Bioeconomia e capitalismo biocognitivo

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25 Setembro 2015

“O prefixo ‘bio’ existe já há uma dezena de anos, com uma vasta literatura a seu respeito em inúmeros continentes, como a obra de Carlo Vercelone, intitulada Capitalismo cognitivo. Porém, eu falo de capitalismo biocognitivo. Assim, nesta primeira parte de minha fala apresentarei e explicarei de modo objetivo como se chegou a falar de capitalismo biocognitivo partindo da crise do paradigma fordista e taylorista dos anos 70”. Com essa introdução o Prof. Dr. Andrea Fumagalli, da Universidade de Pavia, Itália, iniciou sua conferência na manhã de 23-09-2015, dentro da programação do XVII Simpósio Internacional IHU – Saberes e práticas na constituição dos sujeitos na contemporaneidade.

Em segundo lugar, o conceito de capitalismo biocognitivo precisa levar em consideração o papel da financeirização e as novas formas de propriedade que vão além daquelas de tipo privada e estatal, colocando em reflexão a ideia de comum, declinado ao singular. “Há uma confusão entre comum e comon, um equívoco muito grande entre a literatura política e econômica”, observou Fumagalli.

Do fordismo ao “pós-fordismo”

Mas como Andrea Fumagalli chegou à formulação do conceito de capitalismo biocognitivo? Ele mesmo explica. Sabemos que no começo dos anos 1970 nos EUA e no meio da década na Europa entram em crise os paradigmas fordista e taylorista. Depois de 30 anos gloriosos, que se estenderam de 1945 a 1975, começa uma fase de turbulência e mudanças que alteraram as modalidades de produção, tecnologia e aquilo que se produz e como se produz.

Com o uso dessas novas tecnologias muda, também, a condição de trabalho e distribuição de renda. Começa um período que caminha rumo à financeirização e ao processo de globalização. Lembremos que o paradigma fordista era caracterizado por uma extrema rigidez em inúmeros aspectos.

Já a fase que vai de 1975 a 1990 é conhecida como “pós-fordismo”, termo que não tem grande significado, aliás como todos aqueles iniciados pelo prefixo pós. Trata-se, portanto, daquilo não existe mais, que foi superado, mas não fala nada sobre o que está acontecendo. “É uma definição negativa, e não propositiva”, alfineta Fumagalli. De toda forma, neste período de “pós-fordismo” surge a questão do just-in-time no Japão, bem como o fenômeno dos distritos industriais na Itália.

Fumagalli (à esq) e Lucas Luz
Fotos: João Vitor Santos/IHU


A máquina dentro de nós

Existem duas economias de escala. A produtividade é entendida muitas vezes como sinônimo de uso: quanto mais uso, maior a produção que teremos. Na economia mainstream a produtividade é um valor positivo. Na base das novas produtividades temos a economia de escala (aprendizado), que tem a ver com a geração de novas formas de conhecimento, baseada no investimento, pesquisa e assim por diante. Temos, ainda, a economia de rede, ou relacional, aquela que permite desenvolver uma rede de relações sociais, de cooperação em condições de difundir as trajetórias do crescimento através do aprendizado de rede. São as novas modalidades de organização do trabalho e produção, substituindo, embora não completamente, aquelas economias de escala estática ligadas à automação da fábrica. Essa primeira fase teve sua crise em 2002.

“É preciso aumentar o papel da economia de rede e espaço. O conhecimento deve ser aumentado com formas de conhecimento indireto, com experiência da vida humana. O espaço não está mais ligado ao território virtual da internet, mas ocupa também espaços de vida. As atividades que fazem parte da vida normal dos indivíduos (atividades de consumo, tempo livre, produção social, diversão, cultural e artística) e que até o ano 2000 existiam dentro da organização econômica eram os fatores de valorização”, acrescentou o italiano.

Analisando o sujeito em um contexto econômico de valorização no qual assistimos uma mudança radical da modalidade de produção, este expressa capacidade e potência não relacionada mais com um externo, que é a organização não da máquina, termo de Franco Berardi. A pessoa vira um “maquínico”, aquilo que vai além da máquina. A cadeia de montagem era externa ao operário, que tinha que “se ajoelhar” e obedecer aos seus ritmos.

“Hoje, a máquina foi interiorizada dentro de nós, se tornou nosso cérebro. A literatura que li com paixão sobre ficção científica traz o conceito de ciborgue, como no filme Blade Runner, de 1978, que aborda as relações homem e máquina. Essa realidade saiu da ficção e se tornou realidade. O maquínico se torna parte integrante de nossa vida”. Conforme Fumagalli, muitas vezes o bio comanda o maquínico, ou tem a ilusão de fazê-lo.

Fumagalli reiterou que uma parte de nosso cérebro imerso nesse processo está se tornando máquina. “A outra parte do cérebro deve ser criativa e inovar. Entre essas duas partes do cérebro há um conflito perene, o nosso ser esquizofrênico. As doenças mentais se tornaram uma norma, e por isso ‘temos’ que tomar uma droga legal química para dormir e outra para acordar. Devemos ter uma alta performance sempre”, criticou.

Valor para os outros

Deleuze e Guatari diziam que vivemos em um contexto social esquizofrênico. Nos tornamos escravos do digital e suas práticas, como a criação de banco de dados e a informática. Isso não deixa de ser paradoxal, pois se trata de uma linguagem feita por sinais binários, zero e um, algo a princípio muito rudimentar. Essa é a grande capacidade da tecnologia, na base dos “casamentos tecnológicos” dos últimos anos.

