Incêndio na Terra Indígena Arariboia (MA) atinge grupo Awá em situação de isolamento voluntário

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19 Outubro 2015

O incêndio que já transformou em cinzas mais de 30% de floresta amazônica integrada à Terra Indígena Arariboia (MA), área com 413 mil hectares, chegou aos grupos Awá-Guajá em situação de isolamento voluntário. Indígenas Guajajara integrantes da equipe de 200 brigadistas que combatem uma faixa de 100 km de fogo encontraram vestígios dos Awá, como um tapiri, utensílios (flechas) e rastros, a poucos metros de focos de incêndio, num perímetro composto por cerca de 65 km da linha de fogo, e em áreas já devastadas pelas chamas. Mesmo que escapem do fogo, os Guajajara temem que os Awá isolados tenham dificuldades em se alimentar por conta da morte de animais, árvores frutíferas, colmeias e a inviabilização das fontes de água.

A reportagem foi publicada por Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 15-10-2015.

“Nesse tapiri havia resto de fogo e comida, rastros de indígenas, inclusive de crianças, e uma flecha quebrada no centro do tapiri, como que deixando uma mensagem. Relataram ainda que ontem chegou, na aldeia Tarafa, região do município de Arame, um macaco muito manso e amarrado com uma embira. Os indígenas estão supondo que seja dos Awá”, relata Rosimeire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Maranhão. Para quem acompanha o incêndio, o combatendo ou cobrando as autoridades medidas mais efetivas, a angustia é maior porque a faixa de fogo aumenta a cada dia.

Os Guajajara afirmam que os Awá estão encurralados pelos focos de incêndio; que fogem e tentam se proteger. A notícia de Awá mortos, porém, não é confirmada pelos indígenas, pelo Cimi ou órgãos estatais, mas “se não houver uma ação mais efetiva por parte dos governos estadual e federal, a tragédia poderá ficar ainda maior e atingir sim mortalmente os isolados, forçando um contato”, diz a missionária e indigenista. Em Brasília, indígenas realizaram, na semana passada, um protesto no Ministério da Justiça pedindo uma ação mais efetiva do governo no combate ao incêndio.

“Trata-se de genocídio porque dois povos indígenas, sendo um deles isolado, estão sob o risco de desaparecer caso o incêndio não seja controlado”, analisa Sônia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Para o Ibama, a causa do incêndio é criminosa e uma investigação deverá apurar os responsáveis. A estimativa do órgão é de que 200 quilômetros quadrados de floresta foram queimados. Lideranças indígenas afirmam que madeireiros e grileiros aproveitaram o tempo seco, o vento e a degradação já causada por anos e anos de devastação ambiental para atear fogo em distintas regiões da terra indígena. A ação criminosa seria em represália ao controle dos indígenas contra os invasores do território tradicional.

No início dessa semana, o incêndio chegou à aldeia Juçaral, na região do município de Amarante. “Os indígenas nos dão relatos desesperados e o cenário é desolador. Uma floresta frondosa e rica, que concede a vida a esses povos, agora é apenas carvão, cinzas e fumaça. São poucos brigadistas para uma faixa imensa de fogo”, afirma Rosimeire.

Para deixar a situação ainda mais dramática, o Cimi recebeu informações de que nesta quarta-feira, 14, madeireiros atearam fogo também na Terra Indígena Alto Turiaçú, habitada pelo povo Ka’apor. No caso, seria uma represália contra as ações de proteção da terra feita pelos indígenas nos últimos meses, que terminou com o assassinato de uma liderança Ka’apor. A terra indígena é alvo de constantes invasões de madeireiros: segundo o Greenpeace, até 2014, 8% (41 mil hectares) dela foram desmatados. Com isso, de acordo com o Relatório de Violência do Cimi, quatro índios Ka’apor acabaram mortos e outros 15 sofreram atentados nos últimos quatro anos.

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