O Papa, a Quaresma e o antídoto contra toda miséria

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Por: André | 05 Fevereiro 2014

“Quantas pessoas perderam o sentido da vida, estão privadas de perspectivas para o futuro e perderam a esperança”. É o que escreve o Papa Francisco, em sua primeira mensagem para a Quaresma, apresentada nesta terça-feira no Vaticano. Um texto em que Bergoglio, entre outras coisas, descreve “três tipos de miséria”: material, moral (que “poderia ser chamada de suicídio incipiente”, porque muitas vezes é provocada pela falta de trabalho, saúde e educação) e espiritual. Francisco convida os fiéis para considerar este período que precede a Páscoa como um tempo “adequado para despojar-se”.

 
Fonte: http://bit.ly/1lyG5pf  

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada no sítio Vatican Insider, 04-02-2014. A tradução é de André Langer.

Jorge Mario Bergoglio explica, na breve mensagem, que se inspirou em uma expressão usada por São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios. “Com efeito, conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo, que por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9). A mensagem intitula-se, de fato, “Fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza”. Por isso, o Papa se pergunta: “O que dizem estas palavras de São Paulo aos cristãos de hoje? O que diz o convite à pobreza, a uma vida pobre no sentido evangélico, hoje?”

Em primeiro lugar, explica o Papa, o “amor torna semelhante, cria igualdade, derruba os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez conosco”. Mas o Papa também indica que “Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com aparente piedade filantrópica”. Entre os argumentos enfrentados pelo Pontífice, há muitos que se relacionam com o compromisso social. No segundo parágrafo da mensagem (“Nosso testemunho”) Jorge Mario Bergoglio diz que seria errado pensar que “o caminho da pobreza” seja exclusivo de Jesus, pois nós viemos depois d’Ele e poderíamos “salvar o mundo com meios humanos adequados. Isso não é verdade. Em cada época e lugar, Deus segue salvando os homens e salvando o mundo mediante a pobreza de Cristo, que se faz pobre nos Sacramentos”. A riqueza de Deus, destaca o Papa, “não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e somente através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo”.

E neste ponto do texto Bergoglio distingue três tipos de miséria: material, moral e espiritual. A miséria material, ou o que habitualmente chamamos de “pobreza”, “atinge todos aqueles que vivem em uma condição que não é digna da pessoa humana: privados de seus direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como a alimentação, a água, as condições higiênicas, o trabalho, a possibilidade de desenvolvimento e crescimento cultural. Perante esta miséria a Igreja oferece seu serviço, sua diakonia, para responder às necessidades e curar estas feridas que deturpam o rosto da humanidade”.

Segundo o Papa, “quando o poder, o luxo e o dinheiro se convertem em ídolos, antepõem-se à exigência de uma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha”. Mas, não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em converter-se em escravos do vício e do pecado. “Quantas pessoas perderam o sentido da vida, estão privadas de perspectivas para o futuro e perderam a esperança! E quantas pessoas veem-se constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de trazerem o pão para casa, por falta de igualdade em relação aos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral bem poderia ser chamada de suicídio incipiente”. Esta forma de miséria, indica Bergoglio, “que também é causa de ruína econômica, anda sempre associada à miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos seu amor. Se consideramos que não necessitamos de Deus, que em Cristo nos estende a mão, porque pensamos que nos bastamos a nós mesmos, nos encaminhamos pelo caminho do fracasso”. E diante desta realidade, recorda o Papa Francisco, “o Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que somos feitos para a comunhão e a vida eterna”.

Ao final da mensagem o Papa convida para “que este tempo de Quaresma encontre toda a Igreja pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto para abraçar em Cristo cada pessoa. Poderemos fazê-lo na medida em que estivermos conformados com Cristo, que se fez pobre e nos enriqueceu com sua pobreza”. Por isso, “a Quaresma é um tempo adequado para despojar-se; e far-nos-á bem perguntar-nos de que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói”.

A mensagem do Papa foi apresentada na Sala de Imprensa vaticana pelo cardeal Robert Sarah, presidente do Pontifício Conselho Cor Unum, pelo mons. Giampietro Dal Toso e pelo mons. Segundo Tejado Muños, respectivamente secretário e subsecretário do mesmo dicastério caritativo. Além disso, estiveram presentes Davide Dotta e Anna Zumbo, missionários da Cáritas italiana que durante três anos trabalharam no Haiti, e seus filhos. “O Papa soube mostrar que o Haiti está em seu coração – disse Anna Zumbo – e representa uma grandiosa ocasião de renovação da Igreja haitiana”. O cardeal Sarah, por sua vez, explicou a mensagem do Papa Francisco da seguinte maneira: “Não pensemos em tranquilizar as nossas consciências burguesas – quer dizer o Papa – denunciando a falta de bens ou a pobreza como um sistema... A mensagem da Quaresma que hoje apresentamos faz uma distinção importante entre a pobreza e a miséria. Não é a pobreza, que é uma atitude evangélica, mas a miséria que queremos combater”.

Além disso, o Vaticano anunciou, há algumas semanas, que para esta Quaresma o Papa decidiu que o tradicional retiro espiritual não será feito no Vaticano, mas, entre os dias 09 e 14 de março, em Albano, na Casa Divino Mestre dos Paulinos. Os exercícios serão pregados e dirigidos pelo padre Angelo De Donatis, pároco de San Marco al Campidoglio.

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