Do Deus Patrão ao Deus misericordioso. Artigo de Enrico Peyretti

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21 Setembro 2015

Publicamos aqui as respostas do ativista italiano Enrico Peyretti às oito perguntas sobre o Papa Francisco feitas pela revista italiana MicroMega.

Peyretti é membro do Centro de Estudos para a Paz e a Não Violência Sereno Regis de Turim. É fundador da revista Il Foglio, publicação mensal de alguns cristãos turinenses, e ex-presidente Federação Universitária Católica Italiana (FUCI).

As respostas foram publicadas na revista MicroMega, n. 06, de setembro de 2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

1. O papa se propôs a renovar profundamente as estruturas de poder financeiras e da Cúria. Em uma frente como na outra, porém, apesar de diversos sinais de "boa vontade", ainda não parece ter havido mudanças realmente relevantes. Como você avalia a ação desse pontífice ao intervir concretamente, nas nomeações como nas reformas, nas contradições que ainda caracterizam a estrutura eclesiástica?

Eu tenho confiança na ação de reforma evangélica do Papa Francisco, no longo prazo também no plano das estruturas eclesiásticas, porque, mais do que tomar a peito as contradições, eles as contornas e, um plano mais radical. Eu diria que ele reforma a Igreja acima de tudo reformando a ideia de Deus. Raniero La Valle indica bem, na minha opinião, esse ponto no livro Chi sono io, Francesco? [Quem sou eu, Francisco?] (Ed. Ponte alle Grazie). Ele cita um bispo capuchinho, Yanis Spiteris, que escreve: "A imagem que deriva dessa posição – um Deus que deve ser 'aplacado' somente pelo sacrifício do seu Filho – foi uma das representações doutrinais cristãs que mais afastaram o homem moderno da adesão à fé cristã" (p. 65).

Muitos de nós podemos confirmar essa experiência, sejam aqueles que abandonaram a fé, sejam aqueles que a reformaram evangelicamente, como faz o profundo movimento conciliar que surgiu com o Papa João XXIII há 50 anos. A maior revolução de Francisco encontra-se em minar a ideia de um Deus Patrão arbitrário, punidor, humilhante e assustador (um incumbente vértice aristotélico da realidade), para reencontrar a imagem que Jesus deu: amigo como um pai, bom com os justos e com os injustos, que se identifica nos últimos para exaltá-los, humilhando os prepotentes, que não condena, mas salva, advertindo que a vida sem amor, violenta, é um fracasso. O Deus de Jesus, sempre presente na tradição, mas sepultado por imagens violentas, é um Deus não violento (ibid., cap. 9). O Evangelho afirma que ninguém nunca viu Deus, ninguém pode fazer d'Ele um conceito definitório, mas Jesus no-Lo mostra com a sua vida (João 1, 14) e está entre nós, em nós, quando nos amamos, quando estamos em paz (Primeira Carta de João 4, 12).

2. Muitos teólogos, intelectuais, padres e religiosos da Igreja conciliar e progressista assinaram, há alguns meses, um abaixo-assinado para defender o papa dos ataques feitos, na opinião deles, por renomados expoentes e poderes da conservação que atuam contra Francisco em nível eclesial assim como na esfera mundana. Se é verdade que o estilo de Francisco é indigesto para o setor mais tradicionalista das hierarquias, no entanto, não seria um ato de coerência por parte desse papa a reabilitação de todos aqueles que, de formas diversas, sofreram a censura, a marginalização, até mesmo a sanção canônica por parte da Igreja sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI?

Sim, é justo reparar as ofensas a pensadores cristãos sérios e corajosos. Ficaria contente que Francisco fizesse isso. Não pretendo a imediaticidade, tenho paciência, porque posso imaginar as dificuldades e os obstáculos impostos pelo sistema eclesiástico à ação de Francisco. Talvez, ele vai agir menos no plano doutrinal, das posições teológicas, e mais no plano vital, espiritual, social: parece-me significativo (como outros fatos semelhantes) que ele finalmente tenha desbloqueado o reconhecimento do martírio pela justiça, pelo "não matar", de Óscar Romero, já sentido como santo pelo povo, não apenas sul-americano. Os santos não são "feitos" pela Igreja, mas pelo Espírito Santo que os anima: a Igreja apenas os reconhece. Não se reformam as doutrinas com autoridade, mas graças à circulação de um espírito interior mais fiel ao Evangelho.

3. O Sínodo ainda não se expressou sobre nenhuma das questões cruciais que dizem respeito à família, aos divorciados recasados, às uniões gays. E é evidente que as resistências à renovação que se manifestaram, às vezes de modo majoritário, na primeira fase desempenharão um papel de freio na segunda. Você não acredita que o papa poderia se expressar através de uma encíclica (analogamente ao que Paulo VI fez com a Humanae vitae, mas em direção evidentemente diferente) sobre temáticas que já se tornaram de urgência prepotente?

