Papa Francisco: “Os fatos são mais importantes do que as ideias”

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Incêndio na Ilha do Bananal coloca em risco vida de indígenas isolados

    LER MAIS
  • Derrubar estátuas. Artigo de Raúl Zibechi

    LER MAIS
  • A queda de Becciu na neblina de Londres: um adeus após um encontro chocante com o papa

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


05 Agosto 2015

"Embora a Igreja tenha uma imagem negativa decorrente da forma como lidou no caso de Galileu, a verdade é que a Igreja Católica vem sendo uma defensora da ciência através dos séculos (astrônomos jesuítas, Gregor Mendel, Georges Lemaître, etc.)", escreve Thomas Reese, jesuíta e jornalista, em artigo publicado pelo National Catholic Reporter, 30-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

“Os fatos são mais importantes do que as ideias” é uma declaração do Papa Francisco que nunca teríamos ouvido da parte de Bento XVI ou João Paulo II.

Não é que o Papa Francisco seja burro ou um anti-intelectual. Ele é um homem de leitura e pensativo, mas de forma alguma pode ser chamado de um acadêmico. A sua formação como cientista e a sua experiência de vida o fazem abordar a teoria de uma maneira diferente das de João Paulo e Bento. Isto ajuda também a explicar a sua abordagem do meio ambiente em Laudato Si’.

João Paulo formou-se primeiramente em filosofia e, em então, em teologia; depois, como sacerdote, lecionou Ética em uma universidade. Ele escrevia num estilo que não era facilmente digerido. Bento formou-se em teologia e se tornou num dos principais teólogos da sua geração. Ambos escreveram livros acadêmicos que promoviam uma perspectiva particular.

Por outro lado, a formação inicial de Francisco antes de entrar no seminário era em química. Ele nunca terminou o doutorado em Teologia. É o que alguns acadêmicos, em inglês, chamam por ABD: “All but dissertation”, quer dizer, “tudo, menos tese de doutorado”. Ele nunca escreveu livros acadêmicos. Era um consumidor amplo de teologia, não um proponente de um ponto de vista particular.

Para João Paulo II, o filósofo, e para Bento XVI, o teólogo, as ideias eram de suma importância. Mas, para Francisco, cientista e pastor, os fatos realmente importam.

Para João Paulo e Bento, se a realidade não reflete o ideal, então a realidade deve mudar, enquanto que, para Francisco, se os fatos e a teoria entram em confronto, ele, como um bom cientista, está disposto a questionar a teoria.

As histórias pessoais destes três papas lhes deixaram marcas também. Para João Paulo, foi a experiência de uma Igreja sitiada, primeiro pelos nazistas e, depois, pelos comunistas. A unidade da Igreja foi algo fundamental nesta luta. Mesmo depois da queda do comunismo, o seu modelo eclesial ainda era aquele de uma Igreja sob cerco, só que agora o inimigo tinha tudo a ver com a cultura ocidental: o relativismo, o consumismo, etc.

Da mesma forma, Bento foi influenciado primeiramente pelo Concílio Vaticano II e, em seguida, pela turbulência que se seguiu daí e os motins estudantis de 1968, que lhe lembraram os camisas pardas nazistas de sua juventude. Tal como acontece com João Paulo, a unidade e a ordem foram valores importantes.

Na qualidade de professor de pós-graduação e orientador de doutorado, Bento passou grande parte de seu tempo orientando e corrigindo os alunos. Ele não interagia tão bem assim com os seus colegas teólogos. Não é de se estranhar que, como presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, ele via seu trabalho como como tendo a finalidade de orientar e corrigir os teólogos, a quem tratava como alunos de pós-graduação, e não como iguais.

Francisco, por outro lado, como jovem sacerdote foi rapidamente colocado para acompanhar a formação espiritual dos jovens jesuítas e se tornou diretor dos noviços, provincial e reitor do seminário jesuíta. Ele lidava com pessoas, não com ideias; o discernimento, e não a lógica, era o princípio norteador.

Esta experiência de comando jesuíta foi gratificante, mas não irenista. Ele vivenciou conflitos e fracassos. Ele reconheceu que era muito jovem para a autoridade que foi dada concedida e que acabou cometendo equívocos. Aprendeu que precisava escutar e consultar antes de tomar decisões. Trouxe essas lições aprendidas ao seu trabalho como arcebispo de Buenos Aires, onde passou grande parte de seu tempo com as pessoas nas favelas.

