''Apresento-lhes São Francisco, o verdadeiro''. Entrevista com Dario Fo

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19 Fevereiro 2014

Esta história que Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura, relata no seu último espetáculo também poderia ser intitulada de "a mistificação de um místico". Ou seja, como a vida e a pregação de São Francisco, o santo padroeiro da Itália, foram manipuladas, falsificadas, principalmente adoçadas. Lu santo jullàre Franzesco – que depois da ótima acolhida no Teatro Duse, de Bolonha, estará em turnê em outras cidades – é a reedição atualizada de um texto que o prêmio Nobel trouxe aos palcos há 20 anos.

A reportagem é de Silvia Truzzi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 16-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que o monólogo começa com uma semelhança com o Papa Francisco?

Ninguém antes de Bergoglio tivera a coragem de escolher esse nome: não devemos nos admirar, porque esse modo revolucionário de conceber o cristianismo provocou muitíssimos problemas a Francisco, dentro da sua ordem, com a luta entre conventuais e espirituais, e fora dela, dada a oposição da Igreja à sua pregação da pobreza e amor.

Assim também esse papa renomeado como Francisco deve acertar as contas com as hierarquias vaticanas, com o lucro e a gestão de bens e de movimentações bancárias sempre no limite, e muitas vezes até mesmo para além da legalidade. Mas Bergoglio – esta é a coisa realmente importante – não parou naquilo que eu chamo de "santinho" de Francisco, isto é, na narração fingida que a Igreja difundiu ao longo dos séculos: as suas palavras se remetem àquelas expressões e ideias usadas pelo santo de Assis durante os seus sermões.

Há quem defenda que a operação de Bergoglio seria apenas de marketing ou pouco mais.

É uma bobagem, raciocínios superficiais de pessoas desatentas e estúpidas. Basta olhar para o papa, os seus modos, o seu vestuário; basta pensar na sua escolha de ficar longe das pompas do Vaticano. E não nos esqueçamos de que as decisões corajosas que ele tomou acerca dos padres pedófilos ou do IOR! Eu digo corajosas porque outro papa inovador acabou mal, como sabemos.

Quem era Francisco realmente?

Eu estudei muito o santo de Assis e encontrei coisas surpreendentes, especialmente nos textos de um pesquisadora chamada Chiara Frugoni. Ela explica como, durante o Capítulo de Narbonne, em 1260, portanto cerca de 40 anos depois da morte de Francisco já canonizado santo, decidiu-se apagar completamente todos os textos que contavam a verdadeira história do "pobrezinho de Assis", substituindo-a por outros eventos. Alguns tirados até mesmo das vidas de outros santos! Uma usurpação.

Pode nos dar alguns exemplos?

A história de amor com Clara é apenas mencionada, eu diria até tocada de leve. Mas desapareceu totalmente a participação de Francisco, aos 17 anos, da revolta que estourou depois da morte do imperador Henrique VI, da Suábia, o filho do Barba Roxa. Durante a revolta, foram expulsos os senhores que haviam dominado a população, graças à proteção do imperador, e foram demolidas as torres da cidade. É óbvio que bispos e cardeais reunidos em Narbonne não puderam aceitar que, na história de um santo, descubra-se um revolucionário extremista. Então, eis que "os revisores de Narbonne" ordenam a eliminação até mesmo do episódio do alistamento do futuro santo nas tropas comunais. Não se podia nem mesmo referir qualquer coisa do confronto entre os mercenários da Perúgia e os armados de Assis.

Mas é importante, porque, aqui, Francisco é capturado: vai acabar na prisão da Perúgia. Um bom lugar, que ainda hoje é definido como "lu tumbone de morte", já que sair vivo de lá era raro: a comida era atirada de cima, e quem conseguia pegá-la sobrevivia. Se você fosse velho ou estivesse ferido, não comia. O pai de Francisco, Bernardone, tentou de todos os modos libertar o filho. Ninguém lhe deu ouvidos, e então ele tentou – fenômeno desconhecido em toda a história da Itália – a carta da corrupção. Mas nada, nem mesmo o dinheiro funcionou. Coisas em que não é possível acreditar, eu digo no teatro: a corrupção e o jogo dos subornos, naqueles tempos, não funcionavam. Talvez seja por isso que os chamavam de "tempos sombrios".

Outras circunstâncias censuradas?

Você sabe onde Francisco aprendeu a trabalhar como pedreiro? Quando ele e os seus companheiros de armas foram condenados, depois de serem libertados da prisão, a reconstruir as torres derrubadas, uma a uma.

Para que serviu essa operação de "limpeza"?

Francisco era muito amado e foi imediatamente feito santo, apenas dois anos depois da sua morte. Mas a Igreja não podia tolerar que um santo fosse rebelde. Era algo inaceitável. Foi um milagre – eu uso essa palavra de propósito – a descoberta dos textos antigos que relatam trechos inéditos da sua vida: foram encontrados, de repente, cerca de dois séculos atrás, em alguns mosteiros beneditinos distantes.

Um trecho muito bonito do seu monólogo é quando você interpreta o encontro entre o Papa Inocêncio III e Francisco.

Um encontro embaraçoso para a hierarquia eclesiástica. O papa nem sequer queria receber aquele vagabundo esfarrapado: ele o fez esperar durante dias. O que o convenceu foi um sonho, e esse fato é conhecido. Uma noite, apareceu a Inocêncio a imagem da Igreja que entra em ruínas, literalmente, e Deus lhe diz que Francisco a salvaria. Assim, ele o encontra: Francisco queria que a sua regra fosse canonizada e a ilustra ao papa. Ele lhe explica que, segundo ele, a caridade aos necessitados deve ser espontânea, não deve ser monopólio da Igreja, porque arrogar-se o direito de decidir a quem ajudar é um poder grande demais. Um negócio.

O Santo Padre, naturalmente, não concorda: para que levassem esse inoportuno dos seus pés, ele o aconselha a ir contar a sua nova regra aos porcos, que o ouviriam com paixão. Francisco vai, fala com os porcos, chama-os de irmãos, abraça-os. Depois, volta, todo cagado (smerdato), ao encontro do papa que está almoçando com convidados ilustres. Inocêncio, incomodado com o fedor, está prestes a ordenar que os guardas batam no intruso fedorento, mas a mão do cardeal Giovanni Colonna, seu conselheiro, o impede. Ele explica que Francisco é muito amado, e que esse gesto pode se voltar contra ele com terríveis consequências. E é assim que o futuro santo obtém a aprovação da regra. Mesmo que ele tenha que se contentar com uma canonização em palavras, sem um reconhecimento oficial por escrito.

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