Congresso de Teologia da Ameríndia discute os desafios e oportunidade na Igreja de hoje

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30 Outubro 2015

Com o tema "Conjuntura e relevância eclesial global e do continente”, a cientista política peruana Cecília Tovar apresentou nesta terça-feira, 27 de outubro, no segundo dia do II Congresso Continental de Teologia da Ameríndia, os desafios e oportunidades da Igreja pós Concílio Vaticano II. A filósofa afirma que o momento atual é de transição de um Cristianismo europeu para um Cristianismo universal, e enfatiza as reformas e questionamentos propostos pelo Papa Francisco, que têm suscitado uma forte oposição dentro da Cúria.

A reportagem é de Cristina Fontenele, publicada por Agência de Notícias da América Latina e do Caribe - Adital, 28-10-2015.

Cecília é também pesquisadora, membro do Instituto Bartolomeu de las Casas (associação fundada pelo teólogo peruano Gustavo Gutiérrez e por um grupo de católicos), além de ser autora de artigos e livros, como "Ser Igreja em tempos de violência” e "Uma Igreja em defesa da vida: Peru 1980-2000”.

Em sua palestra, a pesquisadora explicou que há três grandes períodos na história da Igreja, com destaque para o terceiro período, iniciado com o Concílio Vaticano II (1962-1965), que promoveu o começo de uma Igreja "realmente universal”. No entanto, para Cecília, o período conciliar não "caiu do céu”, sendo precedido de uma "efervescência” de teólogos, muitas vezes, condenados, proibidos de ensinarem, mas considerados especialistas pelo Concílio. "Foi uma larga preparação e uma luta para abrir as janelas da Igreja.”, refletiu.

Cecília cita como atores desse período conciliar personalidades que tiveram, de alguma forma, um papel importante na Igreja. Entre elas os papas João XXIII, João Paulo VI, Bento XVI e Francisco. Lembra ainda dos bispos renovadores, do grupo do Pacto das Catacumbas, mencionando também a ala conservadora de bispos que existia na época.

Correntes eclesiais

Segundo a filósofa, as correntes eclesiais, advindas da teoria dos movimentos sociais, são forças dinâmicas, que buscam influir nas decisões da doutrina da Igreja e se caracterizam por três dimensões. Para ser considerada corrente é necessário que esta possua uma esfera teológica (salvação do reino de Deus, tradição do ser humano e da história); eclesial (dimensão organizativa, concepção de Igreja e função dos membros); pastoral (relação com o povo, canais convocatórios e maneiras de atuarem no mundo). Cecília explica que essas correntes coexistem dentro da Igreja e buscam legitimidade.

No período conciliar, a pesquisadora aponta a existência de três correntes:

1) Renovadora – formada pela maioria do Concilio, pelos episcopados e grandes teólogos, no geral, europeus. Corrente esta que dominou a primeira fase pós-conciliar, impulsionou mudanças, a liturgia e a atitude de diálogo com o mundo; uma abertura para a modernidade, promovendo a separação entre a Igreja e o Estado; o papel adulto dos laicos, o ecumenismo e uma atitude mais aberta para a sexualidade.

2) Conservadora ou tradicionalista – foi minoria no Concílio, mas, depois, esta corrente se reorganizou e se fortaleceu, convertendo-se em neoconservadores. Cecília explica que essa corrente, caracterizada por uma ofensiva contra a Teologia "latino-americana progressista”, liderou, por uns 20 anos, a fase do "inverno eclesial”, criando movimentos como os "Kikos” (Caminho Neocatecumenal, fundado por Kiko Argüello) e os "Legionários”. De acordo com a teóloga, os neoconservadores aceitam os valores da tecnociência, mas não aprovam os valores das liberdades modernas, como a igualdade de direitos, de gêneros e, tampouco, os diálogos com a ciência. Sua teologia busca o apoio do poder político e rechaça o ecumenismo. O povo cristão é tratado por eles como um menor sob tutela, que precisa se enquadrar nas estruturas. Na América Latina, os neoconservadores retomaram o controle, por meio de uma figura emblemática, Afonso Trujillo, da Colômbia, sacerdote que empreendeu uma dura perseguição à Teologia da Libertação.

3) Igreja dos Pobres – a terceira corrente se iniciou com João XXIII, que já defendia, antes mesmo do Concílio, uma Igreja dos pobres. Cecília destaca que, após o Vaticano II, a América Latina começou a refletir sobre esse tema, época que se iniciaram também as perseguições. Em decorrência, surgiu um grande número de mártires pelas mãos de quem defendia a ordem no mundo ocidental cristão. "Há mártires em mãos de cristãos”. Mártires estes que começam a ser reconhecidos por Francisco, o que tem significado uma grande conquista. Ela indica que é dessa terceira corrente que emerge o Papa Francisco, abrindo-se, então, uma nova fase na Igreja. "A eleição de Francisco foi uma conjuntura muito importante”. Esse novo ciclo se caracteriza pela recuperação das forças de correntes renovadoras, pela corrente da Igreja dos Pobres e pela retomada das reformas conciliares.

Conjuntura papal

Uma série de fatores influiu na eleição papal. Cecília cita a renúncia de Bento XVI, "um gesto profético e inédito, desmistificador do papado”; a crise eclesial, a partir dos abusos sexuais e dos escândalos financeiros, temas persistentes; o próprio desejo de mudança manifestado pelos cardeais, com vista à reforma da Cúria, para recuperar a imagem da Igreja; a existência de uma Igreja latino-americana "adulta”, apresentando uma pastoral, uma Teologia, seus mártires e profetas.

Segundo Cecília, ao perceber essa crise, Francisco se propôs a uma mudança contundente, convertendo-se em um "ator mundial importantíssimo”. Para ela, os gestos do Papa só vieram a corroborar com uma nova forma de ser e fazer Igreja - apresentar-se como bispo de Roma e não como Papa; ter atitudes modestas nas viagens; dar acesso às informações. "É um Papa que dá entrevistas”; propagar a ideia da misericórdia, de um Deus não punitivo, mas misericordioso.

A filósofa aponta também outros gestos importantes de Francisco, como a retomada dos temas centrais do Vaticano II, os colegiados, os sínodos. Segundo Cecília, o Papa entende a realidade e se aproxima desse contexto quando aborda os "sinais dos tempos” - a "economia que mata”, o meio ambiente, a migração (recomendando que todas as paróquias acolham essas famílias), as guerras e o papel dos laicos.

Cecília assinala como desafio atual da Igreja o retorno ao essencial, a uma mensagem cristã, que tenha sentido para o mundo de hoje e recupere a credibilidade da Igreja, imersa em escândalos, exercendo outra maneira de ser cristão.

"Agora, estamos nessa transição”, revela a teóloga, que aponta como outro desafio o ser Igreja dos pobres e para os pobres. "A questão é como nós podemos contribuir nesse momento? Qual é o nosso papel diante dessa oportunidade histórica? Não podemos ficar passivos.”, pontua.

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