O pós-Irlanda dos bispos: “O vínculo entre gays, valor para a Igreja”

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28 Maio 2015

“O que podemos dizer a uma juventude que não se encontra nas orientações da Igreja? Como devemos impostar uma prática do Eros? Aqui nos encontramos diante de problemas a serem resolvidos, pois, caso contrário, as pessoas acabarão por afastar-se”.

A reportagem é de Marco Ansaldo e Paolo Rodari, publicada pelo jornal La Repubblica, 26-05-2015. A tradução Benno Dischinger.

O pacato alarme lançado na metade dos trabalhos por um sacerdote e docente sacode as mesas postas em retângulo entre os 50 conveniados na Universidade Gregoriana de Roma, na jornada de estudos organizada para o Sínodo dos Bispos previsto para outubro. “Matrimônio e divórcio”, “Sexualidade como expressão do amor” são títulos sobre os quais se discute. Temas de uma atualidade candente, após o sim do referendo na Irlanda sobre as núpcias gay. Há muitos ‘big’ da Igreja, como o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique da Baviera e chefe dos bispos alemães, o arcebispo de Marselha, Georges Pontier, que é presidente da Conferencia episcopal francesa, o de Havre, Brunin, o bispo de Dresden, Koch, o da Baixa Saxônia, Bode, o suíço Gmur, o secretário geral dos bispos alemães Langendorfer, teólogos eméritos e professores universitários, como o presidente da Comunidade de Sant’Egídio, Marco Impagliazzo. Todos hospedados pelo vice-reitor da Gregoriana, padre Hans Zollner, e vinculados no sentido de não atribuir a paternidade das declarações aos participantes. Trabalhos a portas fechadas, a quem foi convidada a participar, como único meio de comunicação italiano, La Repubblica. E a discussão foi ampla e muito livre. Abordando também o argumento das uniões gay exigido pelo voto irlandês.

“A questão não é tema do Sínodo – precisa um sacerdote e teólogo alemão – mas é, em todo caso, matéria cultural. Se entre duas pessoas do mesmo sexo existe uma relação forte, que leva a um reconhecimento, isto deve se tornar um vínculo também para a Igreja”. Depois acrescenta: “Pessoalmente digo que esta união deveria ser reconhecida, também se não como matrimônio. Se a Igreja não a reconhece, isso não significa uma discriminação, mas que se pretende reafirmar o princípio da família constituída por um homem e uma mulher”.

Uma posição inovadora. Ninguém aqui se opõe. O confronto até se amplia. “É claro – afirma um monsenhor francês – que estamos vivendo uma nova realidade pastoral”. E, a propósito dos divorciados redesposados, continua uma docente: “Com o alongar-se da vida, também a fronteira da fidelidade se desloca. Mas a disciplina da Igreja hoje está longe de ser imóvel. Após uma falência, um abandono, a gente pode empenhar-se numa nova vida com outra pessoa. Estes problemas chegam de expoentes empenhados também no magistério, além de vir dos fiéis”.

Aplausos, e se vai além. Comenta um bispo alemão: “Os dogmáticos dizem que o ensinamento da Igreja é fixo. Ao invés, um desenvolvimento existe. E necessitamos de um desenvolvimento sobre a sexualidade. Embora não devamos fixar-nos somente sobre esta questão”. Um presbítero que também é professor admite: “Sendo a nossa vida uma vida de solteiro, o celibato de nós padres torna difícil falar aos outros de suas vidas de casal”. Ninguém usa aqui a palavra “parresìa”, franqueza, termo chave do pontificado de Francisco. Mas, a discussão na mesa da Gregoriana se desenvolve toda à sua sombra. Um sacerdote e docente suíço, que faz uma intervenção fixada no segundo, seguindo como bom helvético o próprio relógio, fala sem delongas de “carícias, beijos, “coito” no sentido do “vir juntos”, co-ire”, como “aquele que acompanha as luzes e as sombras não conscientes das pulsões e do desejo”. Um colega dele: “A importância do estímulo sexual representa a base de uma relação duradoura”. Cita-se Freud. É mencionado Fromm. “A falta da sexualidade – se acrescenta – pode associar-se à fome, à sede. A pergunta que a caracteriza é: “Tens vontade de fazer sexo?”. Mas isto não significa desejar o outro, se o outro não quer. A pergunta deveria se: “Tu me desejas?”. Eis, então, como o desejo sexual do outro pode unir-se ao amor”.

O diálogo é cerrado e aborda os sacramentos, o batismo, o argumento delicado da comunhão aos divorciados redesposados. “Como podemos negá-la, como se fosse uma punição, às pessoas que falharam e encontraram um novo parceiro com o qual recomeçar uma vida?” Há, depois, espaço para a dor dos filhos de quem se separou: “Nas confissões escutamos muito os contos dos adolescentes que se auto acusam do divórcio dos pais. Mas, às vezes, a separação também é um bem”. Palavras que parecem revolucionárias quando pronunciadas por homens em clergyman. Isso para uma iniciativa tomada no coração de Roma pelas Conferências episcopais da França, Alemanha e Suíça. Bispos há muito considerados na vanguarda. Está aí quem deles tomará parte no próximo Sínodo, como o cardeal Marx que concluiu os trabalhos, fazendo reflexões tão liberais. Até ao Papa. Comenta um dos participantes do Sínodo de outubro passado: “Talvez tivesse havido uma discussão semelhante no Vaticano. Ainda não houve aquela liberdade de palavra que nós tivemos aqui, hoje. Mas, temos esperança que tudo isto, agora, sirva”.

