Com livro sobre Deus e Darwin, Elizabeth Johnson volta à cena teológica

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18 Fevereiro 2014

Ao longo de sua aclamada carreira como teóloga, Elizabeth Johnson devotou grande parte de suas publicações contemplando a relação de Deus com os seres humanos.

A reportagem é de Jamie Manson, publicada no jornal National Catholic Reporter, 13-02-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Reconhecida como um dos principais autores na área da teologia feminista, Irmã Elizabeth apresentou – no texto inovador intitulado “She Who Is: The Mystery of God in Feminist Theological Discourse” [publicado pela Vozes sob o título “Aquela que É: O mistério de Deus no trabalho teológico feminino”] – uma visão da teologia cristã e da experiência feminina.

O seu livro “Quest for the Living God” [A busca do Deus Vivo] (2007) explorou os frutos resultantes das teologias desenvolvidas através das perspectivas políticas, da libertação, hispânicas, negras feministas e inter-religiosas, além de ter contemplado o entendimento cristão de Deus como Trindade.

Mas em seu próximo livro – “Ask the Beasts: Darwin and the God of Love” [Pergunte aos animais: Darwin e o Deus de Amor] –, a autora volta o olhar para a relação de Deus com os não humanos do mundo.

“O que me ficou claro durante o processo de escrita é que ‘os animais’ têm sua própria relação com Deus, separada da que nós temos, como criaturas divinas aos quais Deus também ama”, disse Elizabeth Johnson, irmã da congregação de São José e destacada professora na Universidade de Fordham. “Não se trata de falar sobre nós”, completou.

Como o próprio título do livro sugere, as sementes para este novo projeto foram plantadas em 2009 durante o 150º aniversário da publicação do livro “A origem das espécies”, de Charles Darwin. O reitor da Universidade de Fordham convidou professores interessados a estudar o texto em grupo.

“Líamos dois capítulos por mês”, lembrou Johnson numa palestra na universidade no início deste mês. “No todo, mantive uma lista de questões teológicas que me vinham ocorrendo”. Ao final do seminário, “estava prestes a dizer que havia algo esquecido pelos teólogos, e que precisaríamos começar a pensar sobre o assunto”.

Embora durante anos Irmã Elizabeth vinha escrevendo pequenos ensaios e palestras convidando outros teólogos a considerar o mundo natural em suas reflexões, ler Darwin a fez perceber que precisava desenvolver a ideia de modo mais completo.

Ela teve a inspiração para o propósito de seu livro – e seu título – a partir de uma seção marcante do capítulo 12 do Livro de Jó:

"Pergunte aos animais, que eles instruirão você.
Pergunte às aves do céu, que elas o informação.
Pergunte aos répteis do chão, que eles lhe darão lições.
Os peixes do mar lhe contarão tudo isso.
Entre todos esses seres,
quem não sabe que foi a mão de Javé que fez tudo isso?"

“Na teologia, temos sido tão antropocêntricos, temos estado tão focados em nós mesmos”, disse Irmã Elizabeth, “que na história da Igreja grande parte de nossa atenção tem estado sobre a redenção e salvação. Não passou pelas nossas cabeças perguntar aos animais para nos instruir. Então decidi escrever este livro”.

No ano de 2010, a religiosa pediu uma licença de pesquisa para o período letivo acadêmico de 2011-2012 com a finalidade de escrever o novo livro. Ela não imaginava o quão seria produtivo este tempo de pesquisa.

Um “livro de palha” preparado para ser destruído

Em março de 2011, Johnson foi motivo de manchetes quando a comissão doutrinal da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA criticou severamente o livro Quest for the Living God” por não estar de acordo com a doutrina católica oficial. O livro, disseram os bispos em um comunicado, “mina completamente o Evangelho e a fé dos que creem nele”.

Em entrevista ao site National Catholic Reporter concedida nesta semana a teóloga disse que ficou confusa, já que não sabia o que havia dito de tão errado. Ela estava chateada porque, até aquele momento, não tinha conhecimento de que o livro estava sendo debatido e avaliado pela comissão.

