Após atentados, França usa discurso do 'ataque à liberdade' para aumentar militarização, diz Judith Butler

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17 Novembro 2015

“Uma liberdade é atacada pelo inimigo; outra é restringida pelo Estado, que defende o discurso do ‘ataque à liberdade’ pelo inimigo como um ataque à essência do que é a França, mas suspende a liberdade de reunir-se em meio ao luto, e prepara uma militarização ainda maior da polícia”. A reflexão é da filósofa norte-americana Judith Butler, que estava em Paris durante a onda de ataques realizados na capital francesa, na última sexta-feira (13/11), que resultou na morte de 129 pessoas e deixou mais de 300 feridos.

A reportagem foi publicada por Opera Mundi, 16-11-2015. 

O texto foi enviado por Blutler ao repórter Helder Ferreira, da Revista Cult, no último sábado (14/11) e a Revista Samuel reproduz a seguir, na íntegra:

Estou em Paris. Ontem [sexta-feira 13/11] à noite, passei por perto do local da matança na rua Beaumarchais. Jantei em um lugar que fica a dez minutos de outro alvo dos ataques. Todos que eu conheço estão bem, mas muitos que eu não conheço estão mortos, traumatizados ou em luto. É escandaloso e terrível. Hoje as ruas estiveram movimentadas de tarde, mas vazias à noite. A manhã acordou inerte. As discussões televisivas que ocorreram imediatamente após os eventos parecem deixar claro que o “estado de emergência”, ainda que temporário, na verdade cria precedente para uma intensificação do estado de segurança. As questões debatidas na televisão incluem a militarização da polícia (de que modo “completar” esse processo), o espaço da liberdade, e a luta contra o “islã”, este último entendido como uma entidade amorfa. Hollande, ao nomear isso como “guerra”, tentou parecer másculo, mas o que chamou atenção foi o aspecto imitativo de sua performance – tornou-se difícil, então, levar seu discurso a sério. E no entanto, é esse agora o bufão que assume o papel de cabeça do Exército.

A distinção entre Estado e Exército se dissolve em um estado de emergência. As pessoas querem ver a polícia, querem uma polícia militarizada para protegê-las. Um desejo perigoso, ainda que compreensível. Muitos são atraídos pelos aspectos beneficentes dos poderes especiais concedidos ao soberano em um estado de emergência, como as corridas gratuitas de táxi na noite de ontem para qualquer um que precisasse voltar para casa, e a abertura dos hospitais para todos que foram atingidos. Não há toque de recolher instaurado, mas os serviços públicos foram reduzidos e as manifestações, proibidas – inclusive os “rassemblements” (encontros) para lamentar os mortos foram considerados ilegais. Compareci a um desses encontros na Place de la République, onde a polícia reiterou que todos deviam se dispersar, e poucos obedeceram. Nisso vi um breve momento de esperança.

Os que comentam os eventos buscando distinguir as diferentes comunidades muçulmanas, com suas diversidades de posição política, são acusados de procurarem “nuances”: o inimigo precisa ser total e uno para ser aniquilado, e as diferenças entre muçulmanos, jihadistas e o Estado Islâmico vão ficando mais difíceis de discernir nos discursos públicos. Mesmo antes do ISIS [Estado Islâmico] assumir a responsabilidade pelos ataques, muitos já apontavam o dedo, com total certeza, ao Estado Islâmico. Pessoalmente, achei interessante que Hollande tenha proclamado três dias de luto oficial ao mesmo tempo em que intensificou os controles de segurança, algo que traz um modo a mais de interpretar o título do livro de Gillian Rose, “Mourning becomes the law” (O luto torna-se lei). Estaríamos vivendo um momento de luto ou uma submissão a um poder de Estado cada vez mais militarizado, de suspensão da democracia? De que maneira esse modelo de Estado se instaura com maior facilidade quando é vendido em nome do luto? Serão três dias de luto público, mas o estado de emergência poderá se estender por até 12 dias até que seja necessária sua aprovação em assembleia nacional. E ainda, a explicação do Estado é de que é preciso restringir liberdades a fim de defender a liberdade – um paradoxo que não perturba os doutos comentaristas da televisão. De fato, os atentados foram evidentemente direcionados a locais emblemáticos da circulação livre e cotidiana na França: o café, a casa de shows, o estádio de futebol. Na casa de shows, aparentemente, um dos assassinos responsáveis pelas 89 mortes violentas acusou a França de ter falhado na intervenção na Síria (contra o regime de Assad), e o Ocidente, pela intervenção no Iraque (contra o regime baathista). Não se trata, portanto, de um posicionamento (se é que podemos chamá-lo assim) totalmente contrário à intervenção ocidental em si.

Há, ainda, uma política dos nomes: ISIS, ISIL, Daesh. A França recusa-se a dizer “état islamique” para não reconhecer sua existência enquanto Estado. Querem manter o termo “Daesh”, palavra árabe que não é acolhida pela língua francesa. Nesse meio tempo, foi essa a organização que assumiu a responsabilidade pelos ataques, afirmando que se tratava de uma retaliação pelo bombardeio que matou muçulmanos em território do califado. A escolha de um show de rock como alvo de ataque – como cenário para os assassinatos, na verdade – recebeu a justificativa de que ali seria um local de “idolatria”, de um “festival de perversão”. Eu me pergunto onde eles encontraram o termo “perversão” – parece que estiveram lendo uma bibliografia de outra área.

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