Divorciados em segunda união: critérios para discernir, não soluções gerais. Entrevista com Christoph Schönborn

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26 Outubro 2015

O que o Sínodo dos bispos sobre a família vai "dar à luz", que questões abertas, que perguntas e que indicações vai confiar nas mãos do Papa Francisco, tudo isso será conhecido na noite de sábado, 24 de outubro.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 23-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Certamente, a notícia mais relevante dos últimos dias é representada pela unanimidade do círculo Germanicus, o único dos 13 "circuli minores" em que se falava alemão. Muitos gostariam que houvesse uma câmera para enquadrar teólogos como Walter Kasper, Christoph Schönborn e Gerhard Ludwig Müller enquanto discutiam entre si, citando este ou aquele texto de São Tomás e a sua interpretação.

No documento do círculo alemão, lê-se: "O axioma 'todo contrato matrimonial entre cristãos é, por si só, um sacramento' deve ser revisto. Em sociedades cristãs não mais homogêneas ou em países com diferentes impressões culturais e religiosas, não se pode pressupor uma compreensão cristã do matrimônio, nem mesmo entre os católicos".

E, quanto à possibilidade de readmitir os divorciados recasados, os Padres sinodais de língua alemã concordaram, todos, de que não existem soluções gerais e generalizadas, mas é preciso aprofundar a via de discernimento indicada por João Paulo II, avaliando, com base em alguns critérios objetivos, as situações da união sacramental e da nova união, mas também dando espaço para o "foro interno", que diz respeito à vida mais íntima da qual se fala com o confessor ou diretor espiritual.

O Vatican Insider entrevistou o cardeal Schönborn, moderador do círculo Germanicus.

Eis a entrevista.

Surpreendeu a muitos essa unidade dos cardeais, em particular dos cardeais teólogos alemães, de Kasper a Müller. O que aconteceu?

Todos os artigos e as modificações ao texto final que nós propusemos foram votadas por unanimidade. Um elemento importante é o tempo de discutir entre nós que tivemos à disposição. Tratou-se de um grande ganho, devido à nova metodologia dos trabalhos sinodais: 40 horas de discussões nos 13 círculos menores realmente permitem que se aprofunde. Tivemos tempo para ir em profundidade em certos pontos. Por exemplo, o texto sobre fé e pacto matrimonial, na minha opinião, é uma bela síntese teológica, que foi possível porque havia bons teólogos entre os cardeais.

Também o texto sobre o acompanhamento aos divorciados recasados foi realmente o fruto de uma reflexão comum. Tomamos como ponto de partida o texto da encíclica Familiaris consortio, citado também no Catecismo da Igreja Católica, que foi a base de todas as discussões sobre o tema nos últimos 30 anos. Naquele texto, São João Paulo II diz explicitamente que os pastores têm a obrigação, por amor à verdade, de discernir e de distinguir as situações.

A proposta de vocês, portanto, se apresenta como um aprofundamento da Familiaris consortio?

Ela foi desejada e proposta explicitamente como um aprofundamento e uma continuação da Familiaris consortio, porque João Paulo II havia dito que existe a obrigação de discernir, de distinguir, mas não disse tudo o que se segue do discernimento. Tentamos indicar alguns critérios para esse discernimento por parte dos pastores. Critérios muito concretos. Por exemplo, avaliar como os divorciados recasados têm se comportado com os filhos da primeira união, como ficaram em relação ao cônjuge abandonado, qual é o efeito do seu caminho no conjunto das famílias e qual testemunho ou talvez escândalo existe para a comunidade cristã.

E depois falamos sobre o critério talvez mais profundo, o do discernimento da consciência de cada um. Tudo isso olhando para a situação objetiva e com a atenção ao discernimento da situação concreta. Desse modo, pode-se continuar em um caminho de conversão, de penitência – porque, muitas vezes, é preciso um aspecto de penitência – para finalmente chegar a esta palavra de São Paulo dirigida a todos, não só aos divorciados recasados: que cada um se examine antes de se dirigir à mesa do Senhor.

