O sapo e o meio ambiente, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

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15 Outubro 2015

"Uma descrição da reação do sapo a mudança de ambiente é utilizada para descrever a reação dos indivíduos frente às mudanças nas organizações. Considero que o momento atual vivenciado pela humanidade diante das mudanças ambientais tem muita semelhança com essa “parábola” muito difundida nos estudos das organizações sociais", escreve Raimundo Nonato Brabo Alves, engenheiro agronômo e pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, em artigo publicado por EcoDebate, 14-10-2015.

Eis o artigo.

Em um desequilíbrio ambiental os anfíbios são as primeiras espécies a desaparecer. Os anfíbios têm seu processo de reprodução dependente de ambiente úmido. Até suas peles necessitam de umidificação para manutenção do equilíbrio térmico corporal. Tanto que a contagem de espécimes em sítios de estudo, serve de indicador de avaliação de qualidade para ambientes em degradação.

Uma descrição da reação do sapo a mudança de ambiente é utilizada para descrever a reação dos indivíduos frente às mudanças nas organizações. Considero que o momento atual vivenciado pela humanidade diante das mudanças ambientais tem muita semelhança com essa “parábola” muito difundida nos estudos das organizações sociais:

um sapo colocado em uma panela com água, fica estático durante todo o tempo em que a água é aquecida, até o ponto de ebulição. O sapo não reage ao gradual aumento da temperatura (mudanças do ambiente), pois com o aquecimento sua musculatura enrijece e ele morre quando a água ferve. Outro sapo, jogado nesse mesmo recipiente já com água fervendo, salta imediatamente para fora, e escapa com vida.

Com relação às mudanças ambientais em consequência do aquecimento global há um comportamento coletivo da maioria das pessoas, semelhante ao sapo cozido. Claro que existem diferentes perfis neste nosso universo. Pessoas e organizações conscientes das relações de causa e efeito, mas que por interesses econômicos não abrem mão de seus modos de produção e consumo. Este grupo é minoritário e de difícil convencimento para mudanças. Um segundo grupo visivelmente numeroso de pessoas que ignoram os problemas ambientais e por sua vez são instrumentalizadas pelo primeiro grupo.

Um terceiro grupo, ainda minoritário, se comporta como o sapo que experimenta a água fervente e pula fora, reagindo de todas as formas as mudanças ambientais, estudando, monitorando, avaliando, mudando de comportamento, educando, denunciando e punindo as agressões ao meio ambiente.

Estamos perigosamente em uma grande “panela” aquecendo gradativamente, sem que a humanidade esboce alguma reação. Só para relembrar os eventos extremos mais recentes: seca no sudeste mais grave no sistema Cantareira, que deveria alimentar de água a locomotiva econômica do País, o estado de São Paulo. No nordeste brasileiro a pior seca dos últimos 50 anos com mais de 1400 municípios afetados. Seca calamitosa e incêndios florestais na Califórnia atingindo a região agrícola mais dinâmica dos Estados Unidos. Incêndios florestais na Indonésia provocando problemas respiratórios em milhões de pessoas. Tempestades destruindo cidades no sul do Brasil, deixando centenas de desabrigados. Enchentes no sudeste da França e deslizamento de terras na Guatemala matando mais de uma centena de pessoas.

Não se sabe quando será o ponto de ebulição de nossa “panela” global, nem tampouco se haverá tempo de reação semelhante ao do sapo que pula fora da água quente. O lamentável é que até lá já teremos contabilizado muitas vítimas fatais e refugiados ambientais. Que a Conferência de Paris seja o evento de desaceleração do aquecimento de nossa “panela” global. Concomitantemente, necessitamos aumentar a quantidade de formadores de opinião, com comportamento semelhante ao do sapo que pula fora da água quente.

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