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06 Novembro 2015

"Os Demônios, de Dostoiévski. Depois, Em busca do tempo perdido, de Proust." Foi uma resposta sem hesitação, mas ainda mais inesquecível pela doçura da voz e do olhar com que René Girard a pronunciou, no seu pequeno apartamento parisiense a poucos passos da Torre Eiffel, diante de um cronista que levou algum tempo para decifrar como era possível que tal monumento das ciências humanas ocidentais, no fim de uma entrevista, pudesse responder com tanta naturalidade a uma pergunta que faria rir ou, ao contrário, indisporia muitos outros: "Perdoe o trocadilho. Mas quais romances você levaria absolutamente para uma ilha deserta?".

A reportagem é de Daniele Zappalà, publicada no jornal Avvenire, 05-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Atrás do grande estudioso, havia um homem de rara generosidade intelectual, muitas vezes testemunhada por aqueles que, ao longo dos anos, puderam encontrar ou "sentir" Girard. Ainda havia picos imprevistos, muito discretos, por trás da enorme fama acadêmica do antropólogo descobridor da teoria do desejo mimético e do bode expiatório, que acaba de falecer aos 91 anos, depois de uma longa doença.

Como intuíam os colaboradores mais próximos de uma vida, esses picos íntimos habitavam o homem em simbiose com a fé de Girard, nascido no dia de Natal de 1923, em Avignon, a cidade do palácio dos papas.

Com Mentira romântica e verdade romanesca, lançado em 1961 e, desde então, reimpresso continuamente em todo o mundo (É Realizações, no Brasil), começou justamente a partir da análise dos maiores romances ocidentais a cavalgada de Girard em uma nova pradaria virgem da antropologia filosófica, resumida talvez por uma célebre máxima do livro: "O homem deseja sempre de acordo com o desejo do Outro".

Das leituras iniciais girardianas das obras-primas de Stendhal, Cervantes, Flaubert, Proust e Dostoiévski, essa teoria, depois, se difundiu como uma espécie de bing bang teórico nos campos mais variados das ciências humanas, como mostra hoje a extrema variedade dos temas abordados pelos congressos da ARM, a Associação das Pesquisas Miméticas, desejada na França pelos alunos e amigos de Girard para oferecer uma coordenação mínima, uma espécie de mapeamento, do rizoma intelectual que se propagou ao longo das décadas a partir da grande intuição de Girard.

"A sua herança cultural será assegurada por muitos, e eu gostaria de dizer que, neste momento, não há nenhum cenáculo girardiano, porque René soube falar desde logo a um vasto público nas duas margens Atlântico, conservando até o fim esse gosto pela abertura", afirma Benoît Chantre, um dos amigos mais próximos e presidente da ARM, com voz paralisada pela dor.

Em 2007, Chantre, justamente, tinha dialogado com Girard na última grande obra do pensador, ainda extraordinariamente magmática e envolvente, publicado no Brasil com o título Rematar Clausewitz: além da guerra (É Realizações).

Os críticos mais atentos logo a interpretaram como um aviso de sabor profético, apontado para as enormes capacidades de autodestruição do gênero humano: uma espécie de atualização, em chave filosófica e para os leitores do século XXI, do retrato do niilismo humano contido em nível literário justamente nos Demônios de Dostoiévski, a obra preferida de Girard: "Somos a primeira sociedade a saber que pode se autodestruir de modo absoluto. Mas nos falta a crença que poderia sustentar esse saber".

Ao longo da densa parábola intelectual girardiana, da primeira a esta última obra-prima, são muitas as obras que impressionaram os leitores do mundo inteiro.

Volumes escritos quase todos nos Estados Unidos, naquela Stanford onde Girard conduziu quase toda a sua carreira acadêmica. E onde os estudantes do câmpus da célebre universidade tinham aprendido a se cruzar com Girard também aos domingos, ao longo do caminho para a missa.

Na Itália, onde o pensamento girardiano foi acolhido com grande favor também por âmbitos intelectuais ideologicamente opostos, foi publicado em 1980, pela editora Adelphi, La violenza e il sacro [Violência e sagrado, Ed. Paz e Terra], antes de Il capro espiatorio (Ed. Adelphi, 1987).

"O amor, como a violência, abole as diferenças", escrevera ele em uma das tantas obras com que havia especificado o seu pensamento ao longo do tempo, Coisas ocultas desde a fundação do mundo (Paz e Terra). E de amor sempre tratou toda a obra girardiana, concentrada nesse assunto também em sentido profundo, inserido na própria natureza humana, pela Paixão de Cristo: para Girard, o Sacrifício que foi oferecido como modelo, derrubada e possível saída em relação à estrada antiga, antropologicamente enraizada, dos holocaustos rituais para aplacar a agressividade social conectada com as armadilhas íntimas do desejo.

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