René Girard: o escândalo da violência. Texto inédito

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09 Novembro 2015

No dia 7 de novembro de 1996, René Girard, o antropólogo e filósofo francês falecido no último dia 5 em Stanford (EUA), proferia na Universidade Estatal de Milão a sua conferência sobre "Violência e verdade nos Evangelhos e na mitologia", primeira contribuição da 9ª edição da "Cátedra dos não crentes", promovida pelo cardeal Carlo Maria Martini e dedicada naquele ano justamente ao tema "Fé e violências".

O texto da conferência, até agora inédito, aparece agora na coletânea Le Cattedre dei non credenti, recém-publicado com edição de Virginio Pontiggia, pela editora Bompiani (1.256 páginas).

Publicamos aqui o trecho inicial. Naquela noite, em Milão, Girard, que na época tinha 72 anos, tentou pela primeira vez fazer uma densa síntese do seu pensamento, centrada – como se sabe – na teoria do "bode expiatório", a vítima inocente sobre a qual, por um mecanismo de mimetismo social, se desencadeia a violência coletiva.

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 06-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos mitos se assemelham aos Evangelhos. Comecemos com uma catástrofe qualquer, um "caos" mais ou menos original, uma grande crise que, para além dos aspectos fantásticos, não seja talvez muito diferente da crise religiosa, social, política de que tratam os Evangelhos.

Nos mitos, essa crise muitas vezes desemboca na mais brutal violência coletiva, no assassinato em massa, no linchamento. Muitas vezes, a violência, mesmo sem ser efetivamente coletiva, é de inspiração coletiva: é o caso, sabemo-lo, da crucificação, decretada apenas por Pilatos, certamente, mas sob a pressão da multidão. Tudo acaba com um retorno triunfal da vítima, muitas vezes comparável a uma ressurreição.

Observando essas semelhanças, os defensores do paganismo antigo já negavam a singularidade do cristianismo. O debate se reacendeu no século XIX, com a descoberta no mundo inteiro de cultos arcaicos, fundamentados também eles em uma violência coletiva ou de inspiração coletiva.

Com base nessas semelhanças, a etnologia tentou por muito tempo demonstrar a natureza mítica do cristianismo. Fracassou, mas, no entanto, conseguiu convencer grande parte da opinião, e hoje também muitos cristãos estão persuadidos de que é insustentável reivindicar uma singularidade absoluta ao cristianismo.

A visão mítica do cristianismo é reforçada por todos os sincretismos que, como a teoria de Jung, enfatizam a unidade simbólica do religioso.

Essa visão é falsa; e a sua falsidade pode ser demonstrada a partir dos Evangelhos. Neles, há uma concepção do desejo, da violência e da organização social que permite compreender aqueles que são os mitos e que permite recusar a sua assimilação ao cristianismo.

Quando Jesus nos ordena a segui-Lo e a imitá-Lo, Ele não nos pede para adotar os Seus modos de fazer ou os Seus hábitos pessoais, dos quais não sabemos nada; ao contrário, é o seu desejo mais intenso que Ele nos pede para assumir. Esse desejo, no entanto, não Lhe pertence propriamente, pois consiste em imitar o desejo de Deus, o Pai.

Uma vez satisfeitos os nossos apetites naturais, todos desejamos intensamente, mas não sabemos exatamente o que, já que é ao invisível e ao inacessível a que aspiramos. De acordo com São Paulo, nós não sabemos nem o que queremos pedir a Deus e "o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis" (Rm 8, 26).

Para orientar o nosso desejo, procuramos por toda a parte modelos capazes de nos guiar. Muitas vezes, acontece que o modelo escolhido vem perturbar a nossa existência, sobretudo se não é muito diferente de nós.

Imitando o nosso vizinho, o nosso próximo, desejamos o que ele deseja e, não querendo ou não podendo possuir ambos o objeto desse desejo, lutamos por ele. Em vez de desencorajar os desejos que se opõem, esse tipo de conflito os alimenta, porque reforça a imitação e a torna recíproca.

Quanto mais os rivais se chocam com o obstáculo que se tornaram um ao outro, mais estão obcecados e mais insistem no choque. Para designar o obstáculo do desejo rival, os Evangelhos têm um termo específico: "escândalo", em grego, skandalon.

Isso não significa tanto o obstáculo comum, com o qual nos chocamos uma vez só, porque logo aprende a evitá-lo, mas sim o obstáculo contra o qual se retorna continuamente. Quanto mais nos faz mal, mais nos parece desejável; quanto mais nos rejeita, mais nos atrai.

A tradução antiga – pedra sobre a qual se tropeça – sugere a dimensão repetitiva ou cumulativa dos escândalos, mal substituída pelas traduções recentes, do tipo "ocasião de pecado". O escândalo é o que acontece com o desejo humano quando o modelo que o inspira se transforma em rival e em obstáculo, pelo próprio fato de que ele o imita: é o modelo/obstáculo do desejo imitativo ou mimético.

Melhor do que toda teoria moderna, os textos evangélicos sobre o escândalo explicam a violência humana e o seu extraordinário poder de contágio e de penetração.

Embora o escândalo nos ameace continuamente, não devemos generalizar na condenação do desejo. À sua natureza imitativa, mimética, não devemos atribuir apenas o pior dos homens, mas também a sua parte melhor, o seu impulso a Deus. Se nós imitarmos Cristo ou os Seus discípulos, nenhuma rivalidade nos ameaça, porque o Filho e o Pai são alheios a todo desejo, a toda vontade de açambarcamento egoísta.

Jesus, no entanto, não tem ilusões sobre o sucesso das suas advertências sobre o escândalo. Prova disso é a famosa frase: "É inevitável que ocorram escândalos" (Mt 18, 7). E, uma vez ocorridos, os escândalos se reproduzem e se intensificam muito rapidamente.

Se não houvesse nada para interromper a sua ascensão, chegaríamos diretamente à destruição de todas as comunidades. O que interrompe a corrida ao abismo, paradoxalmente, são os próprios escândalos. Reproduzindo-se e exasperando-se, eles acabam provocando a crise decisiva, que os remove não para sempre, mas por um tempo mais ou menos longo.

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