“Exploração sustentável de madeira na Amazônia é só para idealistas”

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28 Setembro 2015

“Quando o Rubens, meu marido, e eu compramos um terreno no Mato Grosso, decidimos que ali não haveria nem um metro de desmatamento ilegal. E que nenhuma árvore seria derrubada sem plano de manejo”, diz Bettina Lenci, sócia da Florestal Santa Maria. A principal atividade da fazenda de 70 mil hectares é a venda de madeira certificada. O negócio foi fechado no início dos anos 2000, época em que, segundo Bettina, a sustentabilidade era o tema mais quente do momento. Hoje, as coisas não vão tão bem quando o casal apostou. “Somos heróis por ainda investirmos nisso. Mas confesso que estou frustrada com os resultados dessa luta”.

A reportagem é de Thaís Herrero, publicada por Revista Época e reproduzida por Amazônia, 25-09-2015.

A frustração de Bettina tem algumas razões. Os quase 15 anos de venda de madeira certificada não deram o lucro esperado, os custos são muito altos, a concorrência é desleal, falta mão de obra qualificada e infraestrutura na região de Colzina, onde fica a fazenda. Colniza, aliás, é o município com o maior desmatamento do Mato Grosso (17% do total do estado).

Existe duas formas legais de tirar madeira da Amazônia. A primeira é o desmatamento legal. Se um proprietária tem uma área, pode cortar tudo em até 20% do terreno. Toda a madeira que sair de lá pode ser vendida legalmente.

A segunda forma é com um plano de manejo. Digamos que o proprietário já tenha derrubado a mata em 20% da propriedade e queira produzir madeira nos 80% de floresta restantes. Para isso, ele precisa planejar a exploração, de forma que produza madeira para sempre, respeitando o ritmo de recuperação da floresta. Como funciona? Em resumo, divide-se a área em fatias. A cada ano, explora-se as poucas árvores com valor comercial em cada fatia. O que sobra é uma floresta saudável, sem algumas árvores que valem dinheiro. No ano seguinte, passa-se para outra fatia. No final do ciclo, o proprietário já pode voltar a explorar as árvores na primeira fatia, que se regenerou naturalmente.

Como há muita fraude no plano de manejo, alguns proprietários fazem uma certificação. Eles contratam uma empresa ou ONG independente que verifica se o manejo é correto (e várias outras condições) e dão um selo. O mais comum deles é o Forest Stewardship Council (FSC).

Isso é bonito na tese. Mas na prática, segundo Bettina, não é vantagem para o madeireiro porque as toras dos dois sistemas competem em pé de igualdade. E para ter o FSC há muitos custos envolvidos. Joaquim Álvaro Pereira Leite, diretor da Florestal Santa Maria, explica que para obter o selo, seguem-se muitas exigências que garantem um baixo impacto na floresta exploradas. As árvores precisam de uma altura mínima e de uma identificação. Derruba-la é um trabalho delicado já que nenhuma outra pode ser tombada junto. Madeireiros despreocupados com essas normas costumam devastar todo o entorno de uma única árvore que vale dinheiro. Já as fazendas certificadas têm até extintores no meio da mata para combater um eventual incêndio.

Há também os direitos trabalhistas a serem respeitados. O processo minucioso de retirada de árvores tem que ser feito por funcionários treinados, alguns com ensino superior. O FSC exige que eles tenham cursos para manutenção de máquinas e direção de tratores e motos, que no geral são pagos pelo patrão. Os donos das fazendas também devem dar aos funcionários a carteira de trabalho assinada e uma série de direitos mínimos, como banheiros separados por sexo e alojamentos. Tudo isso eleva os custos da atividade.

Além disso, há o preço da logística. Colniza, como muitos municípios da Amazônia, está distante dos grandes centros urbanos e não possui boa malha rodoviária. Parte da madeira que sai de lá segue para o porto de Paranaguá (PR). São aproximadamente 3 mil quilômetros de estrada – 300 por vias de terra, só para sair do estado do Mato Grosso. Ainda assim, é um caminho mais fácil e barato do que mandar a madeira para a vizinha Pará. Não há estradas aptas que conectem os dois pontos. Para Joaquim, a falta de infraestrutura e logística na região é uma das razões pela qual o desmatamento persiste por ali. “Os madeireiros ilegais roubam as árvores e saem pela mata sem serem vistos. Estradas melhores iriam facilitar a fiscalização por parte da polícia e do Ibama”, diz.

Mesmo com a logística complicada, uma fazenda como a Florestal Santa Maria não pode se dar ao luxo de cobrar mais caro pelo metro cúbico de tora. Mesmo depois de todo o esforço para que a árvore saía da floresta seguindo normas ambientais, antes de cair na estrada, é preciso passar pela serraria, onde são cortadas as tábuas. Se a serraria não é certificada pelo FSC, recebe matéria de todos os fazendeiros da região, tenham eles FSC ou não. Sejam eles desmatadores ilegais ou não. “Na serraria, as madeiras todas se misturam e perdemos o selo”, diz Joaquim.

Esse é um dos problemas que a Santa Maria e outras madeireiras enfrentam quando não há serrarias certificadas por perto. Segundo Joaquim, um dos planos para 2016 é conseguir convencer uma das que existem em Colzina para obter a certificação. Assim, eles poderão mandar a madeira para lá e vender tudo com o selo FSC.

Joaquim ainda aponta um outro obstáculo. “Não vejo um grande interesse do consumidor em pagar mais caro pela madeira certificada. Então, isso desmobiliza toda a cadeia porque a loja não vai ter interesse por esse material, a serraria não vai querer pagar mais caro pelas toras ecologicamente corretas. E o madeireiro não tem porque ir atrás do selo”, diz.

A história da Florestal Santa Maria representa a realidade de muitas madeireiras que não se sentem estimuladas a investir no manejo de baixo impacto e na certificação. As dificuldades foram tantas que, entre 2013 e 2014. As atividades foram suspensas. Bettina afirma que o maior problema é mesmo o financeiro. “Precisamos de um fundo de investimento ou uma fonte de capital de giro que se interesse pelo manejo sustentável. E que sustente nosso projeto”. Ela diz, então, que já pensou muitas vezes em desistir do plano de manejo, mas que, por ser um patrimônio grande e no qual acredita, segue em frente. “Aqui somos idealistas e só gente assim consegue manter a exploração sustentável na Amazônia”.

Bettina, seu marido Rubens e o diretor Joaquim – o trio que comanda a sede um escritório, em São Paulo – estão apostando agora no mercado de carbono e no REED (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). Eles querem negociar o valor de manter parte da propriedade de pé com quem tem emissões de gases de efeito estufa a serem compensados. Apesar de já terem vendido créditos de carbono para empresas como Santander e Bunge, o negócio não foi para frente. “O sucesso do nosso projeto de manejo passa pela sua eficácia, que é tirar a madeira da Amazônia com baixo impacto ambiental. Mas não passa pelo sucesso econômico porque não há retorno”, diz Joaquim.

No fim da entrevista, ao se despedir, Bettina completa: “Pode escrever na matéria: o sucesso aqui também passa pelo fato de o Rubens e eu conseguirmos manter nosso casamento de pé, mesmo trabalhando juntos há tanto tempo”. De pé e firme como as árvores da Florestal Santa Maria, em Colniza.

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