Na Familiaris consortio, a única via indicada para o acesso aos sacramentos era a de viver como "irmão e irmã", isto é, de se abster das relações sexuais no caso de uma segunda união. Esse aspecto deve ser considerado como superado na proposta de vocês?

No nosso texto, isso não é mencionado nem dito. Não consideramos que haja uma única via. A Familiaris consortio fala da exigência de um discernimento. Talvez a menção nova do nosso documento é ao "foro interno", que, aliás, pertence à tradição clássica. No segundo dos três documentos que o círculo de língua alemã redigiu, discutindo as três partes do Instrumentum laboris do Sínodo, citamos os textos de São Tomás que são o núcleo da passagem da "ratio" especulativa doutrinal para a "ratio" prática mediante o exercício da virtude da prudência: quanto mais se desce para o particular, mais é necessário o discernimento prudente.

Isso significa que, mesmo estando diante de uma situação "desordenada" de uma segunda união que não pode ser sacramental, ela não é, por si só, uma condição de pecado?

É interessante notar como o ensinamento da Igreja já deixou de falar genericamente de pecado grave nesses casos. No início, há o pecado grave do adultério e, muitas vezes, esse é o caso, se há um vínculo matrimonial sacramentalmente válido. Mas se, com o passar do tempo, cria-se uma situação que também envolve exigências objetivas, por exemplo para com os filhos nascidos na nova união? São simplesmente filhos ilegítimos, mesmo tendo pai e mãe? É claro, continua o conflito entre obrigação sacramental – se o matrimônio era válido – e a nova união. Mas não se pode simplesmente afirmar que toda a situação é de pecado grave, porque honrar a nova realidade e as novas situações objetivas também é uma exigência de justiça. Por isso, é preciso esse discernimento que saiba olhar para as diversas realidades das pessoas.

A Familiaris consortio já citava o caso do cônjuge abandonado...

O caso clássico da mulher com filhos pequenos abandonada pelo marido. Ela deve sobreviver se encontrar um homem disposto a acolher a ela e a essas crianças: não se pode falar simplesmente de adultério por causa da segunda união. Há também outra realidade de generosidade e de virtude nessa nova realidade que também não é sacramental. E aqui é importante confiar-se às palavras de São Tomás, porque vivemos no Sínodo um pequeno conflito entre agostinianismo radical e tomismo clássico. Agostinho, na Civitas Dei, apresenta a ideia de que todo ato dos pagãos é vicioso, que não há virtude neles. Mas São Tomás rejeitou com força essa posição. E os Padres da Igreja, como Clemente de Alexandria e São Máximo, o Confessor, também falaram das virtudes dos pagãos. A própria Bíblia faz isso com , um pagão... São Tomás explica: embora o paganismo seja idolatria, apesar disso, os pagãos podem realizar atos verdadeiramente virtuosos.

Em suma, a via do discernimento por parte do confessor e dos bispos leva em conta as diferenças das histórias pessoais. É isso?

Jesus se comovia diante dos sofrimentos humanos, lemos isso nos Evangelhos. E hoje Jesus abraça, e, nesse abraço de misericórdia, a pessoa se sente amada e reconhece o seu pecado. Com as suas catequeses do ano passado, o Papa Francisco nos deu uma grande lição. São tão bonitas que nos fazem ir às lágrimas, porque se aprende toda a proximidade com a vida, mas com o olhar do pastor que não observa friamente a realidade como um cientista ou um ideólogo: é verdadeiramente a escola do pastor.

Na sua opinião, essa abordagem é majoritária no Sínodo?

Veremos o documento final e como ele será recebido pela assembleia. Mas fiquei impressionado com o que disse o cardeal Fox Napier, que, em uma entrevista, contou como ele sente esse Sínodo como um verdadeiro caminhar juntos. Tivemos tempo para refletir, para nos conhecer, para trocar os nossos pontos de vista. O Sínodo se tornou uma experiência muito mais de vida, mais atenta uns aos outros. Os debates foram menos imaturos, ao contrário, emergiu a escuta, o esforço para sentir também o coração do outro.

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