Crônica do conclave que elegeu dom Albino Luciani

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Por: André | 26 Agosto 2015

O patriarca Albino Luciani deixa Veneza pela última vez às 6h do dia 10 de agosto, acompanhado apenas pelo seu secretário. Saída quase secreta, ninguém o espera para despedir-se dele. São os últimos instantes que transcorre na cidade das águas, para onde chegou oito anos antes e da qual se afastou pouco e somente por breves períodos de tempo. Um fotógrafo, que ficou durante toda a noite de vigilância, conseguirá tomar a imagem do cardeal que da porta dos fundos do patriarcado sobe à lancha.

 
Fonte: http://bit.ly/1KMRbhi  

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 25-08-2015. A tradução é de André Langer.

Em Roma, Luciani se aloja na residência dos padres Agostinianos, situada em frente ao ex-Santo Ofício, a dois passos da Praça de São Pedro. Faz as refeições no refeitório junto com os freis que o veem com frequência no jardim rezando o rosário. É muito pontual às congregações gerais dos cardeais, mas não toma nunca a palavra. “Parece quase que se esconde, como se tivesse medo de se ser visto”, contarão depois do conclave alguns “colegas” cardeais. Nas reuniões mais ou menos secretas, durante as quais os grupos de cardeais trocam ideias e falam sobre as candidaturas, não o veem nunca presente. Uma ausência da qual se dão conta.

No dia 21 de agosto, quando faltam quatro dias para o início do conclave, o cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, define em uma entrevista o perfil do novo Papa: “Um homem da esperança... Não deveria tentar impor soluções cristãs aos não cristãos. Deveria ser sensível aos problemas sociais, aberto ao diálogo... Deveria ser antes de mais nada um bom pastor... respeitar e animar a colegialidade dos bispos... Se deveria ter buscado uma solução para controlar a natalidade, não em oposição à Humanae Vitae, mas como seu prosseguimento”. Um retrato do Papa Luciani. Assim, enquanto muitos jornais pintam o patriarca como um cinzento conservador, a partir de notícias e opiniões recolhidas dos intelectuais do clero veneziano que entraram em confronto com ele, os cardeais latino-americanos progressistas, que já o conhecem, decidem apoiar sua candidatura.

O cardeal africano Hyacinthe Thiandoum, arcebispo de Dacar, Senegal, conhece há anos a Luciani e em 1977 foi seu hóspede em Veneza durante cinco dias. “Antes de partir”, escreveu Thiandoum em um artigo publicado na revista 30 Días (julho-agosto de 1998), “não vacilei em manifestar algumas impressões e reflexões, todas baseadas de uma única certeza: a de ter estado junto com o futuro Pontífice da Igreja católica. Convicção que fiz notar sem vacilação ao padre Diego Lorenzi, seu secretário particular”.

Poucas horas antes do início do conclave, o arcebispo de Dacar convida o cardeal Luciani para almoçar em sua residência romana, em um convento de irmãs na Rua De Gasperi. Após terem deixado a mesa, os dois cardeais acomodaram-se em uma pequena sala para tomar um cafezinho. E foi então que Thiandoum dirigiu-se a Luciani dizendo-lhe: “meu patriarca, nós estamos esperando por você”. Luciani, adivinhando muito bem o pensamento do cardeal, respondeu-lhe: “Eu sou o patriarca de Veneza”. Thiandoum respondeu mais explícito: “Nós estamos com você”. E Luciani, manifestando sua mais total estranheza ao jogo do conclave, replicou: “Isto não é da minha conta”.

Na tarde do dia 25 de agosto de 1978, o patriarca deixa a residência dos Agostinianos para entrar na clausura na Capela Sistina. Desce à portaria carregando sua maleta. E diz a um frei: “Esperamos que seja rápido. Minha maleta está pronta para voltar a Veneza”. Mais do que parecer convencido, a frase parece um gesto supersticioso. Luciani sabe que está “em perigo”, mas espera que isto não ocorra. No dia anterior, escreveu uma carta à sobrinha Pia. Segundo dom Gioacchino Muccin, bispo emérito de Feltre-Belluno, desta e de outra carta se evidencia que “estava com medo [de ser eleito] e tentava escondê-lo com seus parentes”.

“Querida Pia”, escreve Luciani, “hoje concluímos o pré-conclave com a última Congregatio generalis”. Depois, sorteadas as celas, fomos vê-las. Fiquei com a de número 60, uma sala de estar adaptada para ser um quarto de dormir. É como no seminário de Feltre, em 1923: cama de ferro, um colchão, e uma bacia para se lavar. No quarto número 61 está o cardeal Tomasek de Praga. Na sequência vêm os cardeais Tarancón (Madri), Medeiros (Boston), Sin (Manila), Malula (Kinshasa). Falta a Austrália, e se poderia dizer que está ‘concentrado’ todo o mundo. Não sei quanto tempo durará o conclave. Difícil encontrar uma pessoa que enfrente tantos problemas, há cruzes muito pesadas. Felizmente, eu estou fora de perigo. Já é muito grave a responsabilidade de votar nesta circunstância”.

