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30 Outubro 2015

Comer carne deixa rastros. Concretamente, na forma de impactos ambientais. O relatório publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) esta semana, que ligava o consumo excessivo de carne com um maior risco de contrair o câncer, além de incomodar a indústria da carne, colocou os holofotes sobre um problema dissimulado. “O consumo excessivo de carne não só afeta a saúde das pessoas como também prejudica o meio ambiente”, resume o professor de nutrição Lluís Serra-Najem, da Universidade de Las Palmas, nas Ilhas Canárias.

A reportagem é de Pablo León, publicada por El País, 29-10-2015.

Existem quatro variáveis ambientais que limitam a produção de carne em escala global: a superfície ocupada pelas pastagens; a água consumida, tanto por parte dos animais como no processo de produção; os gases de efeito estufa provocados pela flatulência do gado —atualmente 14,5% do que é lançado na atmosfera, segundo a a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)—, e a energia necessária durante o processo. Atualmente, grande parte da população mundial não consome produtos à base de carne nem laticínios, mas à medida em que as condições socioeconômicas dos países em desenvolvimento melhoram, a demanda por esses alimentos aumenta, colocando em xeque os recursos ambientais da Terra. Será que o mundo come carne para além de suas possibilidades?

Para que uma vaca produza 1 quilo de proteína, ela precisa consumir entre 10 e 16 quilos de cereais, enquanto um porco requer 4 quilos. “Para produzir um filé de 200 gramas, são necessários cerca de 45 bacias de cereais”, ilustra Laura Ordóñez, cientista ambiental e professora da Escola Internacional de Naturopatia, em Granada, na Espanha.

Fatores limitantes

“Produzir carne é algo muito custoso, e seria mais eficiente alimentar as pessoas com os cereais que se destinam à engordar o gado”, afirma a especialista. O cereal é apenas uma parte da pegada de carbono (o impacto que qualquer atividade produz no meio ambiente) da indústria da carne. A água é outro fator limitante: enquanto para cultivar 1 quilo de milho são necessários 1.500 litros de água, para se ter 1 quilo de carne são consumidos 15.000 litros do líquido. “Isso sem falar na contaminação por purinas [resíduos líquidos formados pela urina e pelas fezes dos animais], geradas principalmente em fazendas de suínos, e com graves consequências para o solo e para as águas subterrâneas”, afirma Raúl García Valdés, professor de ecologia da Universidade Autônoma de Barcelona.

Este ano serão produzidos no mundo 318,7 bilhões de toneladas de carne, “e espera-se um aumento do consumo mundial a um ritmo de 1,6% por ano nos próximos 10 anos”, anunciou o agroeconomista belga Erik Mathijs durante o Congresso Internacional de Ciências e Tecnologias da Carne, realizado em agosto. Um crescimento que se concentrará, principalmente, nos países em desenvolvimento. “Atualmente, 80% do planeta consome pouca carne e quase nada de leite”, lembra Lluís Serra-Najem. Ele cita um exemplo: “No momento em que 1,2 bilhão de cidadãos chineses começar a demandar esses produtos, será necessário um aumento de produção que não sabemos se será possível, por causa das limitações ambientais do planeta”.

“O problema não é tanto o consumo de carne, mas sim o abuso”, afirma Serra-Najem, que junto com outros três pesquisadores investigou o que pode acontecer no mundo se o padrão alimentar tradicional fosse recuperado. “Se a Espanha voltar à dieta mediterrânea, não só as pessoas teriam uma saúde melhor como também as emissões de gases de efeito estufa associadas à produção de alimentos cairiam 72%; o uso de terras agrícolas se reduziria em 58%; a energia solicitada diminuiria 52%, e a água necessária baixaria em 33%”, conclui estudo realizado pelos especialistas. Se, ao contrário, os espanhóis tenderem a comer como nos Estados Unidos, o país mais carnívoro nos últimos 50 anos, todos os impactos ambientais avaliados cresceriam entre 12% e 72%. “O modelo dos Estados Unidos produz seis vezes mais gases de efeito estufa que o mediterrâneo. E o dobro da dieta atual dos espanhóis”, afirma o professor.

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