Igreja chilena. Osorno é mais que Osorno

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Por: Jonas | 20 Outubro 2015

“Nullus invitis detur episcopus, pedia Celestino, ‘nenhum bispo imposto’. Muitos em Osorno [Chile] pensam o mesmo. Mas, Osorno é mais que Osorno. Os osorninos representam todos nós, católicos, que queremos que haja mais participação na Igreja”, escreve o teólogo jesuíta chileno Jorge Costadoat, em artigo publicado por Religión Digital, 16-10-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Sou admirador de Francisco. Este Papa está fazendo mudanças na direção exata. Admiro especialmente a liberdade que gera um papa que fala sem medo de errar. Ele próprio facilita a possibilidade de criticá-lo.

Muitos de nós consideramos um erro que o Papa tenha nomeado Juan Barros como bispo de Osorno. Nós, católicos, não podemos desconhecer que ele tenha a última palavra nas nomeações episcopais. Mediante esta prerrogativa, o sucessor de Pedro pode garantir a unidade da Igreja.

Porém, a última palavra nas escolhas episcopais não deveria ser a única palavra. Também os bispos locais deveriam poder pesar nas nomeações. Esta nomeação, em particular, foi feita contra o desejo da Conferência Episcopal do Chile e contra boa parte dos osorninos.

O que está em jogo nesta oportunidade é o respeito a uma igreja local. O Papa tratar a cidade de Osorno como “tonta” por se opor a esta nomeação é um deslize desafortunado e injustificável. Mas, a resistência de Osorno em aceitar Juan Barros como bispo também indica que há em jogo algo maior. Os osorninos nos colocam na dianteira: eles exigem outro modo de governo na Igreja católica.

Ao longo da história, a Igreja adotou mais ou menos as estruturas de governo em uso na época. O problema é que a atual estruturação do poder na Igreja corresponde à época das monarquias absolutas europeias. Referia-se a isto o cardeal Martini, pouco antes de morrer, quando afirmou que a “Igreja está atrasada em duzentos anos”? Acredito que sim. João Paulo II já havia pedido ajuda para repensar o exercício do primado de Pedro.

O caso é que a instituição eclesiástica, que nos últimos séculos precisou lamentar em prantos o desmoronamento da cristandade, não ouviu os anseios de participação e a cultura democrática de seus fiéis, e tampouco quis levar a sério o mandato de exercício colegial do episcopado, que foi dado pelo Vaticano II.

Hoje, as pessoas desejam participar de alguma maneira, em algum grau, na nomeação de suas autoridades. No entanto, na Igreja, os leigos participam pouco. Pior é a situação das mulheres. Elas não são levadas em consideração em nenhuma decisão que se tome em alto nível. Como exemplo, no Sínodo sobre a Família não vota nenhuma mãe.

Este modo de governo da Igreja é histórico, nem sempre foi igual, pode e deve mudar para estar à altura dos tempos. Sua linguagem e suas estruturas se tornaram incompreensíveis aos contemporâneos. O Papa Francisco recebeu do conclave uma só missão: reformar a cúria romana que até agora tratou as igrejas locais como menores.

O que falta na Igreja de hoje é maior autonomia: eleição das próprias autoridades e respeito às igrejas regionais e locais; e, mais ainda, integração dos leigos e das mulheres em todos os níveis.

Cabe, aqui, recordar como foi lamentável que os documentos da última conferência do episcopado latino-americano, ocorrida em Aparecida (2007), tenham retornado alterados de Roma. Pior ainda foi a intervenção da Cúria Romana na Conferência de Santo Domingo (1992). Nessa ocasião, o episcopado foi atropelado sem considerações.

Pelo que nos consta, o Papa avança na reforma da cúria. Não conduzirá a muito diagnosticar a cúria a respeito das enfermidades que sofre. Entre outros males, disse aos dignitários que o escutavam que sofriam de “Alzheimer espiritual” (22/12/14).

A linguagem direta não basta. São necessárias estruturas que doerão especialmente para os purpurados que não possuem nenhum desejo de introduzir accountability em seu governo, nem de se expor ao escrutínio público.

A Igreja, em sua longa história, governou a si mesma de diferentes formas. Hoje, quando se mundializou, quando está de fato presente em continentes culturalmente muito diversos, precisa assumir modos de se estruturar muito mais democráticos.

O Papa São Celestino pedia: “Ninguém seja dado como bispo aos que não o queiram. Busque-se o desejo e o consentimento do clero, do povo e dos homens públicos. E só seja escolhido alguém de outra igreja quando na cidade para o qual se procura um bispo não for encontrado ninguém digno para ser consagrado (o que não acreditamos que ocorra)” (Aos bispos de Viena, PL, 434).

Nullus invitis detur episcopus, pedia Celestino, “nenhum bispo imposto”. Muitos em Osorno pensam o mesmo. Mas, Osorno é mais que Osorno. Os osorninos representam todos nós, católicos, que queremos que haja mais participação na Igreja.

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