Entropia e Insustentabilidade: Georgescu-Roegen, o gênio redescoberto

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17 Junho 2015

"Georgescu-Roegen já tinha a antevisão da mudança necessária e urgente – caso a civilização queira se manter em um planeta viável – para que as transformações de matéria e energia sejam repensadas para formas menos dissipativas e mais racionais", escreve Bruno Versiani, analista ambiental, em artigo publicado por EcoDebate, 16-06-2015. 

Eis o artigo

Na tentativa de ver o processo econômico como um prolongamento de fenômenos da dimensão biofísica, é inescapável o uso das reflexões de Georgescu-Roegen (1971), servindo-se das leis da termodinâmica. Inescapável, porque o processo econômico significa realização de trabalho no sentido físico: transformação de bens e serviços em outros bens e serviços (Cavalcanti, Economia do Meio Ambiente, 1996). Georgescu-Roegen constitui um daqueles casos de pensadores não devidamente reconhecidos no seu tempo, tendo morrido sem o devido reconhecimento merecido pela abrangência dos seus estudos (sendo inclusive hostilizado academicamente por alguns setores da economia clássica ou heterodoxa), e tendo seus escritos despertado interesse póstumo pela elegância das teorias que correlacionam termodinâmica, economia e ciências ambientais.

Nicholas Georgescu-Roegen foi um matemático e economista romeno, e é considerado atualmente um dos fundadores da teoria da economia ecológica. Seu principal livro é intitulado The Entropy and the Economic Process (Entropia e Processo Econômico), publicado em 1971. Georgescu aponta para grande dicotomia entre sistemas econômicos, que são sistemas termodinamicamente abertos, com sistemas ecológicos, que são sistemas fechados. No intuito de melhor compreensão desse enunciado, vamos passar a uma breve recapitulação de alguns conceitos básicos de termodinâmica. A Primeira Lei da Termodinâmica afirma que a energia total existente no Universo é invariável, podendo ser transformada de uma forma de energia em outra. A Segunda Lei da Termodinâmica afirma que a energia disponível – o que é chamado de formas “organizadas” de energia – tende a diminuir, ou melhor, se transformar em formas “não organizadas” ou dissipativas de energia. Tecnicamente: a entropia do Universo tende a crescer.

Podemos pensar em alguns exemplos práticos do ponto de vista ambiental: a energia armazenada nas estruturas de carbono do petróleo se converte em trabalho e calor – uma forma dissipativa- através da combustão.

O processo de conversão de energia para formas dissipativas e menos organizados é inexorável, e existira mesmo caso não houvesse atividades humanas e industriais. O problema reside na velocidade. A economia clássica (e, consequentemente, as atividades econômicas) partem do postulado da não saciedade, ou, dizendo de outra forma, são sistemas abertos, regidos por leis de demanda e oferta. Acontece que esse postulado econômico não leva em conta a troca de matéria e energia com o meio ambiente (Georgescu-Roegen, 1971; Tiezzi, 1992), que é um sistema fechado.

Ou seja, as atividades humanas, ao extrairem recursos de baixa entropia – energia aproveitável, principalmente na forma química das ligações das estruturas de carbono – libera resíduos de alta entropia, ou seja, matéria em desordem e energia dissipativa. Isso significa que a teoria econômica em vigor faz abstração completa da realidade física, como se pode perceber pelo fato de que os recursos naturais e serviços ecológicos não integram as construções da chamada função de produção, usada nos raciocínios da economia neoclássica (Van Dieren, 1995: 62).

Como dito acima, na natureza a segunda lei da Entropia opera, porém de maneira suavizada, com reciclagem contínua de materiais. Na economia humana o processo é acelerado e hiper-dissipativo, ou seja, quantidades imensas de energia organizada armazenada (petróleo, florestas, etc…) estão sendo “dissipadas” para gerar trabalho (no conceito físico do termo) para a civlização humana. Um (entre vários) exemplos altamente gritantes (e aberrantes) de dissipação de energia seria a conversão de vários hectares de floresta – onde estão armazenados centenas de toneladas de estruturas de carbono que constituem, termodinamicamente, uma forma de energia organizada – para a pastagem que produzirá poucas centenas de quilos de carne bovina, em que a imensa maioria da energia é dissipada em forma calor – queimadas – e uma ínfima minoria da energia estará contida na carne bovina.

Georgescu-Roegen já tinha a antevisão da mudança necessária e urgente – caso a civilização queira se manter em um planeta viável – para que as transformações de matéria e energia sejam repensadas para formas menos dissipativas e mais racionais (além, obviamente, de outros princípios mais concretos que Georgescu enuncia, como o controle populacional).

Bibliografia:

-CLÓVIS CAVALCANTI. Condicionantes biofísicos da economia e suas implicações quanto à noção do desenvolvimento sustentável. Economia do Meio Ambiente, teoria e a gestão de espaços regionais. Ademar Ribeiro; Bastiaan Philip; Maria Lucia Azevedo Leonardi (org). Campinas, SP: UNICAMP, 1996.

-GEORGESCU-ROEGEN, N. The entropy law and the economic process. Cambridge: Harvard Univ. Press, 1971.

-TIEZZI, E. Tempos Históricos, tempos biológicos. Trad. Frank Ferreira e Luiz Eduardo Brandão. São Paulo: Nobel, 1988 (Original italiano).

-VAN DIEREN, W., org. Taking nature into account: toward a sustainable national income (A Report to the Club of Rome). New York: Springer-Verlag, 1995.

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