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07 Agosto 2015

Considero que o MPL, ao não se pensar como um movimento inserido nas dinâmicas de lutas mais amplas dos trabalhadores e trabalhadoras, foi incapaz de superar seus próprios limites, escreve Legume Lucas, ex-membro do Movimento Passe Livre,  publicado por Passa Palavra, 04-08-2015.

Eis o artigo.

Após 11 anos de dedicação ininterrupta ao Movimento Passe Livre afirmo que o MPL chegou ao seu fim. Parece-me evidente que isso se deu após a maior mobilização da classe trabalhadora no Brasil dos últimos 30 anos. A participação do MPL nas mobilizações ocorridas em junho de 2013 foi fundamental e fruto de anos de trabalho regular na luta por transporte. Entendo que esse processo já foi analisado e está documentado em diferentes textos e entrevistas, por isso não o retomarei nesse texto.

Considero que após realizar sua maior potencialidade ao iniciar o processo que barrou o aumento em mais de 100 cidades no Brasil, o movimento não conseguiu caminhar para a reorganização – nacional e local – necessária para superar seus limites anteriores e, ao sermos incapazes de fazer isso, nos fechamos entre nós mesmos. Analisar o MPL é, necessariamente, olhar para os limites do movimento autônomo, pois ele foi o que de mais avançado existiu na tentativa de organizar um movimento social que se pautasse pela horizontalidade, autonomia e independência. O fim do MPL implica uma revisão de quais práticas pretendemos adotar para continuarmos em luta.

O MPL sempre teve como uma de suas características centrais a crítica à “velha esquerda”, o surgimento do movimento foi fruto de uma heterodoxia na qual ex-militantes leninistas se aproximaram de práticas dos grupos autônomos. Não era uma revisão doutrinária ou de princípios abstratos, mas uma reflexão vinda da experiência concreta de luta. Os agrupamentos partidários viam as demandas por transporte de maneira instrumental, por isso as aparelhavam ou as boicotavam de acordo com as análises de seus comitês centrais. Foi para romper com essas práticas que estabelecemos como princípios a autonomia, a independência, o apartidarismo e a horizontalidade. Princípios esses que foram fundamentais para nosso desenvolvimento, tanto para ser uma referência prática para aqueles que recusavam a organização política por meio de doutrinas, quanto para permitir o aprofundamento da discussão sobre transporte e sua relação com estruturação da cidade.

Contudo, os princípios foram transformados em nossa própria doutrina. Considerávamos essa a única perspectiva correta de atuação e, portanto, seríamos superiores aos demais agrupamentos da esquerda; assim as articulações eram feitas preferencialmente com aqueles que tinham acordo com esses princípios, ou por vontades individuais de algum militante, mas não a partir de lutas concretas. Passamos a procurar desenvolver práticas a partir desses princípios, produzindo uma série de contradições.

A horizontalidade, expressa na divisão e na rotatividade de tarefas – que seria fundamental para consolidar uma democratização de saberes e não consolidar posições hierárquicas – resultou em uma ojeriza à especialização, como se fosse um grande pecado alguém ser mais capacitado que o outro para uma tarefa, ou como se fôssemos igualmente bons em todas as atividades. A discussão democrática – fundamental para a oxigenação das mobilizações – abriu espaço para a rediscussão eterna das decisões, feita a partir da vontade individual de cada militante, como se um processo assim fosse democrático.

Ao procurarmos criar um movimento novo, com novas práticas, negando as práticas anteriores, nos aproximamos de um a-historicismo, no qual não recorríamos às experiências de lutas acumuladas para pensar os atuais dilemas. Isso não se restringia às lutas feitas pelos trabalhadores e trabalhadoras em outros países e tempos históricos; englobava a própria atuação anterior do movimento. A ausência de registros fazia com que as práticas e reflexões feitas pelo próprio movimento só fossem passadas adiante em espaços informais.

Todas essas tensões e contradições internas tentavam ser equacionadas pela via do consenso. Em tese, o consenso serviria para a construção coletiva, para permitir a escuta de posições diferentes e para tentar, a partir dessas divergências, construir uma posição melhor; ao mesmo tempo tinha o objetivo de impedir que os princípios do movimento fossem alterados por meio de manobras de organizações partidárias. Passamos a querer alcançar o consenso em todas questões, nas estratégias do movimento, nas táticas de luta, nas formações a serem feitas, uma dinâmica que produzia reuniões muito longas e exaustivas.

Os problemas desenvolvidos foram vários: algumas decisões eram barradas por um grupo pequeno de militantes irredutíveis em algum ponto, militantes eram pressionados a concordar com uma posição para não inviabilizar o consenso, construía-se uma posição que tentava contemplar duas vias completamente contraditórias para contemplar a todos. Como consequência dessa concepção peculiar de consenso, a discussão pública tornou-se um tabu. Todas as discussões deveriam ser feitas internamente para que respeitássemos a construção coletiva e assim desenvolvíamos – sem perceber – práticas muito semelhantes às das organizações que criticávamos, enxergando como traição qualquer divergência aberta.

A organização do MPL enquanto movimento social sempre teve dificuldade de definir quem fazia – e quem deveria fazer – parte do movimento. Ao longo do tempo tentamos desenvolver algumas definições de que movimento éramos, porém a ausência de registro regular e de sistematização não permitiu a generalização e a perpetuação desses saberes. Entre essas concepções, existia a ideia de que se tratava de um movimento de espectro amplo.

