Discurso do papa aos bispos, um dos mais importantes da viagem aos EUA

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28 Setembro 2015

Durante mais ou menos uma hora do primeiro dia da sua visita aos EUA, o Papa Francisco imergiu em um cenário bastante diferente das cenas estridentes de filas de pessoas adoradoras ao longo das ruas, das multidões de milhares de pessoas em uma saudação oficial na Casa Branca e de outros milhares mais reunidos para a liturgia durante o qual o padre Junípero Serra foi canonizado. O papa teve uma hora relativamente calma de oração no meio-dia dessa quarta-feira com os seus irmãos bispos na Catedral de São Mateus, o Apóstolo.

A reportagem é de Tom Roberts, publicada no sítio National Catholic Reporter, 24-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A sua fala, que foi registrada com alguns pontos de destaque na maior parte da cobertura imediata, pode ter a consequência mais profunda e mais duradoura para a comunidade católica. O seu discurso perante o Congresso, por exemplo, será extraído e dissecado, como esperado em uma democracia pluralista. Há muito menos espaço para analisar as palavras do bispo de Roma que falou para seus coirmãos bispos.

Em cinco parágrafos intensos na metade da homilia, Francisco fez um insistente chamado ao diálogo – com todos e em todas as direções – e explicou aqueles que ele considera como os requisitos para um "autêntico diálogo". Ele também rejeitou a "linguagem dura e belicosa" que pode satisfazer temporariamente, mas não persuadir a longo prazo.

Embora Francisco não tenha afirmado desta forma, as suas "reflexões" sobre o assunto foram o repúdio mais claro até hoje do estilo de alguns bispos norte-americanos que se caracterizaram como "guerreiros culturais", condenando em voz alta a cultura e, muitas vezes, os seus líderes e outros que expressam desacordo com as posições da Igreja ou as desafiam.

As instruções do papa, disse o bispo David Zubik, de Pittsburgh, "deve confirmar o estilo que uma pessoa já tem ou deve julgar aqueles cujo estilo não é esse". A questão, segundo ele, é que "você não vai muito longe construindo muros. Isso nunca acontece dessa forma. As pessoas primeiro devem ser capazes de ouvir umas às outras", disse. "Você não faz nada com um impasse."

Zubik, que estava na catedral com o papa, declarou-se "emocionado com a direção a que ele está nos chamando". O apelo ao diálogo aplica-se aos próprios bispos, assim como à cultura mais ampla, disse. "Temos de continuar a falar sobre como nos tornamos parceiros juntos" para "servir à fé e ao país".

Cerca de 300 bispos estavam reunidos para o rito na catedral de estilo românica na Rhode Island Avenue. Enquanto os bispos enchiam as fileiras frontais e centrais, vestidos com batinas e faixas magenta de seda ao redor das suas cinturas e usando os mesmos solidéus, a imagem era inconfundível de uma organização muito exclusiva e apenas de homens.

Esse ponto foi sublinhado por duas mulheres entrevistadas pelo NCR. Ambas estão entusiasmadas com Francisco e com as suas várias iniciativas, embora, ao mesmo tempo, sejam críticas do fato de que, apesar das referências frequentes deste papa à inclusão, esse encontro das lideranças da Igreja foi uma conversa somente entre homens.

Francisco começou esbanjando gratidão à Igreja dos Estados Unidos e aos seus líderes. Apenas duas frases do discurso inspiraram aplausos espontâneos. A primeira na qual ele expressou o seu apoio, falando de si mesmo na terceira pessoa: "O papa põe sobre a de vocês a sua mão já velha e enrugada, mas, por graça de Deus, ainda capaz de apoiar e de encorajar".

A segunda veio um parágrafo mais tarde, quando ele disse que estava "consciente da coragem com que vocês enfrentaram momentos obscuros do seu percurso eclesial, sem temer autocríticas nem economizar humilhações e sacrifícios". Ele terminou esse segmento dizendo saber "o quanto pesou em vocês a ferida dos últimos anos e acompanhei o seu generoso compromisso para curar as vítimas, conscientes de que, ao curar, também somos curados, e para continuar a trabalhar para que tais crimes não se repitam nunca mais".

A reação foi imediata. Vítimas e os seus grupos de apoio são claros ao considerar os bispos tudo menos corajosos no tratamento dado aos abusos. E a questão permanece, mesmo que os bispos – cujos passos para remediar a situação só vieram depois de a opinião pública e a intervenção legal terem forçado a mão – estivessem aplaudindo a si mesmos pela sua coragem ou pela afirmação do papa de que "tais crimes não se repitam nunca mais".

Um silêncio atento acompanhou o resto do discurso, pronunciado em italiano e simultaneamente traduzido para os participantes, dentre os quais se encontravam alguns paroquianos e outros convidados. Francisco disse aos bispos que "não é minha intenção traçar um programa ou delinear uma estratégia", e disse que não vinha "para lhes julgar ou para lhes dar lições". Em vez disso, ele queria oferecer "algumas reflexões que eu considero oportunas para a nossa missão".

