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16 Julho 2015

"Com que competência ou capacidade intelectual um jornalista tem para avaliar a profundidade de alguém que dispensa apresentações, inclusive respeitado pelo mundo acadêmico. Até procurei por possíveis trabalhos acadêmicos do nosso jornalista, mas nada encontrei que desse respaldo para uma afirmação dessas. Pergunto, quem corre o risco de ser visto como alguém que é raso?" pergunta Alex Villas Boas, doutor em teologia e membro do departamento de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Eis o artigo. 

(Só leia se não tiver mais nada de importante para fazer...)

Queria parabenizar o jornalista Reinaldo de Azevedo pela estratégia midiática de voltar os holofotes para si, pois conseguiu me fazer ler primeiro o blog dele, que os discursos do Papa Francisco.

Tentando ser um discípulo inaciano de Jesus Cristo, que um dia pretendo ser, procurei seguir o conselho de Santo Inácio de Loyola que diz nos seus Exercícios Espirituais de que “devemos estar mais dispostos a salvar a proposição do próximo do que a condená-la (EE, n.22). Seguindo isso é que o grande teólogo de minha devoção pessoal São Pedro Fabro, dialogava com os teólogos protestantes (dos quais tenho grande carinho e amizade), que por vezes diziam que entendiam melhor Lutero quando Fabro falava. Salvar a proposição do outro, significa entre outras coisas, levar a sério o que o outro fala, e assim podemos perceber insuficiências mútuas, e apontar pontos cegos. Isso geraria sim um diálogo honesto. Este pobre discípulo que vos escreve tentou fazer o mesmo com o artigo do jornalista da Veja, Reinaldo de Azevedo intitulado “Bergoglio, o dito Papa Francisco...”.

Bem, talvez eu esteja sendo um mal discípulo de Inácio, mas realmente não consigo ver no ato de diplomacia entre dois chefes de Estado, que o Papa Francisco “sujou as mãos no sangue de 150 milhões de pessoas” ao receber a cruz do Morales. Logo de um Papa latino americano que sabe muito bem o que é enfrentar um regime totalitarista? Ou ainda tentar conotar um sentido marxista sobre uma cruz que foi símbolo de uma igreja que dialogava criticamente com os marxistas, concordando com o diagnóstico social sim, mas discordando com o prognóstico. Palavras do Padre Espinal (também jesuíta), que fez a cruz como símbolo do diálogo que propunha do cristianismo para uma outra forma de marxismo: “Que prefiramos el diálogo humano, a las amenazas, a la represión y a las matanzas. Haz Señor, que caigamos en la cuenta de que la violência es demasiado trágica para utilizarla alegremente, como por juego. Y a los professionales de las armas y de la guerra hazles hallar un ofício mejor; porque Tú, Príncipe de la Paz, odias la muerte”

Poderia ter dito muita coisa sobre isso, por exemplo, como um símbolo oriundo de um artista russo burguês e religioso poderia ter virado um símbolo comunista? E mais ainda, um símbolo de aura religiosa leninista? E o que seria mais interessante, como uma mística soviética se confundiu com uma mística cristã? Isso poderia levantar discussões profundamente pertinentes a respeito da insatisfação daqueles que acreditaram numa aura leninista do regime soviético, que por vezes parecia se confundir com os grandes ideais da humanidade, e em que medida o trabalho ideológico soviético conseguiu iludir, mais que artistas e intelectuais, milhares de operários e camponeses, o que exigia gente disposta a dialogar com a fronteira para perceber insuficiências e apontar novos caminhos, coisa que o padre Espinal viveu e morreu fazendo, bem diferente do nosso jornalista, dito democrático.

Agora, o que mais me assustou na tal afirmação, é dizer que o Papa Francisco tem uma “formação teológica de cura de aldeia”. Para quem não sabe, a formação de um jesuíta em média dura em torno de 10 a 12 anos ou mais, combinando uma sólida formação de espiritualidade e intelectualidade. São 2 anos de noviciado (sem contar os anos anteriores ao ingresso) se dedicando a aprofundar a espiritualidade para pode orientar aquilo que experimentou, 3 anos de filosofia, 2 anos de magistério, onde não raro o jesuíta se dedica ao trabalho missionário com possibilidade de fazer um mestrado na área de sua afinidade, depois 4 de teologia, sem contar um tempo em que ele se prepara para fazer a revisão de sua formação, antes de fazer o último voto.