Sobre esse ponto, como sobre outros contrastantes – e compreensivelmente delicados, se quisermos o máximo possível um "caminhar juntos" dos cristãos –, veremos agora quais passos o Sínodo especial pode dar na segunda sessão. Se prevalecer o bloqueio, acredito que Francisco, mais do que com uma intervenção sua de autoridade, poderia convocar um novo Concílio, sobre essas e outras questões. Foi com esse ato que o Papa João XXIII pôde promover o caminho – não condescendente, mas justo, estimulante e amigo – de diálogo e de paz entre a Igreja Católica e a modernidade, derrubando as condenações do século XIX.

4. A luta pelas posições de renda e pelos privilégios eclesiásticos, que Francisco, com diversas declarações, mostrou querer assumir não deveria ser acompanhada por atos concretos, como a renúncia de alguns dos inúmeros privilégios concordatários de que gozam a Igreja e o Vaticano na Itália? Por exemplo, o "8 por mil" [parcela do imposto de renda italiano direcionado às confissões religiosas], a isenção ou a redução de alguns impostos, as rendas decorrentes das especulações imobiliárias (especialmente na emergência habitacional e na da acolhida de sem-teto e migrantes que caracterizam a nossa época)…

Seguramente. A Igreja organizada deve viver no direito comum das associações e movimentos morais, com os direitos e os deveres e a liberdade de quem age não por lucro, mas pela promoção humana. Mas acima de tudo espero e acredito que Francisco – que na noite da eleição não pronunciou a palavra "papa", mas se disse apenas bispo de Roma – está colocando as sementes para a reforma do papel do papa: que não seja mais um "chefe de Estado "(mesmo que o pequeno Vaticano), mas um simples líder moral que merece autoridade por aquilo que propõe. Jesus de Nazaré não tinha as garantias de um papa e fez infinitamente mais na história da humanidade.

5. Em relação ao papel dos leigos e das mulheres na Igreja, em que você vê mudanças visíveis e reais na ação deste pontificado? É possível que o sacerdócio feminino continue sendo um tabu, uma recusa encouraçada, justamente enquanto a Igreja Anglicana, a menos distante da Igreja Católica entre as Igrejas reformadas, consagrou uma mulher até mesmo como bispo?

Parece um pouco fraca, isto é, nos limites tradicionais de um homem e de um padre idoso (ouso dizer isso eu, que sou mais velho do que ele em seis meses), a visão que o Papa Francisco tem das mulheres na Igreja. Mas, certamente, ele quer promover o seu reconhecimento e confiar-lhes tarefas de responsabilidade. O caminho vai continuar. Quanto ao "sacerdócio", há muito a se esclarecer. Jesus era alguém do povo, um rabi, mestre iluminado, mas não era um sacerdote judeu; na teologia do Novo Testamento, ele é sacerdote universal, no sentido de que ele faz a mediação e a unidade entre Deus e a humanidade, porque nele plenamente homem vive em plenitude o Espírito de Deus, mais plenamente do que em qualquer outro filho e imagem de Deus, como somos cada um de nós. Jesus é sacerdote único, nesse sentido, mas sacerdotal também é todo o povo dos seus discípulos, unidos e permeados pela sua vida, pela sua presença viva, do Espírito Santo que ele enviou sobre a humanidade.

Por isso, na Igreja de Cristo, todos sacerdotes e nenhum "sacerdote" especial e exclusivo. Quem, na Igreja, tem um serviço é chamado de diácono, isto é, servidor, presbítero (= padre), isto é, ancião, epíscopo, isto é, supervisor. São termos leigos, tomados da vida civil, e não termos sagrados. Padres e bispos não são mais "sagrados" do que os outros. Além disso, na história, ocorreu uma sacralização e clericalização dos padres, que não é original. O Concílio Vaticano II substituiu o termo presbítero pelo termo sacerdote, que, porém, depois, no uso, ganhou novamente espaço, mas não é o mais fiel.

Quanto às mulheres, muitas hoje conscientes, especialmente muitas valentes teólogas, não aspiram em nada a se tornar sacerdotisas, mas querem fazer valer a sua plena paridade no papel sacerdotal de todo o povo de crentes em Cristo. Não é uma reforma jurídica que é necessária, mas reencontrar o sentido original. É justo que, nas comunidades, pelas naturais exigências de ordem, sejam reconhecidas pessoas – homens e mulheres – capazes, preparadas, espiritualmente aptas, encarregadas por um acordo geral de exercer funções comunitárias, de liderança na oração, também na Eucaristia, sem acreditar que elas sejam dotadas de qualquer sacralidade exclusiva maior e sem que seja desconhecido de todo o povo dos batizados o caráter sacerdotal comum afirmado na Sagrada Escritura.

