“Que horas ela volta?” e a desigualdade brasileira

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11 Setembro 2015

Gentil Corazza reflete sobre a realidade nacional à luz da primeira parte do livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty e vê no filme uma alegoria sobre a desigualdade

Foto: João Vitor Santos/IHU

“Desigualdade é nossa marca. Somos a sétima economia e o oitavo país mais desigual do mundo”. Assim o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS Gentil Corazza (foto) abre sua análise acerca da realidade brasileira. Sua constatação se dá a partir do emprego da metodologia apresentada nos dois primeiros capítulos de O capital no século XXI, de Thomas Piketty (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014). A perspectiva do autor é centrada nas desigualdades geradas pelo capital a partir da concentração de renda. Concentração que no Brasil se perpetua ao longo da história. “Podem mudar as famílias detentoras de riqueza, mas a desigualdade continua. Há sempre a concentração na mão de poucos. Cada um tem seu lugar muito marcado. Isso fica muito claro ao assistirmos o filme ‘Que horas ela volta?’. Lá percebemos o lugar da empregada, a forma da desigualdade”, analisa, durante a segunda conferência do Ciclo de Estudos O Capital no Século XXI – uma discussão sobre a desigualdade no Brasil. Os encontros continuam até 29 de outubro, e ainda há vagas para inscrição.

O filme referido pelo professor Corazza ,”Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert (2015), conta a história de uma pernambucana que vai para São Paulo. Em busca de uma vida melhor para a filha, que fica no interior de Pernambuco, ela passa a ser babá e vive na casa dos patrões na capital paulista. Anos mais tarde, quando o filho da família vai prestar vestibular, a filha da emprega pede ajuda para ir a São Paulo para fazer a mesma prova. Quando a jovem chega na casa, começa o conflito de classes por ela não respeitar protocolos, convenções sociais. “É o que chamo de desigualdade visível e desigualdade invisível. É esse o conflito que se estabelece nessa história”, relaciona Corazza.

O professor ensaia mais relações que podem ajudar a compreender as causas da desigualdade no Brasil. A primeira delas é uma herança histórica. “Fomos baseados no latifúndio e na escravidão. Isso não tem nada a ver com mérito. Crescemos por isso”, explica. A segunda relação se dá através do próprio desenvolvimento do capital. “É a desigualdade por natureza, gerada pelo capital. Mesmo que tenhamos gerado uma nova riqueza, esta continua concentrada em poucos”.

A herança e a desinformação

Gentil Corazza destaca o trabalho de Piketty justamente por jogar luz a questão da herança, da renda que passa de pai para filho. Voltando para a realidade brasileira, vê como outro fator que mantém a concentração. “Há redução demográfica. Ou seja, com poucos filhos, a herança fica na mão de poucos”. No entanto, não se podem desconsiderar a relação de poder e força que detém essas famílias. “O capital é sempre associado a poder e força”, completa. Esses dois fatores ainda se relacionam com outro, clareando o entendimento da desigualdade nacional: a reduzida experiência democrática. “Sem o efetivo estado democrático, não há como reduzir a desigualdade. Em cinco séculos de história do Brasil, temos apenas 50 anos de regime democrático efetivo”.

O professor ainda destaca, entre causas que podem ajudar a entender a desigualdade de hoje, a carga tributária recessiva e a educação. “Não se pode ter a ilusão de que a educação vai resolver tudo, acabar com as desigualdades”, pondera. Agora, o conhecimento, a informação é algo que pode motivar uma discussão sobre o tema. Esse é outro fator, na perspectiva de Corazza. “Temos um desconhecimento da desigualdade. Agora que a Receita Federal começou a liberar dados sobre as fortunas. Por isso é tão difícil aplicar a lógica de Piketty a realidade brasileira. Precisamos saber mais sobre as fortunas, especialmente geradas pelo rentismo”, avalia.

Provocações e inspirações

Foto:adorocinema.com

Na primeira parte de sua conferência, Gentil Corazza disseca a primeira parte do livro de Piketty. Embarcando na lógica do autor, prova que o século XX é muito particular, diferente do que vinha acontecendo até então. “O autor mostra que o capitalismo, por sua natureza, tende a concentrar renda e desigualdade. O que não chega a ser grande problema, mas desde que haja pelo interesse comum. E este século se mostra diferente porque, ao longo do período, houve redução das desigualdades por fatores não econômicos (as guerras e a grande depressão de 29). Porém, depois da década de 1980, no chamado período neoliberal, a desigualdade volta a crescer e deve retomar patamares ainda piores que os anteriores”, explica.

É essa dinâmica trazida por Piketty que provoca a mestranda em Ciências Sociais pela Unisinos, Jéssica Wallauer. “Nenhum economista chegou a esse ponto. Ele conseguiu mensurar a desigualdade a partir da herança e por um período tão longo”, destaca a jovem que vai trabalhar com a ideia de desigualdade na sua dissertação.

Gilmar Basso é formado em Ciências Sociais e trabalha com políticas públicas na Secretaria Estadual de Saúde. Para ele, os movimentos do autor são fundamentais para entender a conjuntura atual. “Precisamos conhecer ainda mais os meandros e mecanismos do capital. Só assim entenderemos o mercado global”, destaca ao lembrar que tem cadeira cativa nos próximos encontros do Ciclo.

A próxima conferência é “A evolução da relação capital/renda e a distribuição da renda nacional no Brasil”, com Alexandre de Freitas Barbosa, da Universidade de São Paulo. O encontro será no próximo dia 30.

Por João Vitor Santos

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