A segunda carta é de 25 de agosto e é dirigida à sua irmã, Antonia Luciani, que mora em Petri. “Querida irmã, te escrevo antes de entrar no conclave. São momentos de grande responsabilidade: apesar de que não haja nenhum perigo para mim – não obstante os falatórios dos jornais –, votar em um papa neste momento é um peso”.

“Esses ‘falatórios’”, destaca o bispo Muccin, “e esse insistir no fato de que ‘eu estou fora de perigo’ têm para ele um ‘sabor agridoce’ e se parecem com o tom de algumas cartas escritas aos familiares de Sotto Il Monte, e, uma também para mim, do cardeal Roncalli antes do conclave de outubro de 1958. A que estava dirigida a mim terminava inclusive com um Silentium meum loquitur tibi (meu silêncio te fala). Dos três patriarcas de Veneza convertidos em sucessores de Pedro neste século, foi uma surpresa absoluta apenas a eleição do cardeal Giuseppe Sarto no conclave de 1903”.

Na tarde do dia 25 de agosto de 1978, quando os 111 cardeais eleitores entraram na Capela Sistina, a candidatura de Luciani é muito mais que genérica. Dentro do recinto do conclave os cardeais sofrem com o calor e com a organização não adequada de suas exigências: em muitos quartos não há água encanada, os banheiros são comuns. Já uma semana antes o cardeal Giuseppe Siri, veterano absoluto dos conclaves tendo já participado de dois, dirá ao amigo jornalista Benny Lai: “O conclave não durará mais de três dias, no máximo quatro. Não é possível viver nestas condições mais do que três dias. Talvez sente na cadeira e já saia eleito. Sabe o que eu levo para a clausura? Meia garrafa de conhaque. Não para mim, mas para quem for eleito. Eu fiz isso em conclaves anteriores e serviu, pode crer”.

“Meu quarto era um forno”, recordará o cardeal Suenens em seu livro Memórias e esperanças, “uma espécie de sauna. É difícil imaginar o que significa dormir em um forno. Havia apenas uma janela, mas estava trancada. No dia seguinte, com a força das mãos, consegui abri-la: que dom divino o oxigênio e um pouco de ar fresco! Podia-se correr o risco de ficar doente”.

No dia 26 de agosto, sábado, depois da celebração da missa e do café da manhã, os 111 cardeais se encontraram na Capela Sistina para a primeira votação. O conclave, aparentemente, não se apresentava fácil: são necessários aos menos 75 votos para a eleição, isto é, dois terços mais um do consenso. “Era possível imaginar que o conclave seria longo e difícil”, dirá o cardeal Franz Koenig, arcebispo de Viena. Na realidade, era evidente desde a primeira votação quem eram os verdadeiros candidatos.

De acordo com as confidências do cardeal da Guatemala, Mario Casariego, que foi consagrado bispo por João XXIII no dia 27 de dezembro de 1958 junto com Luciani, este teria sido o resultado da primeira votação: Giuseppe Siri, 25 votos; Albino Luciani, 23; Sergio Pignedoli, 18: Sebastiano Baggio, 9; Franz Koenig, 8; Paolo Bertoli, 5; Eduardo Pironio, 4; Pericle Felici, 2; e Aloísio Lorscheider, 2. Um dos dois votos obtidos pelo cardeal brasileiro tinha sido com toda a probabilidade do cardeal Luciani.

O segundo escrutínio é realizado imediatamente depois, sem intervalo. Luciani vê aumentar de modo considerável os votos que chegam até 53, enquanto Siri mantém praticamente invariáveis os seus (de 25 baixa para 24). As outras preferências se perdem e pela primeira vez sobre algumas cédulas aparece o nome do arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla. A primeira fumaça, no final da manhã, é preta. “Lembro que no sábado pela manhã, saindo da Capela Sistina, encontramos o patriarca Luciani”, recorda o cardeal húngaro Lazlo Lékai, “Então lhe dissemos: ‘Os votos estão aumentado’. Ele brincou: ‘Isso é apenas um temporal de verão’. Uma resposta parecida de Luciani obterá o cardeal africano Joseph Malula, que conta ter abraçado o patriarca antes do início das votações da tarde “porque estava claro que algo estava para acontecer”.