Para Inácio quem faz o voto de obediência ao papa, está preparado para ser reitor de colégio em terras onde não há o Cristianismo. Há ainda a possibilidade de continuar os estudos, como foi o caso de Bergoglio, que chegou a iniciar seu doutorado em Frankfurt sobre Romano Guardini, um dos teólogos mais importantes pré-conciliares, mas foi impedido pelo fato de ter sido eleito provincial dos jesuítas da Argentina, reitor do Colégio Máximo, a primeira faculdade de Filosofia e Teologia da América Latina, e para distanciá-lo ainda mais de seu doutorado, foi sagrado bispo, depois nomeado Cardeal e por fim, Papa ou bispo de Roma. Me parece, salvo engano, que não foi por falta de competência ou por ter uma formação teológica rasa que não concluiu seu doutorado. Agora, pergunto eu, com que competência ou capacidade intelectual um jornalista tem para avaliar a profundidade de alguém que dispensa apresentações, inclusive respeitado pelo mundo acadêmico. Até procurei por possíveis trabalhos acadêmicos do nosso jornalista, mas nada encontrei que desse respaldo para uma afirmação dessas. Pergunto, quem corre o risco de ser visto como alguém que é raso?

Ademais dizer que o papa se baseia em um “movimento hippie da década de 60”, não é deselegante somente com o papa, mas com toda a comunidade científica desde o surgimento de uma filosofia bioética proposta por Phillipe Pottler que convidava o mundo a pensar as relações complexas entre ambiente natural e meio ambiente, a saber, o meio como a comunidade humana se relaciona com o ambiente natural, entre outras coisas, o pensamento da complexidade de Edgar Morin se desdobra daí. Nenhuma faculdade de ciências séria, chamaria essa discussão de uma mera masturbação intelectual de hippies. Vale também lembrar que o Papa Francisco tem respaldo de boa parte comunidade científica e está alicerçado pelo resultado de pelo menos uma dúzia de cientistas que desenvolvem trabalho sério no instituto astronômico do Observatório Vaticano [que não estão lá por serem católicos mas pela excelência de investigação], e me parece que a opinião deles é bem diferente do nosso jornalista, dito intelectual.

Vejam bem. Ao tecer estes comentários não se trata de uma defesa ao comunismo (uma vez que até o Papa Francisco é visto pelo nosso jornalista como um, quanto mais esse relis mortalis aqui), ou apoio a esquerda de gabinete. Como bem sabem meus colegas e amigos das áreas de Economia e Administração, a nossa conversa versa sobre a análise da responsabilidade social entre Adam Smith e Karl Marx, leituras críticas sobre a análise pikettiana do Capitalismo no Século XXI, e uma revisão dos pressupostos antropológicos da visão economicista. Mas minha “esquerda”, se posso assim chamar também é crítica à atual esquerda, porque a minha vem da base [e não de gabinete como é boa parte, tanto da esquerda como da direita política brasileira] que é de onde vem também a origem de meu catolicismo, ou seja, de uma senhora simples, minha mãe, que entendia que ser católico era ter uma experiência pessoal com Deus, cuidar dos pobres e manter a unidade. Assim, por mais que houvesse divergências entre teólogos e papas, sempre houve um “sentir cum Ecclesia” que no caso da minha mãe resultava em rezar pelo Papa, atitude a dela que me parece ser bem diferente do nosso jornalista, dito católico.

Pergunto eu QUEM se aproxima mais dos regimes comunistas totalitários que assassinou mais de 150 milhões [sem contar os outros regimes totalitaristas liderados por generais católicos, inclusive o que fez do Padre Espinal um mártir]: QUEM está disposto ao diálogo ou QUEM fomente a discórdia?
Assim começa a ficar difícil salvar essas proposições e não ver muito mais que um jornalista panfletário de tablóide... dada a deselegância retórica e a desonestidade intelectual.

Pergunto aos meus amigos de “direita de base” se o dito jornalista os representa, porque a comunidade católica tampouco uma senhora simples sem formação católica, se vê representada em seu dito, se é que diz alguma coisa.

Só me resta agradecer ao bendito jornalista pelo exemplo que me dá para fazer uso em sala de que dogmatismos não são exclusividades religiosas, muito menos de esquerda ou direita. Bem como o belíssimo exemplo de uma retórica anacrônica de tempos de guerra fria [que desconhece completamente a retórica nietzschiana] que “pode” muito bem ser usada para manipulação ideológica das massas, e que por um "acaso" da história são consumidores.

Uma análise retórica me parece chegar ao seguinte dilema. Quem profere um discurso assim, ou é ignorante ou é conivente. Ignorante por ser superficial, ou superficial por ser conivente a interesses escusos. Não me parece que algo tão esdrúxulo possa ser feito por qualquer ignorante. Pior é quem aplaude sem ganhar nada, ou melhor ganha a imagem de superficialidade daquele que está ganhando com isso.

Melhor seria, caro leitor, ler o que o Papa Francisco disse e tirar suas próprias conclusões. Aqui o link de suas falas:

Carta Encíclica do Santo Padre - Laudato Si'

Discurso proferido durante o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09-07-2015. Acesse aqui.

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