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20 Novembro 2015

O Papa Francisco está convidando os sacerdotes e o clero católico ao redor do mundo a parar de buscar postos de poder ou autoridade e, em vez disso, “rebaixem-se” no serviço aos pobres e aos necessitados, disse o Cardeal João Braz de Aviz.

O prelado brasileiro, que conduz o departamento vaticano para a vida religiosa, falou também: “Nós do clero devemos nos rebaixar (...) nós consagrados devemos nos rebaixar porque estamos muito altos”.

“Nós, em muitos postos importantes, devemos nos rebaixar, principalmente mudando as regras que nos guiam”, completou o cardeal. “Não mais ser o ‘número um’ ou fazer uma ‘atualização’ para um cargo melhor, mas realizar uma Igreja fraterna (...) na qual, verdadeiramente, os menores, os pobres, aqueles que estão marginalizados se sintam chamados, se sintam amados e percebam que nós estamos com eles”.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 18-11-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Braz de Aviz falou no sábado durante um evento em comemoração ao “Pacto das Catacumbas”, acordo simbólico feito entre cerca de 40 bispos de todo o mundo no final do Concílio Vaticano II para viver e trabalhar por uma “Igreja dos pobres”.

O Pacto, assinado em 16 de novembro de 1965 nas catacumbas da Santa Domitila em Roma, teve um grande impacto na vida eclesial em certas regiões do mundo, mas, como um todo, desapareceu do jargão católico.

O cardeal discursou no início de um congresso de um dia inteiro na Pontifícia Universidade Urbaniana, evento organizado para ressaltar a história e importância do pacto. Entre outros oradores estava o padre jesuíta Jon Sobrino, destacado teólogo espanhol-salvadorenho que teve os seus escritos criticados pelo Vaticano.

Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, contou ao grupo reunido que Francisco pediu que os cardeais “sejam mais como os discípulos de Jesus” e que ele “não quer mais um grupo de cardeais (…) do tipo de uma corte”.

“Naturalmente, isso produz uma grande mudança em nossas vidas”, disse. “Eu acho que este é um grande caminho que nós devemos percorrer, este retorno a ser uma fraternidade verdadeira”.

O cardeal disse que o pontífice havia também indicado aos prelados para que eles não dependam do dinheiro, afirmando que o dinheiro “não deveria permanecer em nossos bolsos, nem em nossas contas no IOR (...) para que o nosso estar com o Senhor possa ser uma promessa serena, porém radical e profunda”.

“IOR” é a sigla para o Instituto para as Obras de Religião, instituição vaticana comumente chamada de o Banco Vaticano. Este banco se viu sob escrutínio inúmeras vezes nos últimos anos após acusações de lavagem de dinheiro e outros crimes.

“Estou muito, muito feliz porque temos o Papa Francisco”, disse Braz de Aviz. “Porque ele nos diz hoje que esta mentalidade do Evangelho chegou até mesmo ao assento de Pedro; isso cria perigos, cria instabilidade, mas nos põe na direção certa do Evangelho”.

“Somos verdadeiramente gratos aos que quiseram, já no Concílio, uma Igreja que se tornasse fraterna, com lugar para todos – os pobres em primeiro lugar”, disse o cardeal. “Sabemos que este caminho está parcialmente feito, mas há ainda muito o que fazer”.

“É, porém, um caminho, um trajeto muito bom”, disse. “Creio que o fato de realizarmos este evento – o Pacto das Catacumbas – nos traz a esperança de que estas reflexões possam sempre seguir adiante, próximas do papa”.

O evento deste sábado foi organizado pelas embaixadas brasileira e americana na Santa Sé, pela universidade pontifícia, pelos grupos internacionais representantes dos religiosos e religiosas, pelos Missionários do Verbo Divino e pelo serviço católico chamado SEDOS.

Os bispos que assinaram o Pacto das Catacumbas em 1965 comprometeram-se em viver “segundo a maneira ordinária” do povo ao redor do mundo, sem privilégios ou luxo. Também prometeram fazer da defesa dos pobres e marginalizados o foco dos seus ministérios.

