proposital, não atente às necessidades dos mais pobres.

Destacando a resposta da Igreja ao sistema econômico global ao longo dos últimos cem anos, um apresentador, Stefano Zamagni, disse que foi um “erro imperdoável” que a Igreja não mais tenha criticado abertamente o sistema capitalista.

Zamagni, professor de economia política na Universidade de Bolonha, na Itália, e membro da Pontifícia Academia das Ciências, criticou particularmente o modelo americano de capitalismo, o qual, disse, permite às pessoas explorarem os recursos do mundo para juntar mais riqueza e, então, espera que eles se foquem em obras de caridade quando eles estiverem ricos.

“Um cristão justo não pode aceitar isso”, afirmou Zamagni. “Não é eu quem está dizendo isso. São as Escrituras. Não podemos aceitar esta lógica”.

Citando os escritos dos papas Paulo VI e João Paulo II sobre as “estruturas de pecado”, Zamagni disse aos religiosos que se permitirem que o dinheiro das congregações seja usado segundo as normas da sociedade para a acumulação de riqueza, estarão contradizendo os ensinamentos da Igreja.

“Se no plano individual nos comportamos de uma boa maneira, mas institucionalmente fizermos coisas erradas, não seremos bons cristãos”, disse. “Se eu sou bom, mas as regras do jogo são perversas, farei coisas más”.

Em apontamentos lidos aos participantes pelo prefeito da Congregação, o cardeal brasileiro João Braz de Aviz, o Papa Francisco alertou os religiosos contra uma “pobreza teórica”, escrevendo que estes precisam de uma pobreza que venha do “tocar a carne dos pobres de Cristo: os humildes, os pobres, os doentes, as crianças”.

Da mesma forma, Carballo em sua fala citou a história presente no Evangelho de Lucas de como Jesus tratou um homem rico que pedira para ser seu discípulo. Segundo o relato, Jesus disse ao homem que ele deveria renunciar a sua riqueza se quisesse segui-lo.

“Aqueles que não renunciam a riqueza não podem ser discípulos”, afirmou Carballo. “Esta relação está bastante clara. Os discípulos são chamados a seguir a Deus. São chamados a confiar tudo a Deus e somente a Deus”.

Citando o documento do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo moderno, “Gaudium et Spes”, Carballo disse que os religiosos e as religiosas devem se focar na administração de seus bens de forma que traga benefícios “não só para os proprietários, mas também para os demais”.

O arcebispo disse que o ensino da Igreja sobre esta questão “deve deixar de ser apenas palavras devendo estar na base para a criação de uma nova sociedade” que “lute para redimir as pessoas – os filhos e filhas de Deus – contra um uso indiscriminado de bens temporais”.

O encontro do fim de semana, sob o tema “Gestão dos bens eclesiásticos dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica para o serviço da humanidade e para a missão da Igreja”, realizou-se em grande parte em italiano contendo interpretação simultânea para o inglês, espanhol e francês.

O evento deu sequência a observações feitas pelo Papa Francisco, que pediu aos líderes das ordens religiosas para reavaliarem a gestão de seus ativos, especialmente dos mosteiros e conventos não mais utilizados que, nos últimos anos, vêm sendo usados para atividades sem fins religiosos, tais como hotéis e restaurantes.

Um outra palestrante na conferência foi a Irmã Evelyne Franc, superiora geral da ordem internacional das Irmãs da Caridade, com sede na França e fundada sob o carisma de São Vicente de Paulo, no século XVII.

Realizando uma mesa-redonda no domingo sobre uma “economia profética e de comunhão com solidariedade”, a religiosa disse que sua ordem revisou suas constituições em 2003 para incluir a promessa de “trabalhar para mudar as estruturas injustas que causam a pobreza”.

Franc afirmou que as ordens enfrentam um “desafio de autenticidade entre nossos princípios e o que fazemos”.

“Corremos o risco de deixarmos o dinheiro ser o nosso senhor e de deixarmos de lado a Doutrina Social da Igreja quando nossas congregações estão em jogo”, afirmou. “Precisamos ser vigilantes em nosso estilo de vida de modo a contrariar esta cultura”.

Entre outros a falar durante o evento está o arcebispo de Indianápolis, Dom Joseph Tobin, que falou sobre como a gestão dos bens e ativos das ordens religiosas afetam os bispos diocesanos.

Tobin, membro da ordem dos Redentoristas e que precedeu Carballo como secretário da Congregação para os Institutos de 2010 a 2012, destacou particularmente o processo que os religiosos deveriam seguir quando decidem fechar um ministério que eles mantêm numa diocese, tal como uma escola ou hospital.

Trazendo vários exemplos em que os bispos e as ordens religiosas discordaram sobre o fechamento de uma obra, Tobin pediu aos religiosos para estarem em “constante comunicação” com seus bispos sobre suas necessidades.

No entanto, disse, os bispos locais às vezes fazem “intervenções injustas” na forma como as ordens decidem trabalhar.

Igualmente falando durante uma mesa-redonda no domingo estava Kerry Robinson, diretor executivo da National Leadership Roundtable on Church Management, organização católica norte-americana de leigos, religiosos e sacerdotes voltada à gestão financeira e de recursos humanos com sede nos Estados Unidos e que busca promover as melhores práticas de gerenciamento dos recursos da Igreja.

Robinson encorajou os religiosos e religiosas a contar com os especialistas leigos em vários campos para ajudá-los no uso de seus ativos financeiros, dizendo que isso ocasiona um “subproduto elegante e vital” da evangelização de tais especialistas.

“Ficamos muito mais propensos a nos tornarmos plenamente imersos e investidos na vida da Igreja quando somos reconhecidos por aquilo que fazemos de melhor e quando somos convidados a combinar este serviço com a Igreja”, afirmou Robinson.

Carballo, secretário da Congregação, no último sábado disse que a congregação do Vaticano está planejando usar os debates da conferência deste do fim de semana como um ponto de partida para esboçar as diretrizes às ordens religiosas quanto ao uso de seu dinheiro.

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