Quando esta comissão lhe fez o pedido para responder às questões apresentadas, ela enviou um texto de 38 páginas debatendo cada uma delas, isso em junho de 2011. Na ocasião, demonstrou também interesse em ter uma reunião com os nove religiosos que assinaram a crítica.

Em outubro daquele ano a comissão reafirmou a condenação do livro sem mesmo discutir o assunto com a autora. Ao informá-la da crítica que estaria por vir, o cardeal Donald Wuerl, então presidente da comissão dos bispos, ofereceu-se para uma reunião com Irmã Elizabeth.

Mas a teóloga não viu razão em ter este momento com o líder religioso, uma vez que o fato já estava consumado. “Um verdadeiro diálogo”, diz ela, “apenas poderia acontecer se eu me encontrasse com toda a comissão antes da sua decisão para discutir as questões teológicas que eles levantarem”. Os religiosos deixaram claro que não estavam interessados em assim proceder.

Irmã Elizabeth Johnson afirma que o segundo comunicado da comissão mostrou que os religiosos não levaram em consideração sua longa defesa. “Eles reciclaram as mesmas críticas como se eu não tivesse dito nada em contrapartida”.

“Ao estudar suas declarações, percebi que pegaram minhas palavras e as distorceram”, continuou. Em alguns casos, eles “afirmaram o oposto do que eu de fato escrevi”.

Para superar a crise, Irmã Elizabeth teve a ajuda de dois canonistas e de um pequeno grupo de teólogos que a assessoraram.

Depois que a comissão reafirmou sua condenação, os canonistas aconselharam-na a aceitar a situação. “Eles me disseram: ‘trata-se de uma questão política, não teológica’”, lembra a religiosa. “A comissão considerou minha obra como um livro de palha para então destruí-lo”.

Quando o círculo de teólogos da autora concordou que a declaração da comissão não tinha conteúdo substancial, ela decidiu responder com um lamento.

“Sou responsável por aquilo que digo e por aquilo que escrevo”, afirmou à época, “porém não estou disposta a me responsabilizar por aquilo que meu livro ‘A busca do Deus Vivo’ não diz e por aquilo que eu não penso”.

Um diálogo com os nove membros da comissão “poderia ter sido tão interessante e benéfico para a Igreja”, escreveu a religiosa. Hoje, seu desejo de se encontrar com a Comissão Doutrinal permanece, mesmo isso sendo improvável de acontecer.

Elizabeth Johnson ainda se comove com a quantidade de emails e cartas de apoio recebidos de várias partes do mundo. Embora venha lamentar que não se tenha conseguido dar um fim ao incidente, o fato criou uma explosão nas vendas do livro “A busca do Deus Vivo”. Ele também ajudou a impulsionar, de uma forma mais profunda, uma agenda totalmente nova de pesquisa.

“Fiquei muito esgotada e me sentia desanimada a partir desta experiência”, lembra Johnson. “Foi uma questão de parar e pensar em onde minhas energias seriam empregadas”.

“A vocação do teólogo constitui um papel especial na Igreja, e eu então decidi ir em frente com esta vocação”, continuou. “Publiquei meu lamento, disse ‘amém’ e virei minha atenção a Deus e ao mundo.

Na medida em que a crise se acalmou no fim de 2011, havia recentemente começado o período de licença para a pesquisa que resultaria o livro “Ask the Beasts” [Pergunte aos animais]. Escrever um novo livro sobre Deus a partir de um outro ângulo, lembra a autora, foi tanto um processo criativo quanto de cura.

“Aos poucos, minha vida retornou ao normal, minha voz voltou”.

Uma comunidade da criação

Irmã Elizabeth disse ter abordado o seu novo projeto considerando o Credo de Niceia e o livro “A origem das espécies” como seus “parceiros”. Seu livro “Pergunte aos animais” conta a história da natureza através dos olhos de Darwin, vendo-a em seu todo através do credo.

Os primeiros quatro capítulos oferecem uma leitura próxima da obra de Darwin, e a Irmã Elizabeth tem esperanças de que esta parte do livro inspirará as pessoas a ler “A origem das espécies” de forma que elas também possam vivenciar o sentimento daquilo que ele estava descobrindo. “O próprio Darwin não estava acreditando [no que estava descobrindo]”, diz.