Francisco também viveu na Argentina durante uma época em que havia um choque de ideologias muito presente; ele começou a odiar o pensamento ideológico. Defino ideologia como um sistema pelo qual podemos ignorar dados e experiências a fim de preservar as nossas opiniões. Peronismo, comunismo e capitalismo libertário estavam lutando pelo poder. Os militares, seguindo a ideia do Estado de segurança nacional, reprimiram violentamente toda a oposição.

Ao mesmo tempo, enquanto João Paulo experimentou o comunismo como opressor externo, Francisco conheceu o comunismo ainda quando jovem na pessoa de seu primeiro orientador e chefe, a quem ele admirava e com quem manteve amizade durante toda a vida. Cedo, ele aprendeu que um comunista poderia ser uma boa pessoa.

O Papa Francisco sente-se desconfortável com as ideologias, tanto de esquerda quanto de direita. Ele foi crítico de certas formas da Teologia da Libertação, porque elas incorporavam uma análise marxista e apoiavam a revolução violenta. Ele percebeu que estes teólogos estavam impondo as suas ideias sobre os pobres em vez escutar as suas opiniões.

Mas Francisco é ainda mais crítico quanto ao capitalismo libertário, que cegamente afirma que todos os barcos subirão com o crescimento da maré econômica; esta afirmação recebe a sua crítica veemente porque as pessoas que ele conheceu nas favelas de Buenos Aires estavam, na realidade, se afogando sem barcos.

Todos estes elementos influenciaram a escrita de Laudato Si’. Em vez de começar com filosofia e teologia, o primeiro capítulo desta encíclica começa com a ciência. Quais são os fatos?

O papa e seus colaboradores começaram consultando amplamente a comunidade científica. O que está acontecendo com o meio ambiente? Eles foram para a comunidade científica não para discutir com ela, mas para aprender. Se havia um consenso na comunidade científica, eles o aceitaram.

Embora a Igreja tenha uma imagem negativa decorrente da forma como lidou no caso de Galileu, a verdade é que a Igreja Católica vem sendo uma defensora da ciência através dos séculos (astrônomos jesuítas, Gregor Mendel, Georges Lemaître, etc.). Foi na teologia católica onde se fundamentou a ideia de que não pode haver conflito entre a fé e a razão porque ambas são de Deus.

Isso não significa que inexistiram solavancos ao longo da estrada (Galileu, Darwin, Freud), mas o catolicismo foi, em geral, capaz de se reconciliar com a nova ciência mais rapidamente do que aqueles para os quais a Bíblia era a única fonte de autoridade. Hoje, o conflito tem a ver com a maneira como a ciência é empregada, e não com o que ela descobre.

O que o papa aprendeu sobre o meio ambiente com os cientistas?

O capítulo 1 da encíclica faz referência à poluição do ar: “A exposição aos poluentes atmosféricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematuras”. A poluição é “causada pelo transporte, pelos fumos da indústria, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral”.

Em seguida, o capítulo trata da poluição causada pelos resíduos. “Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrônicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos”.

O papa também aprendeu que “há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático” e que “numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (dióxido de carbono, metano, óxido de azoto, e outros) emitidos sobretudo por causa da atividade humana”.

O capítulo 1 inclui uma discussão sobre como o aquecimento global pode levar ao derretimento das geleiras e calotas polares, aumento os níveis do mar e a liberação de gás metano a partir da decomposição do material orgânico congelado. O texto também observa que “a poluição produzida pelo dióxido de carbono aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha”.

“Se a tendência atual se mantiver”, afirma a encíclica, “este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós”.

O capítulo 1 dedica uma seção inteira à perda de biodiversidade, suas causas e consequências. “Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre. A grande maioria delas extingue-se por razões que têm a ver com alguma atividade humana”. Estes são recursos que não estarão disponíveis para as gerações futuras.

A encíclica fala sobre o fornecimento de água poluída, o estado de declínio dos recifes de coral e do desmatamento. Ela resume o pensamento atual dos cientistas sobre questões ambientais.

Mais adiante, na encíclica, Francisco escreve: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões”.

Os fatos importam quando se trata do meio ambiente, razão pela qual Francisco começa a sua encíclica com uma apresentação do consenso científico sobre o estado do meio ambiente e para onde estamos indo. Estes fatos apresentam o mundo com um dilema moral que será explicado mais à frente na encíclica.

Os fatos, no universo de Francisco, não devem ser distorcidos para se encaixarem em nossas ideias. Pelo contrário, eles podem nos forçar a mudá-las. Por exemplo, o que significa ser cristão, no século XXI, deve mudar quando este significado se confrontar com a crise ambiental que vivemos.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Papa Francisco: “Os fatos são mais importantes do que as ideias” - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV