Guerra e paz litúrgica: a intuição profética de Pius Parsch em 1915. Artigo de Andrea Grillo

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29 Junho 2015

A grande intuição que caracterizou a profecia de Pius Parsch entre os anos 1920 e os anos 1950 estava na superação de uma "visão clerical da liturgia": a liturgia não é para os padres, mas para os batizados.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no blog Come Se Non, 21-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Durante este ano de 2015, estamos no centenário da Primeira Guerra Mundial. Entre as muitas coisas significativas ligadas a esse grande evento, eu gostaria de fazer memória de uma singular coincidência.

Justamente depois daquele conflito bélico, o Movimento Litúrgico, que tinha dado os primeiros passos no início do século, encontrou a força e a determinação para incidir profundamente na cultura eclesial europeia e mundial.

À "Guerra Mundial", corresponde o início de uma "redescoberta mundial" da liturgia.

Foi Cipriano Vagaggini que recordou a importância da "Grande Guerra" para compreender o início do Movimento Litúrgico. Mas foi sobretudo Pius Parsch que nos deixou um testemunho inesquecível de tudo isso, quando contou a todos como a sua vocação à redescoberta da liturgia nasceu nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, onde ele se encontrava como "oficial médico" e onde era forçado, dramaticamente, a disparar, como católico austríaco, contra os católicos italianos.

Essa experiência muito amarga permitiu que Parsch reconsiderasse a tradição espiritual cristã. Por isso, quando voltou do fronte, esforçou-se por uma grande reviravolta: fundou a revista Bíblia e Liturgia e começou uma atividade de repensamento da liturgia, que ganhou forma na sua obra-prima Volksliurgie, "Liturgia do povo".

Qual foi a grande intuição que caracterizou a profecia de Pius Parsch entre os anos 1920 e os anos 1950? Podemos reconhecê-la, muito facilmente, na superação de uma "visão clerical da liturgia": a liturgia não é para os padres, mas para os batizados.

Daí, de modo essencial, brotou naturalmente a grande ideia da "participação ativa", que, graças a Parsch, entrou depois no DNA europeu, espalhando-se a partir de Klosterneuburg por toda a Igreja universal até o Concílio Vaticano II.

A liturgia, redescoberta como "linguagem comum a todos os batizados", só poderia, então, voltar a dar forma todos os cristãos católicos, junto com a redescoberta da Palavra bíblica.

Para sair da lógica da "guerra", para ter acesso a uma verdadeira "paz", a liturgia como ação de Cristo e da Igreja, de Deus e do seu povo precisava voltar a ser língua popular e ação acessível a todos. A Reforma brotou, necessariamente, a partir dessa aguda intuição.

É evidente que essa história, que remonta a quase um século atrás, pareça hoje bastante instrutiva para discernir a função da liturgia no nosso contexto eclesial e cultural. Se hoje quiséssemos falar de "paz litúrgica" para restaurar as formas de separação, de marginalização e de discriminação clerical contra as quais Parsch começou a lutar há 100 anos, cairíamos em um erro irremediável: a "paz litúrgica" deve se basear na mais ampla partilha da "participação ativa".

Ouvimos, nas últimas décadas, autoridades eclesiais, prefeitos e monsenhores deplorarem que "os leigos se aproximassem dos altares", que "os presbíteros descessem do presbitério para o sinal da paz", que as assembleias pretendessem pensar a si mesmas como "celebrantes"...

A liturgia não é feita para um "corpo separado", para uma "casta hierárquica", mas é linguagem destinada a todos os batizados, que dela têm necessidade constitutivamente. Quem precisa disso não é uma exigência democrática moderna, nem uma simplista reivindicação de "atualização", mas sim o próprio "corpo de Cristo", como verdade da Igreja.

A "mística litúrgica" cristã não passa por uma "separação", uma "divisão", mas por uma comunhão, uma integração.

A tentativa de "fazer paz" na liturgia simplesmente "permitindo que cada um celebre segundo o seu próprio apego" é um modo contraditório e perigoso de receber a herança do Movimento Litúrgico.

É uma forma simplista – e muitas vezes hipócrita – com a qual não assumimos a tarefa de continuar a obra de reforma; ao contrário, temos medo dela e nos consolamos ansiando o sonho de uma "reforma da reforma".

Não é isso de que a Igreja precisa. A reforma litúrgica pede, hoje, um trabalho de "iniciação e de formação", que deveria ser orientado para a realização de "comunidades celebrantes". Quem tem medo da assembleia celebrante coloca-se objetivamente fora da tradição do Movimento Litúrgico e do Concílio Vaticano II.

Quem fala de "paz litúrgica" de modo simplista só aumenta os perigos de guerra, aumenta de modo irresponsável as formas de conflito e diminui dramaticamente a comunhão eclesial.

Quem gostaria de dilapidar desse modo o trabalho profético de Pius Parsch e de todo o Movimento Litúrgico, que tomou forma na constituição conciliar Sacrosanctum Concilium e, depois, no acurado processo de Reforma, da qual estamos apenas no início? Quem gostaria de chamar de "paz litúrgica" uma "guerra contra a Reforma"?

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