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09 Novembro 2015

O filtro: esse é o problema. Uma espécie de peneira através da qual se pudesse examinar os personagens que chegam à sua escrivaninha no papal na Casa Santa Marta: como candidatos, mediadores, mulheres e homens piedosos ou assumidos como tais. Isso serviria para entender as suas qualidades e, acima de tudo, os seus defeitos e limites.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 05-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E depois, tendo na frente um número de informações adequadas, poder escolher sem ficar desnorteado por surpresas, para dizer o mínimo, desagradáveis. O dilema de Francisco está sendo reproposto depois do furto de documentos confidenciais dos cofres de informática da comissão para revisão das finanças vaticanas.

A prisão do monsenhor Vallejo Balda e a prisão, depois revogada, de Francesca Chaouqui foram o último aviso na ordem do tempo; e, ao mesmo tempo, o prenúncio de novas possíveis fissuras na trama virtuosa que o pontífice tenta impor à sua Igreja.

"A questão existe", admite uma das pessoas que o encontram com mais frequência. "Infelizmente, o método anterior, o que levou à renúncia de Bento XVI, não funcionava mais. Mas ele também envolve muitos riscos. Seria preciso uma pessoa capaz de filtrar da melhor forma possível o mar de pessoas que se aproximam dele ou que lhe são sugeridas. Por caráter, Jorge Mario Bergoglio não é feito para os filtros, ele não os quer."

Portanto, um sistema de governo não funciona mais e foi arquivado. Outro, totalmente novo, apresenta sérios inconvenientes. E o resultado é o de um pontífice superexposto às dinâmicas mais ou menos "revolucionárias" que ele mesmo colocou em movimento.

A escolha de viver no hotel da Cidade do Vaticano quebrou a velha cadeia de comando, já enferrujada. O temor, porém, é de que agora até mesmo a outra revele ter elos fracos, que poderiam se despedaçar de repente; e, portanto, fornecer argumentos e pretextos para aqueles que estão decididos a atacar não só Francisco, mas também o seu modelo de Igreja.

A pergunta que se faz em voz baixa no Vaticano, e não só, é quantos monsenhores Balda existem e quantas Chaouqui. E não pelas suas responsabilidades, ainda a serem demonstradas, mas pelos critérios de seleção dos quais são o produto; por uma certa extemporaneidade que transparece por trás da eliminação da nomenklatura do passado; pela taxa de profissionalismo que refletem.

Sob esse aspecto, fatos desconexos entre si se mantêm unidos de modo inquietante. A confissão de ser homossexual do teólogo polonês Mons. Charamsa às vésperas do Sínodo; as cartas de 13 cardeais, não de pessoas quaisquer, que acusam um papa de manipular justamente aquele Sínodo para pré-fabricar o seu resultado; e uma história obscura que remete a uma manobra não de dois jornalistas autores de dois livros ou daqueles que falaram de uma doença inexistente de Francisco, mas de algumas das fontes das quais parecem provir muitas notícias.

São indícios que evocam uma classe dominante eclesiástica ou secular "recrutada" pelo Vaticano, de contornos, no mínimo, controversos. E permitem que aqueles que querem manchar o papado de Bergoglio possam fazer comparações com o escândalo Vatileaks de 2012-2013.

De maneira diversa e por objetivos diferentes, algumas dessas pessoas não encontraram nada de inoportuno em cometer atos que acabaram abalando ou, melhor, danificando a Igreja. E, acima de tudo, cada uma tentou encobrir com razões aladas comportamentos bastante terrosos.

Por isso, enquanto o papa decide reagir à onda de lama acelerando as reformas, preparando nomeações desestabilizadoras de outros bispos italianos e pondo de lado personagens discutidos, não se fala apenas de "complô". Os mais sinceros consigo mesmos admitem que o que está acontecendo também é uma espécie de "autocomplô" vaticano, que ocorreu por falta de cautela, pela pressa de mudar e por aquela ausência de filtros capazes de proteger Francisco das armadilhas da Roma papista.

Fala-se disso apenas por alguns gastos excessivos que lhe são atribuídos, mas a própria figura do "ministro da Economia" da Santa Sé, o cardeal australiano George Pell, hoje é apontada como uma das escolhas não propriamente acertadas.

É verdade que o seu comportamento autoritário e a tendência a centralizar o poder desautorizam as outras instituições vaticanas são ofuscados pelas façanhas atribuídas ao ex-secretário de Estado, Tarcisio Bertone, pelo seu apartamento reformado (é a acusação) com o dinheiro da Fundação do Hospital Bambin Gesù.

Mas Francisco se deu conta de como Pell é impopular nos escritórios dentro dos Sagrados Muros e de como ele tende a privilegiar o seu grupo. Entre os prefeitos vaticanos, circula a cópia do decreto ou, melhor, Decree, em inglês, que Pell elaborou em setembro de 2014 para anunciar a nomeação dos seus próprios colaboradores ao Secretariado para a Economia: 11 linhas completas com um selo vermelho no qual ele "estabelecia" e "decretava".

Talvez, a aversão contra ele também nasce de um maniqueísmo que, nas intenções, era e é para um bom propósito. Mas ele é imputado por falar demais, produzindo gafes e nervosismo; por impor sacrifícios financeiros que ele não faz. Por isso, quando se pergunta se um dos alvos dos "corvos" também não era, por acaso, o cardeal australiano, a resposta no Vaticano é brutal: "Pell se alveja sozinho".

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