Conceição Tavares propõe aliança

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05 Novembro 2015


O Brasil precisa de uma aliança ampla com diversos setores da sociedade, para além de uma “frente de esquerda”, para vencer a crise política, e uma política de substituição de importações para vencer a crise econômica. As ideias foram defendidas pela economista Maria da Conceição Tavares, professora emérita da UFRJ, em raro discurso após receber uma homenagem em seminário no Rio. Aos 85 anos, a professora adotou um discurso de esperança.

“Hoje é fundamental recuperar a esperança porque a conjuntura está muito adversa”, disse Maria da Conceição, que foi ovacionada de pé pela plateia e enxugou algumas lágrimas após a exibição de um vídeo sobre sua trajetória no evento de ontem, promovido pela Finep, agência de fomento à inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

A reportagem é de Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo, 05-11-2015.

Ex-deputada federal pelo PT e participante ativa do debate público sobre política econômica, sobretudo no período da redemocratização, nos anos 1980, Maria da Conceição tem concedido poucas entrevistas e aparecido menos em eventos públicos.

Na semana passada, ela recebeu uma homenagem no Instituto de Economia da UFRJ. Ontem, foi definida por colegas como a maior economista brasileira – nascida em Portugal, a professora está radicada no País desde a década de 1950.

Projeto de desenvolvimento

No discurso no encerramento da sessão em sua homenagem no seminário, a economista disse não crer na possibilidade, no curto prazo, de se levar adiante um projeto de desenvolvimento econômico do País com inserção internacional. Nem mesmo quando “o Estado nacional recuperar sua capacidade de operação, pelo menos fiscal” ou com o câmbio mais favorável às exportações.

Isso porque, segundo a professora, o fim do superciclo de commodities e a desaceleração do crescimento da China são obstáculos difíceis de transpor.

Por isso, a saída para a economia nacional, disse Maria da Conceição Tavares, é “voltar ao começo”.

“Temos de fazer, por um lado, por razões de conjuntura internacional e interna, um esforço de substituição de importações outra vez e, por outro, fazer um Estado social de bem estar, porque esse curso dos últimos dez anos não pode ser interrompido”, disse Maria da Conceição, ressaltando que é possível manter políticas de distribuição de renda com a substituição das importações e com investimentos em infraestrutura.

Aliança nacional

Para a saída dar certo, a professora defendeu uma reforma do Estado e uma ampla aliança entre partidos políticos, intelectuais, representantes da sociedade civil e empresariado, assim como foi no movimento das “Diretas Já”, no início dos anos 1980.

O lema do PMDB na época da redemocratização era “mudança e esperança”, lembrou a economista, destacando que o então principal partido de oposição não atuou sozinho na mobilização pela redemocratização, integrando uma ampla aliança.

“Mais do que um slogan, o que precisamos é de um trabalho político e paciente e de inteligência estratégica. Espero que ocorra antes de eu morrer. Não gostaria de morrer com a situação tão ruim como está, porque aí já é demais”, afirmou Maria da Conceição, arrancando risos da plateia, para então citar o economista Celso Furtado, um de seus mentores. “Isso aconteceu com o pobre do Furtado. Antes de morrer, disse que estava tudo ruim e tal. E ele morreu.”

Após seu discurso, a professora disse acreditar na esperança. “Maior declínio do que tivemos na ditadura é impossível. Não existe isso de não sair (da crise)”, disse a jornalistas.

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