O engodo da classe média acomodada

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30 Outubro 2015

Flavio Comim propõe uma reflexão acerca do que sustenta o sistema do capital do século XXI e ainda engana, atraindo as pessoas para uma falsa ideia de vida menos desigual

A quinta-feira, 29-10, encerrou em clima de provocação. Em mais um encontro do Ciclo de Estudos O Capital no Século XXI – uma discussão sobre a desigualdade no Brasil, o economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Flávio Comim, debateu o tema Políticas públicas de regulação do capital e possibilidades para um Estado social no Brasil.

Como os demais painelistas, teve a fala iluminada por Thomas Piketty, e o Capital no Século XXI (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014). Entretanto, Comim desafiou a plateia a pensar porque esse capital especulativo e seu sistema financeiro, que é o verdadeiro gerador de riqueza no mundo hoje, sustenta-se sem que não haja resistências. “A renda não é só a renda e sim a legitimidade que ela carrega. O que nos faz sentir classe média? E pior: o que nos faz sentir acima da classe média?”, provoca o professor.

Flávio Comim: "o que transforma é a educação"
Comim chama a atenção para um sistema que faz com que se busque bens que lhe confiram uma significação, vendendo a ideia de que não se é pobre e que consegue acessar tais bens de consumo como os ricos. É o exemplo do carro. Quem tem, se vê desobrigado a depender do sistema público de transporte. Logo, tem autonomia, liberdade e vantagem sobre quem não tem. O mesmo funciona com smartphones, TV’s modernas de tela plana, viagens... “É uma forma de ilusão. As pessoas acham que consumindo esses bens do 1% mais rico fazem parte desse 1%”, explica. A perversidade está no fato de que, além de achar que se está nesse grupo, a classe média acaba alimentando o sistema com sua casa própria e bens que consume. “E acabamos tendo uma aceitação por algo que não entendemos. São as migalhas que sobram para além desse 1% mais rico que Piketty fala”, completa Comim.

O professor reconhece que há uma inclusão e que mais pessoas conseguem acessar bens que antes não se imagina para pessoas mais humildes. Outro exemplo que traz é a possibilidade de se viajar de avião. Mais pessoas – e de classe social mais baixa - fazem isso. “Mas ainda está distante de uma real mudança de paradigma. E é justamente essa ideia de mudança que incomoda essa classe do 1%”, aponta.

Comim traz esse cenário para se pensar além do que Piketty ilumina ao demonstrar que a renda do capital é muito superior a renda do trabalho. “Pois assim (olhando só para a renda do trabalho) se tem ideia que a desigualdade diminui, mas na realidade não. Os pobres estão cada vez mais pobres. A classe média vê seu dinheiro diminuindo e os ricos estão cada vez mais ricos”, pontua, ao atribuir esse movimento ao fato de, ao não olharmos para o papel do capital nesse século, não entendermos de fato o mecanismo que faz essa roda girar só a favor do 1%.

Pobre no lugar de pobre

Se a classe média se acha menos distante dos ricos por desconhecerem o processo, os pobres são mantidos ignorantes sobre toda engrenagem. Para destacar isso, Comim recorre a Inglaterra em período pré-revolução industrial. “Até então, não se conhecia e nem se tinha a ideia de pobres”, explica. É então que começa a pensar em alimentar os pobres, que virão números, dando condições mínimas para existência, mas sem capacidade emancipatória. Através dessa alegoria, chega nas políticas públicas brasileiras de transferência de renda condicionada. “Essa ideia nasce no México como forma não paternalista, pensado para que as pessoas melhorem de vida no longo prazo, de geração para geração. No Brasil, queremos isso imediatamente”.

Comim destaca a forma pouco emancipatória que a política pública assume, como que se abafasse a potencia do pobre para melhorar de vida, diminuindo a desigualdade de geração para geração. “Começamos com o Fome Zero, que era exemplo, mobilizava não só o governo, mas também a população. Dai, fomos transformando a política em outra coisa até passar pelo Bolsa Família e chegar no Brasil sem Miséria”, pontua, destacando a perda do caráter emancipatório de longo prazo. “Um Bolsa Família tem o objetivo de que os pobres não deixem de ser pobres. E quem faz isso é quem manda. E quem manda é o capital financeiro”, completa.

Saídas

Classe média se vê próximo do 1% mais rico da população
Como os demais painelistas do Ciclo, Comim destaca que a grande contribuição de Piketty é trazer à luz para o capital e não para a renda do trabalho. “E isso demonstra o quanto não sabemos sobre a renda no Brasil. Sem essas informações, a desigualdade é imensa e não sequer somos capazes de mensurar”, destaca. Assim, entende que uma saída para se pensar em reverter o quadro é realmente para onde aponta o autor: taxação do capital.

Entretanto, Comim vai além: “Piketty deixa a mensagem de que a sociedade precisa ser mais forte que a economia que a sustenta. O que acontece no século XXI não é a luta de classes, o operariado na fábrica. É mais perverso: é a luta de 1% (mais rico) contra todo o resto”, destaca. O que o professor percebe, como ainda mais grave, o fato de a população nem fazer ideia de como isso ocorre, como o sistema gira essa roda. “E é por isso que estimulo a pensar que a saída é pela educação. É preciso muito mais do que renda mínima para transformar as pessoas e diminuir a desigualdade”.

Por João Vitor Santos

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