"Francisco assusta muitos. Essas manobras tem inspiradores até mesmo fora do Vaticano." Entrevista com Francesco Coccopalmerio

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05 Novembro 2015

Para o cardeal "ministro da Justiça" da Santa Sé, "querem fazer com que se veja que tudo vai mal para enfraquecer a figura do Santo Padre".

A reportagem é de Orazio La Rocca, publicada no jornal La Repubblica, 04-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Cardeal Coccopalmerio, duas pessoas presas no Vaticano, com a acusação de terem roubado documentos confidenciais. O que acontece do outro lado do Rio Tibre ? É só um roubo "banal" de segredos de ofício ou é uma manobra para condicionar o Papa Francisco?

"Eu não saberia dizer, pois não tenho elementos diretos para julgar Mas certamente se trata de uma história que faz mal, desagrada a todos, começando pelo Santo Padre. Mas uma coisa é certa: o papa não vai se deixar condicionar por ninguém. Embora episódios semelhantes levem a pensar e a se perguntar se essas duas pessoas agiram sozinhas ou se foram manipuladas por alguém. É legítimo se perguntar, neste momento, quem está por trás do que aconteceu. Até mesmo fora do Vaticano."

Fino jurista, colaborador durante anos do cardeal Carlo Maria Martini em Milão, o cardeal Francesco Coccopalmerio é o presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, quase uma espécie de "ministro" da Justiça vaticana. Muito estimado pelo Papa Francisco, o purpurado, mesmo sem esconder "dor e decepção com o que aconteceu", diz estar convencido de que "o processo de renovação, de limpeza e de transparência iniciado pelo pontífice não vai sofrer desacelerações, porque nenhuma manobra, embora dolorosa, poderá pará-lo".

Eis a entrevista.

No entanto, as duas novas prisões, mas também as falsas notícias sobre a saúde do papa, a revelação da carta de "lamentações" escrita a Bergoglio por 13 cardeais durante o Sínodo ou a admissão pública de ter um companheiro gay feita por um prelado do ex-Santo Ofício, levam a pensar que Francisco deve se guardar seriamente do Palácio. Você não acha?

É verdade, trata-se de acontecimentos que levam a pensar. Mas eu não generalizaria. Ao contrário, o Santo Padre talvez deve se guardar de alguns, mas certamente não do Palácio inteiro. Isso certamente é verdade. Assim como é verdade que é bom começar a ver quem está por trás de outros Palácios, que, de fora do Vaticano, podem ter inspirado certas manobras, porque não há dúvida de que o papa já está começando a assustar alguns. Há um submerso que não conhecemos e sobre o qual é bom começar a prestar atenção. Uma encíclica como a Laudato si', para além dos elogios, certamente tocou os interesses de determinados ambientes. Muitos a aplaudiram, mas a muitos ela incomodou muito.

A Santa Sé falou de "confiança do papa traída". Não devemos nos esquecer que os dois presos não pertencem à velha guarda, mas são pessoas chamadas por Francisco para preencher cargos importantes. A suspeita, portanto, de que na própria Cúria alguém visa a desestabilizar a figura do pontífice com manobras pouco limpas realmente tem algum fundamento. Você não teme perigos desse tipo?

Eu não gostaria de falar sobre tentativas de desestabilização em curso. Com Bento XVI também houve uma história dolorosa de revelação de segredo pontifício. Repito, são casos que fazem mal, até porque dão a impressão, especialmente para quem não conhece diretamente os mecanismos da Santa Sé, de que tudo no Vaticano vai mal e que se tenta enfraquecer a figura do pontífice. Diante desses episódios, o impacto sobre a opinião pública pode ser muito negativo. É compreensível que as pessoas possam se perguntar o que está acontecendo no Vaticano.

Mas como o Papa Francisco reagiu a essas notícias? Se ele se sente cercado e traído, as suas reformas, talvez, poderiam sofrer uma parada. Você não teme isso?

Certamente desagradou-lhe tomar conhecimento do fato de que alguém roubou documentos confidenciais da Santa Sé para sabe-se lá quais motivos. Mas, conhecendo-o bem, eu sei que ele nunca vai parar. O papa tem coragem, não se deixa condicionar, é um Pai que ama os seus filhos e se deixa amar, e as pessoas entenderam isso imediatamente. Mas ele também é um governador no sentido mais completo do termo e, quando ele está certo de que deve fazer um ato de governo pelo bem da Igreja, ele segue em frente seguro. As dificuldades não o detêm, ao contrário, ele se torna ainda mais forte. E não há nenhuma tentativa de desestabilização que possa bloqueá-lo. É verdade, porém, que são os seus discursos e as suas intuições pastorais, sempre alinhados com a tradição doutrinal da Igreja, que começam a incidir, e talvez alguns tenham medo disso. Como se viu no Sínodo.

No Sínodo, porém, também houve divisões e muitos contrastes.

O Sínodo foi um alto momento de debate entre posições até mesmo diferentes, não com choques, mas com debates construtivos. O Santo Padre, depois, sabiamente amalgamou as várias almas com base na sua experiência pastoral. Basta lembrar o que ele disse no seu discurso na conclusão dos trabalhos da última sessão sinodal sobre o conceito de doutrina e pessoa. A doutrina tradicional, lembrou ele, está clara, todos a conhecemos, não precisa ser repetida. Mas se você fizer da doutrina algo de estático, como uma pedra a ser jogada contra alguém, isso pode fazer mal, não está certo. A doutrina, ao contrário, deve calar nos sofrimentos cotidianos das pessoas. Não deve ser estática, distante das pessoas, daqueles que vivem na dificuldade e pedem para ser ajudados e apoiados na luz que vem do Evangelho. Essa abertura foi vista por alguns dos Padres sinodais como um perigo de "sujar" a "pureza" da doutrina. Mas não é assim.

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