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21 Fevereiro 2014

"As decisões cruciais no capitalismo são tomadas pelos donos da riqueza e de sua forma suprema, o dinheiro. Frágeis e ariscas subjetividades, os potentados do capitalismo são, ao mesmo tempo, escravos da imensa fábrica social montada para produzir riqueza monetária", escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e professor, em artigo publicado por Carta Capital, 18-02-2014.

Eis o artigo.

Em sua primeira manifestação pública, a nova presidenta do Federal Reserve, Janet Yellen, prometeu prudência na redução do Quantitative Easing. Os mercados agradeceram. Yellen deu de ombros às queixas do presidente do Banco Central da Índia, Raghuram Rajan, que apontou o dedo para os efeitos negativos das reviravoltas da política monetária americana sobre os países de moeda não conversível. Repetiu sem pronunciá-la a expressão mais frequente nos diálogos do filme de Scorsese, O Lobo de Wall Street: Fuck You!

A imprensa nativa e os comentaristas do pedaço não informaram aos leitores que as desvalorizações cambiais nos emergentes teve a companhia da reversão de um novo ciclo de sobrevalorização de ativos no centro do sistema mundial. A “perda de riqueza” que acompanhou a queda das Bolsas americanas e o mercado de imóveis em janeiro é estimada em 3 trilhões de dólares.

A fase de “euforia” que imantou os mercados acionários e de imóveis foi alimentada pela generosa expansão do balanço do Federal Reserve, empenhado em limpar os ativos podres da contabilidade dos bancos privados e ocupado com a “compra” de títulos de dez anos, com o intuito de manter baixas as taxas de juro “longas”. A política de abastecimento de liquidez, mais uma vez, inflou as expectativas privadas novamente otimistas a respeito da evolução dos ganhos de capital.

Se for como parece, estamos diante de um fenômeno que dizem ser típico do capitalismo. Keynes, considerado morto e enterrado pelos mascates da nova teoria econômica, desconfiava que as decisões dos possuidores de riqueza e dos responsáveis pelo financiamento de “posições” em ativos de diversas classes são tomadas em condições de incerteza radical.

Isso significa que de nada adianta iludir-se com o conhecimento do passado ou do presente, projetando tais tendências para o futuro. Tampouco é possível atribuir probabilidades às trajetórias prováveis da economia.

Para vencer esse estado desconfortável de incerteza, os controladores da riqueza e do crédito têm de lançar mão de informações, avaliações e crenças que julgam sustentar as decisões dos demais. O processo de incorporar nas próprias avaliações os julgamentos dos seus pares, a despeito de ancorado na mais profunda ignorância, vai constituindo um “consenso do mercado” em cada momento.

As decisões cruciais no capitalismo são tomadas pelos donos da riqueza e de sua forma suprema, o dinheiro. Frágeis e ariscas subjetividades, os potentados do capitalismo são, ao mesmo tempo, escravos da imensa fábrica social montada para produzir riqueza monetária.

Estão obrigados a seguir a regra do quanto mais, melhor. A compulsão os afasta da utopia de Bentham e dos utilitaristas, cuja filosofia está nas origens da moderna teoria econômica: esses reformadores viam na sociedade burguesa a realização da felicidade geral, ou seja, quanto mais, melhor, para o maior número.

No entanto, a felicidade imaginada pelos possuidores de riqueza está na liberdade de dispor de dinheiro, empreender e acumular mais riqueza sob a forma geral, abstrata, ou seja, mais dinheiro. A doce liberdade da riqueza os condena a realizar os desígnios da razão sistêmica: desejam mais porque temem ficar com menos.

É possível, no entanto, que essas pobres almas, assim torturadas pela sede insaciável de riqueza, flutuem algum tempo naquele espaço improvável entre os dois extremos fatais, o zênite da euforia compartilhada e o nadir do medo contagioso. Os períodos de “normalidade”, estes são sustentados por arranjos sociais e formas institucionais que compõem um determinado “estado de convenções”. Nesse ambiente cognitivo e psicológico o presente parece confirmar o passado e indicar os critérios para o futuro.

Desafortunadamente, quando a cadeia de certezas está no auge, irrompe a reversão, muitas vezes o colapso. Neste momento de agruras, tornou-se evidente que a acumulação de bons resultados precipitou a deterioração da percepção do risco. A “comunidade” passou a sobrestimar os ganhos, provocando violenta e generalizada “inflação de ativos”, investimento excessivo em muitos setores e fragilidade financeira. Daí a alta chance de uma crise bancária e o desconforto dos países com serviços pesados de seu passivo externo.

Quando a maré sobe, não há prudência ou conselho capazes de resistir à liberação completa das forças da ambição. Estas se apresentam, aliás, como oniscientes, onipotentes, sólidas, inexpugnáveis. Até o momento em que se desmancham no ar.

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