Cardeal Sean O’Malley: Uma entrevista relevadora

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19 Novembro 2014

O cardeal americano Sean O’Malley é, desde sempre, um verdadeiro pastor. É também uma pessoa inteligente. É bom saber que ele é ouvido pelo Papa Francisco. E este foi o assunto de uma entrevista relevadora ao programa televisivo norte-americano “60 Minutes” levada ao ar neste domingo no canal CBS. Durante a entrevista, o cardeal se mostrou aberto e honesto, sendo conduzido a responder questões difíceis postas pela correspondente Norah O’Donnell.

A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada por National Catholic Reporter, 17-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Antes de a entrevista terminar, no entanto, ele revelou claramente a natureza cada vez mais insustentável do ensinamento católico segundo o qual as mulheres não podem ser ordenadas [ao sacerdócio].

Dou-lhe os meus parabéns pela sua sinceridade. Esta sinceridade mostrou especialmente clara quando ele se perguntou sobre a repressão vaticana sobre a Leadership Conference of Women Religious – LCWR (ou Conferência de Lideranças das Religiosas).

Primeiramente, os que assistiram ao programa ouviram esta voz sobreposta às imagens: “A sinceridade cuidadosa do cardeal não se limita à má gestão nos casos de abuso por parte da Igreja. Vejamos o caso da repressão feita pela Congregação para a Doutrina da Fé para com as irmãs americanas, tudo porque elas se focam mais na justiça social do que em questões como o aborto e a contracepção – a CDF as colocou sob a supervisão de três bispos”.

Em seguida, O’Donnell disse: “Isto se pareceu como uma represália masculina do Vaticano sobre as...”.

Mas, antes que a entrevistada pudesse terminar a frase, O’Malley completou dizendo: “Um desastre”.

A franqueza do cardeal O’Malley pareceu pegar de surpresa a entrevistadora.

“Um desastre?”, perguntou ela.

“Sim, um desastre”.

O cardeal, evidentemente, estava dizendo aquilo que os católicos mais sensatos sabem e dizem há anos. No entanto, foi refrescante ouvir uma sensatez assim, vindo de um prelado.

Sinceridade. Infelizmente, chegamos ao ponto de esperarmos tão pouco de nossa hierarquia.

A entrevista continuou com O’Donnell trazendo a questão das mulheres e a ordenação. Ela foi dura. O’Malley defendeu os ensinamentos da Igreja até onde pôde. Os tradicionalistas ficaram provavelmente satisfeitos; os defensores das mudanças, de um sacerdócio inclusivo (e aqui eu estou incluído), ficaram decepcionados.

Mas, a seu modo, as observações de O’Malley pareceram, mais do que qualquer outra coisa, ressaltar as fraquezas dos ensinamentos da Igreja. É o caso de quando ele admitiu que, se a Igreja fosse sua, e não de Jesus, ele a faria diferente. Incluiria as mulheres no sacerdócio.

Foi uma admissão extraordinária. Foi uma admissão que mostra a força deste cardeal como um católico atencioso e cuidadoso e, ao mesmo tempo, que expõe a rígida natureza de um grupo clerical que se afasta do resto da Igreja e da sociedade em geral.

Eis aqui a transcrição do diálogo:

O’Donnell: A Igreja diz que não está aberta para o debate sobre a ordenação de mulheres. Por que não?

O’Malley: Nem todo mundo precisa ser ordenado para ter um papel importante na vida da Igreja. As mulheres levam adiante as entidades de caridade da Igreja, administram escolas católicas e muitos departamentos das dioceses.
O’Donnell: Alguns diriam que as mulheres fazem um grande trabalho, mas que possuem um poder pequeno.

O’Malley: Bem, “poder” não é uma palavra que gostamos de usar na Igreja. Falamos mais em serviço.

O’Donnell: Mas elas não podem pregar. Não podem administrar os sacramentos.

O’Malley: Bem…

O’Donnell: Quero dizer, algumas mulheres sentem-se como se fossem fiéis católicos de segunda classe porque elas não podem fazer estas coisas que são muito importantes.

O’Malley: Sim, mas elas são, há outros papéis muito importantes… um padre não pode ser uma mãe também. A tradição da Igreja é que sempre se ordenaram homens. E que o sacerdócio reflete a encarnação de Cristo, que, em sua humanidade, é um homem.