Tudo acontece numa distante noite de 1990. Faltavam duas semanas para a nomeação de Jorge Mari Bergoglio a bispo auxiliar de Buenos Aires. Os superiores do futuro Papa o haviam “exilado” a Córdoba. Residia num quarto de doze metros quadrados e sua única atividade era a de confessor. Foi aqui que ele fez a promessa de jamais olhar a TV. Foi “uma promessa feita à “Virgem do Carmo” na noite de 15 de julho de 1990”, disse o próprio Francisco dias atrás a “La Voz Del Pueblo”, jornal local da cidadezinha argentina Tres Arroyos, de 45 mil habitantes ao todo. Uma espécie de voto cujos motivos permanecem imperscrutáveis. Difícil dizer o que acontece. “Provavelmente – explica uma fonte próxima a ele – a decisão, que permanece pessoal e íntima, foi tomada em fidelidade a um axioma a ele caro: para o sacerdote o período de repouso não é descanso, mas tempo propícia para orar, estudar, estar com Jesus”.

Em Santa Marta, a hospedaria onde hoje o Papa habita, nos primeiros tempos havia uma televisão. Tinha sido posicionada num pequeno salãozinho, diante de seu quarto número 201. Certo dia ela desapareceu. Outra TV, ao invés, dizem tenha sido ligada no domingo de manhã próximo ao estúdio do palácio apostólico no qual Francisco aparece para o Angelus. Acontece que Bergoglio permaneça um minuto, não mais. O Papa é cônscio da importância do meio televisivo, capaz de chegar às grandes massas de modo eficaz. E por isso em Buenos Aires fundou uma TV católica, Orbe 21. Todavia, o fato de que deu a indicação de não enviar em onda nada de político, mas somente uma programação “inter-religiosa, popular e humanista”, diz muito sobre como ele considera a própria TV e seu uso. Também sem televisão Francisco permanece informadíssimo.

Em Santa Marta pessoas de confiança, amigos ou conhecidos entram e saem sem parar. Não é raro que algum deles lhe traga artigos de jornal para ler, lhe conte sobre acontecimentos de todos os dias. De um amigo, por exemplo, soube do programa de Roberto Benigni sobre os Dez mandamentos. Não o viu em TV, mas se fiou do que lhe contaram. E decidiu chamar ao telefone o cômico para cumprimentá-lo. Outras notícias lhe chegam via e-mail. Ainda o escreve, o e-mail, de próprio punho aos amigos. Pede notícias, se informa, sugere.

Além disso, com frequência, pensam nisso os adeptos da secretaria repassando-lhe o que refere a mídia. Um trabalho pontual, este último, que além de informá-lo, lhe permite manter certa distância de um mundo que não sente ser de todo seu. “Eu me disse: não é para mim”, explicou ele a “La Voz del Pueblo” a respeito de sua relação com a TV. Quanto às partidas de sua quadra do coração, o San Lorenzo, disse: “Não vejo nada, há um guarda suíço que toda semana me passa os resultados das partidas e a classificação”. E assim aconteceu também no verão passado, para a final do mundial de futebol. Mas, como viviam a relação com a mídia os predecessores de Bergoglio? Bento XVI concedeu poucas entrevistas e somente as deu aos órgãos de informação institucionais do Vaticano. Usufruía de uma resenha cotidiana de imprensa, mas, de fato, folheava também os cotidianos alemães e italianos e, à tarde, a última edição de L’Osservatore Romano, enquanto todas as tardes olhava, e ainda hoje é assim, o TG1. Pela televisão assistiu, na tarde de 13 de março de 2013, de Castel Gandolfo, à proclamação do novo Papa. Sentou-se na sala de TV com um pouco de antecipação. Antes do ‘Habemus Papam’ Bergoglio tentou chamá-lo, mas ninguém respondeu. Somente algumas tentativas os dois conseguiram falar.

Foi João Paulo II quem revelou que na Polônia, na época do comunismo, havia deixado de ler os jornais porque demasiado fiéis ao regime. Lia somente o semanário católico Tygodnik Powszechny. “Certamente – explica Gianfranco Svidercoschi, recente autor de “Um Papa só no comando” (Tau) – no almoço e na janta sempre tinha convidados que o mantinham informado. Às vezes, todavia, algo lhes escapava. No final de 84, por exemplo, o então vaticanista de Repubblica, Domenico Del Rio, havia feito artigos negativos sobre suas viagens. No Vaticano decidiram que, em janeiro subsequente, ele não teria subido no avião direto à América do Sul.

Chamei para o apartamento e me dei conta que Wojtyla não sabia de nada: não tinha lido os títulos dos cotidianos que referiam a notícia do Papa que “expulsa do avião o jornalista que o criticou”. Paulo VI era muito ligado ao mundo da informação. Filho de um jornalista, quando era criticado na mídia, se aborrecia. João XXIII, ao invés, -explica o cardeal Loris Capovilla, seu secretário particular, - “era informado pelo doutor Alessandrini, vice-diretor do Osservatore, sobre o que escreviam os jornais diários. E quando discordava de algo, não inculpava o jornalista, mas quem o havia influenciado.

Retalhes de artigos, trocas de e-mails e relato dos conselheiros de confiança; assim o papa se informa sobre o mundo.

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