6. Como você avalia o episódio ocorrido há alguns meses sob este pontificado da excomunhão de Martha Heizer, presidente do Nós Somos Igreja Internacional, e do seu marido, Gert, por ter celebrado a Eucaristia na própria casa, junto com a sua comunidade, mas sem a presença de um padre? Não teria sido oportuno que o papa que prega uma Igreja aberta, tolerante, inclusiva, parasse esse procedimento, também em consideração do fato de que o Nós Somos Igreja está na vanguarda em muitos países do mundo sobre temas "espinhosos" e atuais como o celibato presbiteral, o sacerdócio feminino, a colegialidade, os divorciados recasados, os gays, a pobreza, o combate à pedofilia no clero?

É um fato desagradável. Não para defender o Papa Francisco em tudo, mas eu entendo que ele não pode fazer, e nem querer, tudo o que nós, católicos críticos, queremos. Eu acredito que aquela celebração de Martha Heizer e do seu marido é válida, é a verdadeira ceia de Jesus, que nos disse: "Fazei isso em memória de mim". Mas também entendo que a comunidade precisa de ordem, de persuasão compartilhada, de comunicação, de maturidade e também de paciência. Alguns gesto avançados são necessários (como em Turim e também em outros lugares, onde, há alguns anos, um pequeno grupo de católicos e protestantes compartilha a hospitalidade eucarística, informando a respeito, sem barulho nem arrogância, as suas Igrejas), mas importante é o crescimento comum da consciência. A forma sinodal e conciliar das Igrejas tem esse objetivo comunitário.

7. A propósito do tema da pedofilia na Igreja, além do justo e sacrossanto combate aos padres pedófilos e ao seu afastamento e denúncia às autoridades civis (que, porém, na Itália, a Conferência Episcopal Italiana não tornou obrigatória para os bispos), não seria necessário um profundo repensamento da formação dos padres e da instituição do seminário? Nessa frente, você considera que o papa está agindo ou irá agir no futuro próximo?

Eu não sei responder a essa pergunta, não estou informado. Mas sinto que haverá processos contra os bispos que acobertaram. Os padres deverão ser formados nas comunidades cristãs mais do que nos seminários, que eram como viveiros apartados, artificiais, deformantes. Nos casos de violência e abuso, deve-se fazer a justiça, sem hesitações. Mas, principalmente, eu acho que se deve repensar com o Evangelho toda a formação e a moral referente ao corpo, ao sexo, nem demonizado nem mitificado, venerando a dignidade e liberdade de cada pessoa, cultivando o respeito sacro (esse realmente sacro) dos pequenos e dos fracos. A moral evangélica é a mesma em tudo, da economia à política, à afetividade: amar mais do que esperar amor (que, contudo, é uma expectativa muito humana, mas não é exigível, especialmente violando liberdades). Deus nos ama antes de nos pedir amor, nos perdoa e sempre promove de novo a bondade e a generosidade.

8. O Papa Francisco declarou repetidamente que quer dialogar com o mundo ateu sem a intenção de "proselitismo" e que quer respeitar as regras da democracia pluralista. Como se conciliam essas afirmações com a reiterada pretensão de que as leis dos Estados soberanos, que dizem respeito a todos os cidadãos, devam continuar sendo modeladas sobre a moral da Igreja Católica em questões cruciais como a eutanásia, quando até mesmo no seio da Igreja vozes muito autorizadas (por último, Hans Küng) apoiaram a liceidade da eutanásia e, em alguns casos, até mesmo o seu caráter peculiarmente cristão?

Não acho que essa seja uma característica do Papa Francisco. Ele silencia totalmente sobre os "valores inegociáveis" do período de Ruini, que queria justamente influenciar na legislação civil. Outra coisa bem diferente é a pregação evangélica, que propõe livremente às pessoas valores de justiça e de amor, que, depois, através das dinâmicas culturais naturais de uma sociedade livre e aberta, eventualmente, podem se refletir nas leis, por via democrática e não por pressão clerical.

Francisco falou claramente contra o proselitismo, uma espécie de "recrutamento" de seguidores, em favor, ao contrário, da livre proposta e da livre persuasão da inspiração evangélica. Certamente, nas mudanças históricas, encontram-se problemas morais difíceis e honestas incertezas, como as relativas ao fim da vida, sobre o qual não é fácil ditar uma solução, mas deve continuar a reflexão e a experiência guiada pelo amor. Vejo uma tarefa mais clara para as Igrejas, por exemplo, sobre a guerra, a economia estruturada para a desigualdade e a exploração – "Essa economia mata", escreveu Francisco na Evangelii gaudium (n. 53) –, o racismo desumano que rejeita os mais necessitados: aqui, a Igreja pode e deve propor à cultura civil um critério moral que não é um "a mais" evangélico, mas uma base humana irrenunciável.

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