Algumas dessas reflexões, no entanto, deixaram dúvidas sobre o que ele queria que os seus bispos fizessem e como ele queria que eles atuem – em relação uns aos outros, aos seus padres, aos fiéis e à cultura em geral.

"O discurso foi diplomático no tom, mas muito 'Papa Francisco' em substância", disse Massimo Faggioli, diretor do Instituto para o Catolicismo e a Cidadania da University of St. Thomas, em St. Paul, Minnesota. Ele estava "muito cuidadosamente embalado para não soar muito crítico".

A tentação nestes tempos desafiadores, disse Francisco, é "encerrar-se no recinto dos medos, lamber as próprias feridas, lamentando um tempo que não volta e preparando respostas duras às já ásperas resistências. E, no entanto, somos promotores da cultura do encontro".

Na visão de Francisco, o encontro ocorre através do diálogo, que ele descreve como "o nosso método, não por astuta estratégia, mas por fidelidade Àquele que nunca se cansa de passar e repassar as praças dos homens, até a undécima hora, para propor o seu convite de amor".

O diálogo deve ser com todos – entre os bispos, nos seus presbitérios, com os leigos, as famílias e com a sociedade. "Nunca me cansarei de encorajá-lo a dialogar sem medo", disse.

Faggioli ficou especialmente impressionado com a insistência de Francisco no diálogo. Nos anos que antecederam a eleição de Francisco em 2013, disse, "a palavra 'diálogo' tornou-se um palavrão, um sinal de que nos tornamos liberais". Ele acha que a insistência no diálogo está especialmente na mente do papa por causa do próximo Sínodo sobre a família em Roma no próximo mês e a possibilidade de um debate muito controverso.

"Esta Igreja deve aprender a dialogar novamente", disse. "É a única forma de sair deste momento difícil." O mesmo vale para o mundo secular, afirmou. "Não há alternativa ao diálogo. A alternativa é se fechar no próprio círculo e esperar pelo fim do mundo."

Gina Messina-Dysert está "emocionada com o Papa Francisco e tudo o que ele está trazendo não só para a comunidade católica, mas também para a comunidade em geral", mas ela também desejaria que, entre os convidados para o diálogo, estivessem as mulheres e que, entre os assuntos, estivessem também os de interesse para as mulheres.

Teóloga feminista e decana de estudos de pós-graduação e profissionais do Ursuline College, ela disse que "gostaria de ver mulheres sendo bem-vindas para a conversa. As mulheres não são indivíduos a serem temidos".

Coautora do recém-lançado Faithfully Feminist: Jewish, Christian and Muslim Feminists and Why We Stay [Fielmente feminista: feministas judias, cristãs e muçulmanas e por que nós ficamos], ela disse que o foco do papa na justiça social e na pobreza é "muito maravilhoso", mas ela deseja que a Igreja se volte para reconhecer que a pobreza "está profundamente entrelaçada com a violência baseada no gênero", e que a violência, por sua vez, é auxiliada por visões tradicionais da Igreja sobre as mulheres e as restrições aos direitos reprodutivos.

A mesma tensão – de amar o que ela ouviu, mas se decepcionar com aquilo que faltava – ficou evidente para Marti Jewell, professora na escola de pastoral da Universidade de Dallas. Por um lado, disse, Francisco foi muito afirmativo para os bispos, mesmo durante as partes duras da sua fala.

"Por outro lado, ele foi puramente Francisco. Ele tem uma visão quase distópica da vida: ele vê a dor e o sofrimento desta vida, mas ele realmente acredita que Jesus e o evangelho têm algo a oferecer para ela."

"Eu ouvi as Bem-aventuranças", disse ela, "Eu ouvi as obras de misericórdia corporais." O que ela não ouviu foi qualquer mulher, referências às mulheres ou discussões sobre questões importantes para as mulheres. Enquanto ela se sentia animada ao ouvi-lo falar como um bispo em linguagem simples a seus colegas bispos, ela também reconhece que "esse é um clube para homens. Ele é um bispo falando para bispos".

Mesmo assim, Jewell expressa uma tolerância por causa de todas as outras coisas que ele está fazendo, a sua defesa dos imigrantes e a sua ênfase na misericórdia e no diálogo. "Acho que ele está fazendo coisas fabulosas pelos migrantes, pelo clima, pela limpeza de Roma. Não vou lhe pedir para fazer tudo."

"Se eu gostaria de ver mais convites para as mulheres? É claro. Eu gostaria de ver muito mais apoio à pastoral leiga, o único lugar em que as mulheres podem se envolver agora. Mas não acho que ele pode fazer tudo."

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