Decisivo para a eleição é o intervalo para o almoço. Durante essas horas o cardeal espanhol Vicente Enrique y Tarancón reúne alguns colegas cardeais em seu quarto para decidir qual é a atitude a ter diante de uma eleição que já parecia inevitável entre Luciani e Siri. “Estavam presentes os cardeais Suenens, Alfrink, Koenig, Cordeiro e outros mais... Falamos entre nós porque nos sentíamos fora da corrida”. Tarancón deixa entender que muitos cardeais progressistas se orientam para Luciani, mesmo se inicialmente o consideravam “um homem tímido... Entrando no conclave supunha que Luciani poderia ser a solução do terceiro dia, após diversas votações”.

“Depois das primeiras votações”, recorda o cardeal Silvio Oddi, “saiu imediatamente o nome. Inesperado. Luciani, por que não?, disseram alguns. Uma pessoa boa, inteligente e piedosa. E o consenso se difundiu rapidamente. Pensamos nele como em um novo Pio X, também ele patriarca de Veneza, um Papa bom e santo”.

Há uma terceira votação, e às 16h30 o nome do patriarca ressoa na Capela Sistina com cerca de 60 votos. Falta pouco para a eleição. E é então que o cardeal Felici manda um bilhete a Luciani endereçando ‘ao novo Papa’ uma pequena Via Sacra. “Obrigado”, respondeu imediatamente o patriarca, “mas ainda não está decidido”. “Depois do terceiro escrutínio”, disse João Paulo I, “teria gostado de desaparecer sem que ninguém notasse”.

O quarto escrutínio começa em um clima de crescente excitação. De acordo com as reconstruções mais confiáveis, Luciani obteve 101 dos 111 votos. “Uma maioria extraordinária, três quartos dos votos para uma personalidade pouco conhecida”, observará o cardeal Suenens. “Na terça-feira seguinte à eleição”, conta Camillo Bassotto, biógrafo do Papa Luciani, “tivemos uma audiência privada com o Papa, junto com o vigário da diocese de Veneza, mons. Bosa. Mal João Paulo I nos recebeu na sala anterior ao seu quarto privado, mons. Bosa lhe perguntou: ‘Santidade, é verdade que foi eleito por unanimidade?’ E o Papa: ‘Quase por unanimidade’”.

Quando o nome do eleito é dito pela 75ª vez, na Capela Sistina explode um caloroso aplauso. “Ficamos de pé para aplaudir”, conta o cardeal Enrique y Tarancón, “mas não o vimos. Estava agachado em sua cadeira, tinha se feito pequeno, pequeno, queria quase se esconder”. No final da votação, Luciani aparece “preocupado e angustiado”. Mas quando o cardeal Siri, Villot e Felici se aproximam dele para lhe perguntar se aceita a eleição, o patriarca responde: “aceito”. E anuncia querer chamar-se “João Paulo I”.

Depois de vestir o hábito branco, o menor dos três preparados pelo alfaiate pontifício Gammarelli, que mesmo assim ficou muito grande, o novo Papa entra novamente na Capela Sistina para receber a homenagem dos cardeais: “Sou um pobre Papa, sou um humilde Papa...”, repete a todos pedindo para que rezem por ele.

Pouco depois das 19h, uma densa fumaça de cor cinzenta começa a sair da chaminé da Capela Sistina. Não se entende se é branca ou preta. Mas a intensidade crescente da fumaça e um certo movimento que pode ser visto atrás das grandes sacadas de São Pedro fazem intuir que a eleição tenha se dado. O aparecimento do cardeal protodiácono Pericle Felice na sacada central de São Pedro o confirma. O cardeal lê a fórmula e anuncia: “Habemus Papam”. Antes que chegue a pronunciar o sobrenome do eleito, a multidão aplaude. Basta dizer o primeiro nome, uma vez que Luciani é o único dos 111 no conclave com esse nome.

Às 19h31, o novo Papa faz sua primeira aparição na sacada. Sorri, está visivelmente emocionado. O hábito branco, muito grande, escorrega de um lado para o outro. João Paulo I teria gostado de dirigir algumas palavras à multidão, mas o cerimoniário, dom Virgilio Noè, lhe diz que não é costume fazê-lo. Lendo a fórmula da bênção “Urbi et Orbi”, Luciani tem a voz embargada de emoção. Enquanto volta e se dirige para a sala, reprova em tom de brincadeira os cardeais: “Que Deus perdoe vocês pelo que fizeram”.

O conclave terminou, mas João Paulo I, por surpresa, pede aos cardeais para que fiquem mais uma noite para todos poderem jantar juntos, e na senta-se no mesmo lugar que ocupava nos dias anteriores. Um cardeal espanhol, que deseja finalmente fumar, aproxima-se do Papa e lhe pede permissão. “Permissão concedida, desde que a fumaça seja branca”, responde ironicamente o novo Papa.

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