"Finalmente chegou o 'não' dos muçulmanos." Entrevista com Vincent Geisser

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19 Novembro 2015

Presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos sobre o Mundo Árabe e Muçulmano da Universidade de Marselha e cientista político do CNRS de Paris, Vincent Geisser é um dos maiores conhecedores do Islã francês, ao qual dedicou vários estudos, incluindo Ethnicité républicaine, La Nouvelle islamophobie e Marianne & Allah.

A reportagem é de Guido Caldiron, publicada no jornal Il Manifesto, 18-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Com seis milhões de fiéis, a França é um dos países europeus onde a presença muçulmana é mais forte. Qual foi o efeito do massacre em Paris sobre essa grande comunidade?

É preciso fazer uma premissa necessária: os terroristas escolheram atacar a França porque esperam que as suas ações favoreçam um desenvolvimento a mais da islamofobia, uma estigmatização de toda a comunidade muçulmana, que os ajude na obra de recrutamento. Dito isso, dentro da comunidade muito diversificada dos franceses de fé islâmica, dado que nela convivem muitos modos diferentes de praticar a fé, parece-me que podem ser captadas duas consequências imediatas do que aconteceu. De um lado, surge a sensação de se sentir como "observados especiais", olhados com desconfiança e, às vezes, assimilados totalmente aos jihadistas.

De outro, com o passar dos dias, no entanto, também está crescendo uma mobilização inédita de muitas maneiras: diante desses atos sanguinários, é como se se estivesse assistindo a uma espécie de revolta moral justamente por parte daqueles que não aceitam que os seus sentimentos religiosos sejam tão barbaramente associados à violência. Os representantes de associações, mesquitas, centros culturais estão tomando a palavra nestes dias para afirmar a sua aversão ao terrorismo, precisamente como muçulmanos. Soma-se a isso uma forte reivindicação de pertencimento à França, aos seus valores, até mesmo aos seus símbolos, começando pela bandeira. É algo que se torna particularmente visível nas redes sociais, onde muitos imediatamente colocaram a bandeira tricolor no seu perfil no Facebook. Nesses termos e nessas proporções, parece-me um fenômeno totalmente novo.

Depois do ataque ao Charlie Hebdo e ao supermercado kosher, não se tinha visto nada semelhante. O Estado Islâmico, talvez, cometeu um erro na sua estratégia?

Parece que sim. Desta vez, o horror em seu estado puro se impôs a qualquer hesitação ou timidez na reação. Muitos muçulmanos já haviam condenado os massacres de janeiro, mas o certo é que o Charlie Hebdo era um símbolo controverso, divisivo, no qual muitos fiéis custavam a se reconhecer. Agora é diferente, todos foram atingidos, todos são igualmente vítimas, e o banho de sangue a que assistimos produziu uma conscientização coletiva, não houve as manifestações de massa da época, mas ninguém pode pensar que o que aconteceu não lhe diga respeito. Hoje, os muçulmanos estão na linha de frente contra o terrorismo.

As biografias dos agressores de Paris, como já aconteceu no passado, porém, nos dizem que os terroristas reivindicam a sua própria matriz islâmica: que papel tem a religião no seu caminho?

Apesar de declararem que eles passam à ação em nome da fé, na realidade, é o fascínio pela violência que parece movê-los realmente. Militares franceses envolvidos no Afeganistão me explicavam que, de acordo com eles, a verdadeira religião desses jovens europeus, que antigamente partiam para participar da jihad em Cabul e hoje fazem o mesmo na Síria, não é o Islã, mas a violência. Em alguns casos, trata-se de pequenos delinquentes que, em certo momento, assumem o papel dos "combatentes da fé", em outros, de jovens censurados, mas nos quais é forte e preponderante o desejo de afirmar a si mesmos através do recurso a métodos violentos.

Nesse sentido, a sua alfabetização religiosa é frequentemente muito superficial e, depois de uma breve passagem pelas mesquitas ou pelos centros culturais muçulmanos, ela se desenvolve principalmente em casa, através da rede, ou em pequenos grupos que se reúnem privadamente. Muitos imãs dizem que a verdadeira radicalização não ocorre enquanto os jovens ainda frequentam as mesquitas, mas quando deixam de ir e começam a buscar mensagens mais agressivas: esse é o momento em que se deve começar a se preocupar e em que entram em jogo os recrutadores dos grupos terroristas. No fim desse caminho, opta-se por ir combater na Síria, não apenas para defender o chamado Estado Islâmico, mas também para viver uma aventura, para experimentar o frêmito sedutor do combate.

O massacre em Paris acontece a dez anos exatos da grande revolta das banlieues: a deriva sanguinária dos jovens jihadistas também é fruto da derrota daquela época?

É difícil estabelecer qualquer paralelos entre forças que apontavam para a transformação da sociedade e aquelas que, ao contrário, perseguem a sua destruição completa. Em 2005, os jovens das banlieues queimavam os carros para serem ouvidos, e não pessoas. Em vez disso, ao lado da investigação sobre a radicalização em termos religiosos de uma fatia dos jovens das classes populares europeias, seria preciso começar a indagar o papel que formas de violência cada vez mais destrutivas assumiram nos seus processos de socialização. A partir desse ponto de vista, não me convencem as teses sociológicas que atribuem ao islamismo radical o registro de ideologia, mesmo que desesperada, dos "últimos". Aqui, ao contrário, estamos lidando com percursos de autodestruição.

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