Darwin viu uma inter-relação profunda entre os organismos em todas os locais, na unidade de toda a vida através do tempo e do espaço”, observa a teóloga. “Trata-se de uma revelação”.

O credo, explica, é realmente uma narrativa da relação evolutiva de Deus com o mundo. “Deus faz o universo, vem ao mundo, desce para a morte, levanta-se novamente. E, com o espírito, Deus continua a dar vida à criação e a prepara para a vinda da vida ao mundo”.

Ler este credo em diálogo com Darwin aprofundou sua apreciação da ideia de que Deus criou um mundo evolutivo. “Deus, o criador, fez o mundo com o poder de criar a si mesmo”, afirma.

Ela encontrou mais apoio para suas ideias ao longo da Bíblia. “Há belos temas sobre a natureza nas Escrituras”, falou. Infelizmente, uma interpretação limitada do Gênesis 1:28, onde Deus declara que os seres humanos devem ter o domínio sobre todas as criaturas da terra, distorce nosso entendimento da relação de Deus com a criação.

“Durante o iluminismo e a Revolução Industrial, pegamos a noção de domínio e a transformamos em dominação”, observa a Irmã. A maior parte das escrituras hebraicas e cristãs, em particular o Livro de Jó, sugere o paradigma de uma “comunidade da criação, não comunidade da dominação humana”.

Nosso reduzido entendimento da presença de Deus na criação pode, de fato, ser traçada até a Idade Média, diz Irmã Elizabeth. É na Idade Média que os teólogos fizeram uma rigorosa distinção entre o natural e o sobrenatural. Embora o objetivo deles era proteger a compreensão cristã do dom gratuito da Graça, como uma consequência indireta, começamos ver a obra de Deus apenas no aspecto sobrenatural enquanto que o mundo natural se tornou simplesmente um pano de fundo.

“Esquecemos que a criação também era obra de Deus e que Deus está presente nela”, falou a teóloga. “Começamos a acreditar que o que é natural não é ‘de Deus’ tal como é o sobrenatural’.

“Tirando fora galhos da árvore da vida”

Infelizmente, a grande obra de Deus na criação agora encontra-se radicalmente desafiada pela ganância humana, pela superpopulação, pela poluição e pelo consumo excessivo.

Neste momento, Irmã Elizabeth lamenta-se não com a hierarquia [da Igreja], mas com o mundo e suas criaturas.

“Se prestarmos atenção à realidade de outras espécies, a imagem é bastante triste”, afirma a entrevistada. Uma estimativa conservadora sugere que, desde 1980, 10% de todas as espécies foram extintas e que, atualmente, 350 espécies entram em extinção a cada dia.

“A história não irá se repetir”, continua a irmã. “Como dito por Jonathan Schell há algumas décadas: ‘Quando matamos alguém, assassinamos sua vida. Quanto fizemos uma espécie entrar em extinção, matamos o seu nascimento”.

Perguntada se espera qualquer reação por parte da hierarquia da Igreja a respeito de seu último livro, Johnson destacou que, em sua missa inaugural no mês de março de 2013, o Papa Francisco fez quase 10 referências em proteção à terra, interligando este tema com o cuidado com os pobres.

É uma ideia também presente no livro “Pergunte aos animais”. “A devastação ecológica afeta as pessoas pobres mais do que as ricas, ao menos neste ponto”, afirma.

Johnson igualmente observa que as exortações da Igreja sobre justiça ambiental não são novidades para o papa. “Por anos têm havido belos, magníficos ensinos vindo de papas e bispos, porém eles não acenderam o fogo no coração das pessoas dentro da Igreja Católica como aconteceu com a justiça social e com a opção pelos pobres”.

Se esta opinião fosse para ser captada, ela seria usada na liturgia, nas artes, nas homilias e na catequese. “Precisamos mostrar que isso não é apenas algo que estamos acrescentando à nossa fé, mas que está relacionado com o que seremos enquanto Igreja”, insiste a teóloga. “Precisamos nos converter à terra”.

“Cuidar da terra é proteger todas as formas de vida. Agora precisamos fazer disso uma parte intrínseca de nosso amor a Deus”.

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