O’Donnell: Mas, apesar disso, a exclusão das mulheres não lhe parece imoral?

O’Malley: Bem, Cristo jamais nos pediria para fazermos algo imoral. E eu sei que as mulheres na...

O’Donnell: O sentido de igualdade. Quero dizer, apenas o sentido de uma espécie de justiça... Nós não iríamos excluir alguém com base na raça. No entanto, excluímos as pessoas com base no gênero.

O’Malley: Sim, mas trata-se de uma questão de vocação. Trata-se do que Deus nos tem dado. E, é o que disse, se estivesse fundando uma igreja, adoraria ter mulheres ordenadas ao sacerdócio. Mas Cristo fundou esta Igreja, e o que ele nos deu foi algo diferente.

“O que Deus tem nos dado?” “Eu adoraria ter mulheres ordenadas ao sacerdócio. Mas Cristo fundou esta Igreja, e o que ele nos deu foi algo diferente”. Estas declarações são especialmente reveladoras, dada a estatura, a natureza pastoral e a inteligência do cardeal O’Malley.

Pessoalmente, me senti reagindo às observações do cardeal da mesma forma que reagi há alguns anos, quando ouvi um colega de faculdade defendendo o ensinamento da igreja dos mórmons segundo o qual os negros não podem ser ordenados para o sacerdócio mórmon porque eles “carregam o pecado de Caim”: ou seja, com mais tristeza do que raiva. Ele estava numa posição insustentável, e se sentiu obrigado a sustentá-la. Este ensinamento mórmon foi modificado em 1978 com uma revelação que repudiou o ensinamento de que a “pele negra é um sinal de desagrado divino ou de maldição”.

Naquela ocasião eram os mórmons e a raça; hoje, ainda são os católicos e o sexo.

Consideremos a mesma história:

Em 1976, a Congregação para a Doutrina da Fé afirmou que Igreja Católica não se considera autorizada a admitir as mulheres à ordenação sacerdotal.

Os motivos? Tradição constante. Fidelidade à vontade de Cristo.

O Papa João Paulo II manteve a decisão da congregação doutrinal em 1994, afirmando que o sacerdócio católico é um papel estabelecido por Jesus quando escolheu 12 homens de seu grupo e seguidoras femininas.

Em 1995, a congregação doutrinal vaticana confirmou o que disse João Paulo II, declarando que, embora as suas palavras não sejam infalíveis, elas pertencem a um depósito intemporal da fé da Igreja. Caso fechado. Não poderia mais haver discussão sobre o assunto.

Mas houve. E as interrogações não cessam de aparecer, como a entrevista de O’Donnell testemunhou.

Foi em 1976 que a Pontifícia Comissão Bíblica publicou um estudo analisando a exclusão das mulheres do sacerdócio ministerial a partir de um ponto de vista bíblico, declarando: “Não parece que o Novo Testamento por si só irá nos permite resolver de uma forma clara e de uma vez por todas o problema do possível acesso das mulheres ao presbiterado”.

Quando apresentados, os poucos argumentos para a proibição da ordenação parecem não ser convincentes a muitos, ficando principalmente em precedentes do passado e na apresentação de ideias vagas sobre o imaginário de gênero e de complementaridade, que implica que as mulheres e os homens devam ter vocações diferentes para o serviço na Igreja. São serviços que envolvem uma inclusão e uma exclusão total de autoridade. Distintivamente, isto nos deu uma Igreja de dois níveis.

Enquanto isso, os apelos ao ensinamento constante continuam a cair por terra. A Igreja mudou os seus “ensinamentos definitivos” diversas vezes – em relação, por exemplo, à liberdade de consciência, aos judeus, às cruzadas, à escravidão, usura e tortura, para citar alguns.

O caminho para uma Igreja inclusiva, em que todos e todas são iguais, onde todos são a abençoados, chamados – uma igreja assim não virá facilmente. O’Malley afirmou, novamente, esta realidade. Mas as distinções que separam as pessoas, em classes de autoridade e poder maior e menor, não podem durar, não podem suportar o aumento do acesso dos leigos – inclusive as mulheres – à educação, em particular à formação teológica. No final, esta proibição vai cair por terra porque ela interpreta erroneamente os ensinamentos de Jesus.

Nota da IHU On-Line: A íntegra da entrevista, em inglês, pode ser vista aqui.

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