A religião como crítica à opressão. A figura messiânica de Óscar A. Romero (1917-1980)

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Por: Jonas | 26 Mai 2015

“Houve a necessidade de que um Papa latino-americano reconhecesse que Romero foi um mártir da fé, que se lançou defendendo politicamente seu povo reprimido, para que, agora, possa ser venerado como figura messiânica exemplar. Nem João Paulo II, nem Bento XVI podiam desafiar a oligarquia salvadorenha, latino-americana e norte-americana dando esse passo. Agora é possível, ainda que nunca se saiba por quanto tempo!”, escreve o filósofo Enrique Dussel, em artigo publicado pelo jornal La Jornada, 23-05-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em inícios deste mês, estive nas universidades John Hopkins, de Frankfurt e de Heidelberg, dando um ciclo de conferências. O professor Ulrich Duchrow, da última casa de estudos mencionada, informou-me sobre recentes investigações em torno das circunstâncias históricas que podem estar na origem das religiões universais (como a mesopotâmica e egípcia, e no taoísmo, o budismo, os profetas de Israel, o cristianismo e o islã) e da própria filosofia (como entre os pré-socráticos). É um tema apaixonante neste começo do século XXI, que tem relação com o que o professor de Frankfurt, Matthias Lutz-Bachmann, denomina, em seu último livro de 2015, que me presenteou: uma idade pós-secular.

Trata-se de uma conjuntura econômica e política na qual as antigas civilizações nomeadas (de Mesopotâmia e Egito, na China, Índia, Palestina e Grécia) chegaram a uma maturidade estrutural que lhes permitiu começar a acunhar moedas metálicas (de prata e ouro, especialmente), avalizada por Estados imperiais que as usavam, entre outros fins, mas principalmente, para o pagamento de salários de soldados dos exércitos, frequentemente de mercenários.

Isto exigia o desenvolvimento da mineração (destes metais preciosos) e abria a possibilidade para mercados de grande extensão geopolítica, já que tais moedas metálicas tinham o valor que significavam (uma moeda de prata possuía o mesmo valor, tanto de moeda como joia). Esse mercado monetarizado se articulava, igualmente, com o direito à propriedade privada da terra, como também com a possibilidade de se pedir créditos, colocando como garantia a própria terra.

Quando o campesinato não podia pagar a dívida e o juro acordado, o prestamista se apropriava dos bens do trabalhador, que ainda poderia ficar como escravo, caso a dívida fosse de maior valor. Assim, apareceram estratos muito ricos da sociedade que acumularam riqueza e a maioria de um povo empobrecido. Os críticos desta situação de miséria das massas empobrecidas tiveram rápida e entusiasta resposta das vítimas dessa situação de injustiça. Desta forma, surgiram as religiões universais e os primeiros filósofos. Em Mileto, foi cunhada, pela primeira vez, a moeda de metal precioso na Hélade, e ali surgiu o primeiro filósofo grego, Tales de Mileto (de família fenícia, diga-se de passagem).

Contra a opinião da Ilustração, se é verdade que as religiões se institucionalizam e fetichizam burocraticamente com o tempo, o retorno a suas origens ocorre intermitentemente na história das religiões. Na América Latina, a crítica da teologia, da Igreja e da religião fetichizadas, invertidas diria Marx, ocorreu graças a uma geração sumamente profética, que enfrentou a inversão do cristianismo.

O arcebispo de San Salvador, Óscar A. Romero, é um exemplo paradigmático dessa função, não só em sua pátria centro-americana, como também em toda América Latina e o sul pós-colonial mundial, nas tenebrosas décadas da repressão militar de ditaduras impostas pelos Estados Unidos (pelo Departamento de Estado e o Pentágono), entre 1964 e 1984.

Tive muitos contatos com dom Romero, a partir da década de 70 do século passado. Lembro-me de um curso para mais de 50 bispos (ele era bispo auxiliar em 1972) realizado pelo Celam, em Medellín. Naquele momento, eu era professor de história da Igreja na América Latina e lecionava esse tema junto com outros professores, com a finalidade de atualizar a reflexão desses bispos responsáveis pela Igreja em diversos países.

