Quando o papa Francisco encontrou Jorge Luis Borges

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23 Junho 2015

Maria Kodama, viúva do autor de "O Aleph", fala da relação com Bergoglio, de sua obra como premonição da tecnologia do século 21 e de seus últimos anos

São dois argentinos universais. Um, católico; o outro, um agnóstico que até o final de seus dias não deixou de se indagar sobre o mistério da transcendência.

A reportagem é de Marc Bassets, publicada pelo jornal El País, 20-06-2015.

Jorge Mario Bergoglio e Jorge Luis Borges se conheceram há meio século. Bergoglio era professor em um colégio da província de Santa Fe. Convidou Borges para falar a seus alunos. Há dois anos, Maria Kodama, a viúva de Borges, entregou àquele sacerdote jesuíta, hoje transformado no papa Francisco, as obras completas do autor de "Ficções". "Esse papa é fanático por Borges", diz Kodama.

A religião nunca foi alheia ao contista, poeta e ensaísta argentino. Pouco antes de morrer, em 1986, Borges falou com Kodama sobre esses assuntos. "Disse-lhe que eu não podia responder a essas perguntas, porque também era agnóstica, e que era melhor que falasse com um teólogo", lembra. "Ele me disse que falaria com um padre católico e um pastor protestante, em homenagem a sua avó inglesa."

- Vieram ambos?

- Em turnos!

Em um encontro com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Kodama lhe explicou o que era para ela o agnosticismo: "Quem acredita, com as dúvidas que possa ter, acredita, mas está em um círculo. O ateu nega a Deus: está em um círculo que nega. Os agnósticos, somos patéticos: ao longo de nossa vida, traçamos um caminho paralelo ao de Deus porque tentamos encontrá-lo pelo único caminho pelo qual talvez não possamos encontrá-lo, que é a razão. Mas o tempo todo pensamos nele de algum modo."

A entrevista com Maria Kodama ocorreu em abril na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Filha de um japonês estabelecido na Argentina, Kodama acabava de fazer uma palestra sobre seu marido na 7ª Conferência Internacional de Estudos Transatlânticos.

Faltando um ano para o 30º aniversário da morte de Borges, em Genebra (Suíça), Kodama falou sobre as dúvidas teológicas do escritor, as releituras de sua obra no século 21 e sobre sua relação com ele, um homem muito maior que ela, já cego, a quem sempre chamou de Borges, nunca de Jorge Luis (Kodama também chamava seu pai pelo sobrenome).

"Ele gostava de viajar. Era uma pessoa muito curiosa. Dormimos no deserto. Viajamos de balão. Fizemos coisas totalmente incríveis", diz. "Eu descrevia para ele os lugares que descobríamos juntos, e que ele não conhecia, usando as cores dos quadros", continua. "Ele tinha uma memória incrível, e eu os descrevia. Por exemplo, se era o entardecer de um quadro de Turner, ele fazia toda a ideia mental do que eu via."

Kodama evoca uma anedota infantil que a marcou. "Um dia, quando eu era muito pequena, perguntei a meu pai o que era a beleza." O senhor Kodama lhe trouxe um livro de arte grega com uma imagem da Vitória de Samotrácia, a estátua de mármore sem cabeça do século 2º a.C. "Ele me disse: 'Beleza é isto'. E eu lhe disse: 'Mas Kodama, não tem cabeça'. E ele: 'E quem lhe disse que uma cabeça é a beleza?' Veja a túnica da Vitória de Samotrácia. As pregas são agitadas pela brisa do mar. Deter para a eternidade o movimento das pregas de uma túnica, a brisa do mar. Isso é a beleza.'"

- Parece de Borges...

- Claro, exatamente. É que meu pai tinha muitas coisas..., responde Kodama. O que diria Freud? Borges dizia: "O que Freud perdeu conosco, Maria: o complexo do vovô. Em vez do de Édipo." 

Kodama se surpreende com algumas interpretações atuais de Borges. Neurocientistas se interessaram por contos como "Funes, o Memorioso", cujo protagonista é um homem que se lembra de tudo. "Eu nunca teria imaginado", diz, "que Borges tivesse a ver com a cibernética através de 'O Jardim de Caminhos que se Bifurcam'." Este conto, assim como 'A Biblioteca de Babel', se lê como uma premonição de algumas possibilidades que a rede oferece.

- A internet teria interessado a ele?

- Acredito que, diante do que ele pensava dos aparelhos que surgiram enquanto vivia, não teria gostado. Ele amava o livro, para ele era um prazer. Eu deduzo, não quero dizer que seja assim, mas penso que pelo amor que ele sentia por isso e pela rejeição a algumas coisas...

- Que coisas?

- Televisão, não tinha. Eu também não. Para ele, o mundo era o livro.

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