As coisas se mesclam de uma forma tão sutil em nosso tempo que já não sabemos se estamos vivendo ou produzindo. Aqui aparece uma questão que Fumagalli aborda na obra Biocapitalismo e economia. “Temos uma série de dicotomias típicas do fordismo ainda hoje, que resistem. Assim, são pensados o trabalho separado do lazer, o trabalho produtivo e o improdutivo. Pensamos estar fazendo algo livre e improdutivo quando estamos fazendo chat ou falando com amigos nas redes sociais. Mas estamos imersos num mecanismo de produção, que também produz valor de uso”, explicou.

Como consumidores, recriamos valores que nos são expropriados. Quando vamos ao supermercado, por exemplo, e pagamos nossas compras, pensamos que estamos fazendo um ato de consumo, a antítese da produção. Contudo, ao pagar com um cartão de crédito, estamos fornecendo informações de toda ordem a nosso respeito. E aí entra a sagacidade de disciplinas como a estatística como seu datamining. “Esta bigdata não é nada mais do que produção de informação de dados através da nossa vida cotidiana, valorizada no sentido em que produzimos valor para os outros”.

“Lado negro”

“Estamos numa filosofia dialética do trabalho biocognitivo relacional. Aqui crio polêmica com Negri e Lazzarato. Eles se referem ao trabalho imaterial, termo como o qual não concordo. O trabalho é sempre material, produto de sangue, nervos e cabeça. O corpo humano, seja körper ou leibe, é algo de fisicamente definido. Cedo ou tarde vamos morrer. Por isso prefiro falar em trabalho cognitivo”, explicou Fumagalli.

Segundo o pesquisador italiano, a produção imaterial toma cada vez mais espaço nas áreas de saúde ensino, produção de sinais e todas as atividades terceirizadas e avançadas, finanças e logística. Setores de produção imaterial que tem alta valorização e desenvolvem hoje o que no capítulo XVII Marx atribuiu à fábrica, intuindo como uma previsão única do desenvolvimento das formas de trabalho.

Porém, mais do que nunca, convivemos com uma exacerbação do individualismo, que nada mais é do que uma forma de governança da individualidade. “É um dos mecanismos de controle da performance do trabalho. É o dark side”, disse referindo-se ao oitavo álbum da banda inglesa Pink Floyd, chamado The Dark Side of the Moon, de 1973.

Precaridade do trabalho como norma

Outro aspecto destacado por Fumagalli é a precarização, uma condição inequívoca do trabalho contemporâneo. Já a precariedade existencial é parte da vida, e não só do momento em que se trabalha. Mas em sua conferência Fumagalli frisou a precarização como um processo estrutural, que tem a ver com qualquer tipo de trabalho, pois está generalizado. “A precarização está em todos setores em condição de trabalho, mas é percebida de forma individual. É uma condição comum, mas não compreendida como tal. É um processo de individualização e hoje a nova tendência é de institucionalizar a condição de precariedade como norma, e não mais como exceção”.

Hoje as horas de trabalho englobam as horas de tempo livre. O dia de trabalho verdadeiro adentra o sono, inclusive. Então, temos um tempo de trabalho de 20 horas sobre 24.

Débito e culpa

Some-se a esse cenário descrito por Fumagalli o mecanismo do débito e financeirização. O débito não é só macroeconômico, acentuou. “Quando a violência para inserir nas constituições europeias as políticas de austeridade, como no caso da Grécia, não falamos somente neste nível do débito como instrumento de governança. Temos que pensar no nível micro, individual, no mecanismo de culpa já descrito por Nietzsche ao realizar a genealogia do termo alemão Schuld, que significa, ao mesmo tempo, dever e culpa”.

A precariedade vem, assim, não apenas do trabalho que é volatilizado, da incerteza e da invasão no tempo privado, mas também através da diminuição de renda das pessoas, da incapacidade e impossibilidade de organizarem suas vidas. E isso leva a formas de controle e autodisciplina constantes. “Se sou um precário, não irão renovar meu contrato ou mesmo pagar meu salário devido. Por isso, não compro, paro de consumir. Esse autocontrole é uma das facetas do controle social”.

Na opinião de Fumagalli, as finanças hoje são o motor do biocapitalismo. Elas financiam atividades produtivas e inclusive criam moeda. Hoje, os bancos centrais de crédito se transformaram em bancos financeiros e seguem as dinâmicas da convenção financeira que foi amadurecida nos mercados. É um paradoxo, porque na época que se sustentou a autonomia dos bancos centrais não se tratava de uma autonomia jurídica formal, antidemocrática e fascista. Assim, a autonomia dos bancos centrais desaparece. Por isso, é preciso atacar o coração do capitalismo, disse, provocativamente.

Quem é Andrea Fumagalli

Andrea Fumagalli é Doutor em Economia Política, professor no Departamento de Economia Política e Método Quantitativo da Faculdade de Economia e Comércio da Università di Pavia, Itália. Seus temas de interesse são teoria macroeconômica, teoria do circuito monetário; economia da inovação e da indústria, flexibilidade do mercado de trabalho e mutação do capitalismo contemporâneo: o paradigma do capitalismo cognitivo, entre outros.

Dentre seus vários livros publicados, citamos: Il lavoro. Nuovo e vecchio sfruttamento (Milão: Punto Rosso, 2006), Bioeconomia e capitalismo cognitivo. Verso un nuovo paradigma di accumulazione (Roma: Carocci Editore, 2007) e La crisi economica globale (Verona: Ombre corte, 2009).

Em 2010 Fumagalli participou com uma conferência do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana, quando falou sobre A financeirização como forma de biopoder.

Por Márcia Junges

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