Discursando no sábado, a Irmã Sally Hodgdon, das Irmãs de São José, disse que este voto dos bispos “é ainda mais fundamental hoje do que na década de 1960”.

“Durante estes últimos 50 anos, o nosso mundo abraçou o capitalismo e o sonho de se ter poder e riqueza”, falou Hodgdon, americana que atua como vice-presidente da União Internacional das Superioras Gerais (UISG), grupo que reúne cerca de 600 mil irmãs católicas e freiras de todo o mundo.

“Como sabemos, a consequência deste sonho é que acabamos tendo massas ainda maiores de empobrecidos”, disse.

“A nossa Igreja deve continuar a crescer no sentido de ser um testemunho autêntico da pobreza evangélica, vivendo somente com o necessário”, declarou ela. “Se focarmos os nossos recursos, tanto humanos como outros, em ajudar os pobres a terem acesso ao que eles necessitam dos recursos da terra de forma que possam se desenvolver e se sustentar, então estaremos vivendo o espírito do Pacto [das Catacumbas]”.

Sobrino, que centrou os seus escritos sobre a Teologia da Libertação, usou a sua fala para refletir sobre os laços entre o Pacto de 1965 e o encontro, de 1968, do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM, ocorrido em Medellín, Colômbia.

Um foco importante tanto do pacto como do documento final de Medellín, segundo Sobrino, é que os bispos, em ambos os casos, focaram-se sobre as suas próprias vidas e sobre as suas próprias vidas de pobreza.

“Eles estão falando deles mesmos”, afirmou o jesuíta. “Não estão falando dos outros”.

“Eles compreendem que aquilo que farão em suas vidas irá determinar se o Pacto vai, ou não, ser frutífero”, disse. “Assinar este Pacto é, para eles, uma importante mudança e um chamado à conversão”.

Sobrino é professor na Universidade Centro-Americana de El Salvador, tendo vivido na mesma comunidade onde seis jesuítas foram assassinados no campus universitário em novembro de 1989 por militantes da direita por causa das posições políticas e teológicas que possuíam durante a guerra civil salvadorenha. Ele é conhecido por muitos livros teológicos que escreveu sobre o compromisso de Jesus e da Igreja para com os pobres.

A Congregação para a Doutrina da Fé – CDF emitiu uma notificação sobre a sua obra em 2007, mas não o censurou ou o condenou.

No sábado, Sobrino disse que os bispos latino-americanos reunidos em Medellín assumiram o convite do Pacto das Catacumbas como uma obrigação pessoal e perceberam que havia preocupações no sentido de que a Igreja Católica na região havia “se aliado com os ricos”.

O teólogo lembrou as primeiras palavras do documento final de 1968, onde os participantes dizem: “O Episcopado Latino-Americano não pode ficar indiferente ante as tremendas injustiças sociais existentes na América Latina, que mantêm a maioria de nossos povos numa dolorosa pobreza, que em muitos casos chega a ser miséria humana”.

Os bispos, ressalta o teólogo, não começaram com uma reflexão sobre São Tomás de Aquino ou do Concílio Vaticano II, mas “com os fatos concretos”.

“Aqui temos o princípio da realidade”, disse. “A realidade da Igreja em que vivemos e trabalhamos”.
“É importante notar que, sendo um texto escrito pelos bispos, as palavras que iniciam o documento (...) não são religiosas, bíblicas ou dogmáticas”, continuou. “São palavras que falam sobre a realidade do mundo”.

Em seguida, Sobrino sugeriu que os católicos no mundo possam assumir o convite para uma conversão pessoal em ajudar os pobres rezando diante de um crucifixo e fazendo duas perguntas: “O que fiz para que Cristo esteja crucificado?” e “O que estou fazendo para tirá-lo da Cruz?

“Temos que tomar mais a sério as cruzes daqueles que sofrem”, completou o jesuíta.

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