A cruzada contra o gênero, o fantasma que agita os católicos. Artigo de Michela Marzano

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24 Junho 2015

"Tirem as mãos dos nossos filhos!", diziam as faixas do Family Day, em Roma. Mas tirem as mãos também daquele jovem que se vestia de rosa e amava os esmaltes e que se suicidou, porque os colegas o chamavam de "bicha". Tirem as mãos daquelas crianças que sentem nascer em si mesmas sentimentos que alguns julgam ser "contro natura" e que pensam estar errados.

A opinião é da filósofa italiana Michela Marzano, professora da Universidade de Paris V - René Descartes. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 22-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Tirem as mãos dos nossos filhos", "nascemos homem e mulher", "parem o gênero nas escolas", "o gênero é o esterco do diabo". Alguns desses slogans presentes nas faixas e nos cartazes que lotaram no sábado a Praça de São João, em Roma, para o Family Day, mostram quanto medo há hoje na sociedade quando se toca no tema da identidade de gênero e da homossexualidade.

O "gender" no banco dos réus, antes ainda que a lei Cirinnà sobre as uniões civis. Um "gender" qualificado como "projeto louco" e como "colonização ideológica" não só por muitos católicos, mas também pelo imã de Centocelle, que também estava presente na Praça de São João, e pelo rabino-chefe de Roma. Um "gender" acusado de poluir os cérebros das crianças e de destruir a humanidade. Um "gender" responsável pela destruição da família e pelo caos geral.

Mas o que é, afinal, esse "gênero"? Qual seria o projeto diabólico dos seus ideólogos?

Procedamos com ordem e demos um pequeno passo para trás, mesmo que só para entender quando e como foi utilizado pela primeira vez o termo "gênero" – já que "gender" nada mais é do que o vocábulo inglês utilizado às vezes, quando se fala de identidade e de orientação sexual.

Pois bem, depois que, por séculos, nos referimos às diferenças existentes entre os homens e as mulheres apenas através do termo "sexo", nos anos 1950, primeiro nos Estados Unidos com os trabalhos de John Money de 1955, depois também na Europa a partir dos estudos de Claude Lévi-Strauss e de Michel Foucault, começou-se a entender que seria melhor distinguir o "sexo" do "gênero", até simplesmente porque o sexo remete diretamente às características genético-biológicas, enquanto o gênero designa o complexo de regras, implícitas ou explícitas, subentendidas às relações entre homens e mulheres.

Quem não se lembra da famosa frase de Simone de Beauvoir, quando, em O segundo sexo (1949), explicava que mulher não se nasce, mas se torna? Frase já célebre, mas cujo significado, talvez, não é tão claro, já que a intelectual francesa não tinha nenhuma intenção de dizer às mulheres que podiam ou não escolher ser mulheres.

O objetivo de Simone de Beauvoir era apenas o de explicar às mulheres que elas tinham o direito de repensar o seu papel dentro da sociedade, saindo daqueles estereótipos que, por séculos, as haviam tornado prisioneiras da subordinação ao homem. Repensar os papéis de gênero, portanto, não para apagar as diferenças, mas para promover a igualdade.

Ideias simples e de bom senso, a fim de sair do impasse do naturalismo ontológico com base no qual as mulheres deviam "por natureza" se contentar em procriar e cuidar da vida doméstica, deixando os homens livres para gerir a "coisa pública". O que aconteceu desde então?

De teorias e de estudos sobre o gender, nos últimos anos, nasceram muitos. Há quem tenha se focado nos estereótipos da feminilidade e da masculinidade, tentando mostrar que é quando somos crianças que se introjetam modelos e comportamentos; e que, se continuarmos a sugerir o fato de que os meninos são mais aptos ao exercício do poder e ao uso da racionalidade, enquanto as meninas são mais aptas às tarefas do cuidado, de fato, nunca sairemos dos estereótipos (pense-se nas pesquisas de Nicole-Claude Mathieu, de Françoise Collin e de Luce Irigaray).

Há quem tenha se concentrado no bullying e nos comportamentos violentos contra todas aquelas e todos aqueles que não coincidem exatamente com a imagem que nos dão de ser uma menina ou uma mulher ou de ser um menino ou um homem – pense-se nas inúmeras pesquisas publicadas no The American Behavioral Scientist Journal.

Há quem, como Judith Butler ou Jonathan Katz, mas a lista completa seria longa, tenha tentado explicar e mostrar que a orientação sexual não é uma consequência inevitável da própria identidade de gênero, e que ser gay não significa não ser plenamente homem, assim como ser lésbica não significa não ser plenamente mulher.

Finalmente, há quem também tenha tentado lutar contra as discriminações ligadas às incertezas identitárias, que levam algumas pessoas a querer mudar de sexo, não porque seja um capricho ou uma brincadeira, mas porque acontece que elas podem se sentir prisioneiras em um "corpo errado" (vejam-se, dentre outros, os estudos de Patrick Califia).

Portanto, entende-se bem que não existe uma, e uma única, "ideologia gender", mas um conjunto heterogêneo de posições. Algumas mais radicais, outras menos. Algumas, às vezes, excessivas, como certas posições queer de Teresa de Lauretis. Quase todas, porém, voltadas a levar em consideração e a sério a complexidade do real, o fato de que, na realidade, existem muitos modos de ser e de se sentir homens e mulheres. Que há mulheres que amam outras mulheres sem, por isso, serem menos femininas, e homens que amam outros homens sem, por isso, serem menos masculinos. Que há mulheres heterossexuais com traços de masculinidade e homens heterossexuais com traços de feminilidade. Sem nenhuma vontade de perturbar a ordem natural das coisas e criar o caos.

Até porque a identidade e a orientação sexual não são fruto do capricho ou do pecado. Não são ensinadas e não são escolhidas. São. Exatamente como o fato de ser branco, negro ou amarelo.

Ao contrário dos fantasmas de quem critica o ensino do "gender" – em nome de um controle sobre a moral, a educação à afetividade e à tolerância em relação às muitas diferenças –, ele não tem como objetivo empurrar os meninos a se tornarem mulheres ou vice-versa. Exatamente como não se ensina um heterossexual a se tornar homossexual, ou um homossexual a se tornar heterossexual.

O objetivo é somente o de favorecer o respeito de qualquer um, independentemente da própria identidade e da própria orientação sexual, porque não é verdade que um gay ou uma lésbica são monstros, e não é verdade que, se uma menina brinca com os soldadinhos ou um menino, com as bonecas, estão "errados".

"Tirem as mãos dos nossos filhos", então! Mas tirem as mãos também daquele jovem que se vestia de rosa e amava os esmaltes e que se suicidou, porque os colegas o chamavam de "bicha". Tirem as mãos daquelas crianças que sentem nascer em si mesmas sentimentos que alguns julgam ser "contro natura" e que pensam estar errados.

O medo de quem é diferente tem raízes antigas. E é fácil despertá-lo quando, em vez de entender que não há nada de monstruoso em ser homossexual, invoca-se o fim da ordem e despedaça-se a tolerância e a caridade diante de "experimentações sexuais" contra os menores.

"Por que vocês são tão medrosos? Ainda não têm fé?", dizia o Evangelho desse domingo. Depois de invocar o "esterco do diabo", talvez se poderia recomeçar a partir daí.

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