Episcopado francês à mercê da sua própria extrema direita

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24 Março 2014

Os católicos franceses ainda podem ouvir pessoas que não pensam necessariamente como eles? Podemos duvidar disso, diante da desventura ocorrida recentemente com Fabienne Brugère, professora de filosofia da Universidade de Bordeaux.

A reportagem é de Philippe Clanché, publicada na revista Témoignage Chrétien, 18-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Conhecida das colunas da imprensa católica, ela deveria falar no dia 19 de março em uma sessão de formação de delegados diocesanos da Pastoral Familiar, para falar sobre a "dimensão social do cuidado do outro".

O Salon Beige, blog mantido por católicos de extrema-direita, gritou o escândalo, qualificando Brugère de simpatizante da "teoria de gênero" e defensora do direito ao aborto.

A filósofa dirigiu um livro sobre Judith Butler, teórica dos estudos de gênero, e nunca escondeu suas simpatias esquerdistas.

"Os responsáveis do serviço 'Família e Sociedade' do episcopado que me convidaram, conheciam perfeitamente os meus trabalhos e as minhas posições sobre o 'casamento para todos', que são, além disso, as da maioria dos franceses", afirma ela. "O convite abordava um tema fundamental para a Igreja: 'Cuidar dos outros'. Sobre esse tema, é importante que ela discuta com os filósofos".

Um abaixo-assinado lançado pelo blog Salon Beige, que pedia que o presidente dos bispos retirasse Brugère do programa, foi assinado por mil pessoas. Dom Jean-Luc Brunin, presidente da Comissão Episcopal "Família e Sociedade", finalmente decidiu retirar a "diabólica" professora Brugère do cartaz.

"Fui avisada disso por meio de uma carta de Dom Brunin e de um telefonema da senhora Baujard [diretora do evento], antes que o caso se tornasse público", diz ela. "Fiquei triste com essa decisão, mas é uma decisão do episcopado."

No jornal La Croix do dia 14 de março, Dom Brunin fala de uma "decisão ditada pela sabedoria. As condições do diálogo não estão reunidas, como mostraram as tensões e os tumultos que acompanharam esse convite".

Essa história inquietante nos faz lembrar de outra. Em maio de 2013, Jean-Paul Delevoye, presidente do Conselho Econômmico, Social e Ambiental (CESE, na sigla em francês) foi convidado pela diocese de Lille.

Promotores do "Manif pour tous", que não perdoaram o CESE por ter se recusado a apoiar o seu abaixo-assinado contra a lei Taubira, ameaçaram interromper o encontro. O arcebispo de Lille, Dom Ulrich, cancelara, então, o evento, falando de "ausência de serenidade".

Sabíamos que uma faixa do catolicismo é capaz de mobilizar multidões contra um projeto de lei. O episcopado jurou, então, que não estava orquestrando algo que vinha de um movimento de leigos.

Como justificar hoje que esse mesmo círculo faça do bom e do pior sobre o modo no qual a Igreja francesa trabalha e forma os seus quadros?

Comunhão difícil

Os argumentos do episcopado sobre a questão relativa à professora Brugère não são nada convincentes. No mesmo artigo do La Croix, Dom Brunin se justifica: "Manter a palestra significaria chegar a um endurecimento, que ameaçaria a comunhão eclesial".

Ceder aos mais intransigentes, àqueles que querem ouvir uma só voz, em detrimento dos partidários do diálogo com pensamentos diferentes, não seria, portanto, uma ameaça para a comunhão? Uma comunhão que já sofreu muito, há 18 meses, por causa de atividades bem distantes da unanimidade.

"O episcopado perdeu aqui uma boa oportunidade para manifestar que, apesar de tudo, a Igreja está em diálogo. Dialogar com os representantes do pensamento contemporâneo faz parte da sua natureza e da sua missão", escreve corajosamente Dominique Greiner, no editorial no La Croix do dia 14 de março.

A Igreja Católica da França, que deve agir a serviço de toda a comunidade, se desacredita cedendo ao um ditame de uma das suas faixas. Esta, notoriamente hostil à democracia, segue em busca de uma revanche depois do advento do Papa Francisco e da eleição do moderado Georges Pontier à frente do episcopado francês.

Para continuar sendo um lugar de debate dentro da sociedade, a Igreja Católica não deve testemunhar qualquer fraqueza diante de grupos ultrarradicais.

A questão deverá estar na agenda da próxima assembleia dos bispos em abril, na Páscoa. Nós sabemos que eles estão muito divididos. Ainda poderão conversar entre si?

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