Esses cursos foram repetidos na Guatemala a Antiga, com a presença de 27 bispos. Dom Romero era o organizador desse encontro. Lembro-me de seu rosto sorridente, como o de um menino fazendo uma travessura, quando nos escutava observando a reação dos outros bispos, sendo muitos deles conservadores, que nunca tinham ouvido expor o cristianismo a partir das categorias da Teologia da Libertação. Lá estavam, convidados por Romero, jovens pensadores críticos (eu tinha 37 anos), como Juan Luis Segundo, Gustavo Gutiérrez, José Comblin, Segundo Galilea e tantos outros. Ele garantia a presença institucional.

Na conferência latino-americana de bispos, em Puebla (1979), dom Romero era o encarregado de redigir a parte histórica inicial do documento final. Formávamos equipes externas que elaborávamos textos que, depois, na assembleia, os bispos corrigiam e adotavam. Tocou-me redigir um desses textos; eles eram entregues a dom Romero, que os introduziu no indicado documento final. Por isso, apareceram figuras exemplares, como Bartolomé de las Casas, primeiro bispo de Chiapas, e dom Valdivieso, que foi assassinado em 1550, na Nicarágua, por causa de luta na defesa dos povos originários.

No entanto, dom Romero não havia dado o passo definitivo. Foi um fato inesperado que o lançou à esfera política, profética, messiânica. Tratou-se do assassinato de Rutilio Grande (1928-1977), nosso aluno nos cursos do IPLA, a partir de 1967, em Quito, organizados pelo Celam, com o mesmo grupo de professores que deram uma nova visão crítica do cristianismo nas reuniões de bispos, acima mencionadas.

Lembro-me de Rutilio, um sacerdote jesuíta conservador. No início de nossos cursos, rebatia as exposições, tinha dúvidas, não aceitava o retorno à origem profética do cristianismo. Nas duas semanas de meu curso, pude observar uma completa transformação. Havia compreendido aquilo do ‘bem-aventurados os pobres!’ E a expressão de Jesus: ‘Ai de vocês os ricos! É mais fácil que um camelo passe pelo buraco de uma agulha do que um de vocês entrar no reino dos céus!’. Era a crítica de Jesus à economia monetarizada do império romano, que produzia multidões de pobres.

Rutilio voltou para sua paróquia de Aguilares, em El Salvador, e se transformou em militante cristão completamente comprometido com seu povo. Formou centenas de catequistas (como Samuel Ruiz, em Chiapas). Por isso, caiu sob a mira repressora da ditadura militar. Foi assassinado junto com mais de 200 de seus catequistas. Uma perseguição quase tão numerosa como a desatada por Diocleciano, no império romano, contra os cristãos. Nesse tempo, Dom Romero era o que se chamava diretor espiritual de Rutilio. Conhecia até seu inconsciente. Sabia quem era e, além disso, era seu mestre. Diante do seu corpo inerte, em Aguilares, dom Romero se converteu em defensor do povo e em crítico decidido contra a ditadura militar, a qual enfrentou valente e diretamente.

As homilias de dom Romero, na catedral, eram acompanhadas por multidões que não só enchiam o templo, como também a praça em frente à catedral. Era realmente entusiasmante, seguido por todos, principalmente por jovens, pobres, camponeses e indígenas. Por isso, foi assassinado como messias, como o servo sofredor que dá sua vida pela multidão.

Uma vez morto, a Igreja conservadora ocultou seu cadáver na cripta da catedral, com o débil argumento de que não deveria ser venerado enquanto Roma decidisse. Dom Romero era temido, mesmo morto. Havia sido sequestrado para que seu povo não pudesse honrá-lo como símbolo da luta de uma época da pátria, da América Latina. É o destino dos heróis e dos santos.

E daí que se alongava o processo de sua beatificação em Roma. Dizia-se que havia sido morto por causas políticas e não por ser mártir da fé. Como se o fundador do cristianismo, Jesus de Nazaré, não tivesse sido acusado, diante de Pilatos, do crime político de rebelar o povo contra o império, e como se não tivesse sido posto sobre sua cruz (a ‘cadeira elétrica romana’ para os que se levantavam politicamente contra César) um título de clara conotação política: ‘Jesus de Nazaré, rei dos judeus’ (o famoso INRI).

Houve a necessidade de que um Papa latino-americano reconhecesse que Romero foi um mártir da fé, que se lançou defendendo politicamente seu povo reprimido, para que, agora, possa ser venerado como figura messiânica exemplar. Nem João Paulo II, nem Bento XVI podiam desafiar a oligarquia salvadorenha, latino-americana e norte-americana dando esse passo. Agora é possível, ainda que nunca se saiba por quanto tempo!

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