A base social mais difusa que a dos movimentos tradicionais se deve a uma organização baseada não por um local de trabalho ou de moradia, mas por uma demanda que afetava diferentes pessoas ao mesmo tempo. Essa caracterização relacionava-se com a possibilidade de uma atuação ampla não sujeita a restrições territoriais ou por ocupação; ao mesmo tempo em que se evidenciavam os limites, já que não existia um espaço direto de organização e reunião das pessoas que utilizavam o transporte. Tal concepção parecia-nos adequada naquele momento, com um baixo número de militantes e a dificuldade de chegar nas diferentes regiões da cidade.

Tanto era essa a base social de um movimento de transportes em uma cidade como São Paulo que foi justamente esse espectro amplo que foi mobilizado em junho. Foram esses setores da classe trabalhadora, antes fragmentários, que se uniram em torno de uma pauta objetiva da redução das tarifas de ônibus e metrô. Essas pessoas passaram a ter o MPL como referência e grande parte daqueles que se mobilizaram queriam atuar conosco. Isso implicaria uma mudança radical da organização. Não seria mais possível que se conhecesse a todos, também seria necessária a criação de espaços em que as pessoas pudessem discutir abertamente os rumos políticos do movimento, sem ter que participar de longas reuniões todos os fins de semana.

Prevaleceu – se não formalmente, ao menos na prática – a manutenção da lógica dos grupos de afinidade autônomos em detrimento da formação de um movimento amplo e horizontal. Essa lógica, que deveria potencializar a militância a partir da construção de laços fortes de confiança entre as pessoas, mascarou a formação de grupos de afinidades pessoais que funcionavam como um filtro para selecionar os interessados em atuar no movimento. A mistura entre afinidades pessoais e políticas levou a uma fusão entre os círculos de amizade com os de militância. Não se trata de algo novo dentro da esquerda e do meio autônomo, mas esse problema se agravou a partir do momento em que vencemos uma importante luta e nos tornamos uma referência para milhares de pessoas.

O sucesso das mobilizações de 2013 teve como uma de suas consequências o efeito de nos apaixonarmos por nós mesmos: as relações de amizade, amorosas e sexuais voltaram-se para dentro do próprio movimento. O efeito disso foi intenso, porque participar do movimento incluía ser amigo das pessoas. Para ter acesso às decisões e disputas do movimento era necessário frequentar as festas, os bares após as reuniões, participar dos grupos de amigos, o que deixou o caminho aberto ao nosso fechamento em relação à sociedade.

Nesse cenário, a criação de grupos exclusivos de mulheres – em diversas unidades da federação – resultou na cristalização de espaços de poder dentro do movimento, aos quais nem todas as pessoas têm acesso às informações, servindo como espaço de formulação política e desqualificação de posições. Uma vez que este espaço está fora de qualquer esfera de controle democrático no movimento, foi possível que pessoas que já haviam saído das instâncias regulares de militância continuassem a frequentá-lo, participando das disputas dos rumos do MPL. A crítica a esse espaço é vista como machismo e aqueles que a fazem são marginalizados e detonados nos fóruns informais do movimento. Assim, aqueles e aquelas que não se identificassem com esse tipo de feminismo não teriam lugar no MPL.

Os caminhos que o movimento deveria seguir após junho foram objeto de disputa interna. Embora os diferentes posicionamentos e projetos não estivessem plenamente claros, pode-se dizer – de maneira simplificada – que um lado defendia manter o trabalho em escolas e os atos centrais que o MPL estava acostumado a fazer; outro lado defendia a organização de um trabalho exclusivo nas periferias, focando uma organização por bairros. Nesse sentido aconteceu a tentativa de criar comissões de bairro como espaços que deveriam facilitar a entrada de militantes dos diferentes locais da cidade no movimento. Contudo, a dinâmica de funcionamento dessas comissões nunca foi realmente plena.

Na tentativa de se manter o consenso interno, tentou-se criar estruturas híbridas que impediam ambos os projetos de serem levados adiante. Não se apostava em um modelo centralizado e tampouco se criavam estruturas para substituir a reunião semanal. Hoje podemos considerar essa disputa encerrada com o desligamento da Luta de Transporte no Extremo Sul e a saída de mais uma dezena de militantes do MPL. Cabe ressaltar que a resistência em organizar esses setores mobilizados em junho esteve presente também entre aqueles que, dentro do movimento, consideravam necessário ir para a periferia. A ideia era que, ao nos organizarmos nas regiões afastadas do centro, não estaríamos sujeitos ao conservadorismo que apareceu nas últimas manifestações de junho; como se esse conservadorismo fosse presente apenas nos “coxinhas” e a massificação do movimento nas quebradas levasse necessariamente à derrota de práticas conservadoras.

Considero que o MPL, ao não se pensar como um movimento inserido nas dinâmicas de lutas mais amplas dos trabalhadores e trabalhadoras, foi incapaz de superar seus próprios limites.

Pensávamos que estaríamos imunes aos processos de burocratização que ocorrem em mobilizações vitoriosas. Entendo que a potencialidade transformadora de um movimento não é medida pela radicalidade de sua pauta, mas sim pela maneira como a mobilização em torno dela é capaz de produzir novas dinâmicas e experiências de luta. Por isso entendo que ao olhar para o próprio movimento e não para o transporte inserido na dinâmica da luta de classes, o MPL deixou de ser capaz de criar novas estruturas políticas e sociais, chegando ao seu fim.

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