A petição dos padres dos EUA em favor do casamento tradicional

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18 Maio 2015

"O papa quer que o Sínodo e a Igreja, de uma forma mais ampla, estejam em sintonia com o Espírito Santo, o que requer discernimento espiritual. Eu li essa petição on-line e confesso que não vejo nela nenhum mecanismo de discernimento espiritual. Em vez disso, ela parece precisamente o tipo de coisa que o papa advertiu em sua homilia da manhã da última sexta-feira, sobre a formação de "lobbies" destinados a alcançar um objetivo predeterminado, em vez de um diálogo que constrói a unidade da Igreja".

A opinião é de Michael Sean Winters, jornalista e autor do livro Left at the Altar: How the Democrats Lost the Catholics. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 12-05-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Eis o texto.

Dom Viganò, ligue para o seu escritório! Na última sexta-feira, meu colega Soli Salgado e eu publicamos uma notícia sobre uma petição assinada por mais de 850 sacerdotes, pedindo ao Sínodo sobre a Família para "permanecer firme na compreensão tradicional da Igreja sobre o casamento, a sexualidade humana e as práticas pastorais". Essa petição, organizada por um grupo chamado "Credo Priests" [Sacerdotes do Credo] imita uma outra feita há algumas semanas por clérigos conservadores do Reino Unido. Estou pasmo por esse crasso estratagema político para colocar pressão sobre o Sínodo.

Enquanto essa história se desenrola, eu tentei entrar em contato com os três bispos que assinaram a petição: Dom James Conley, de Lincoln, Nebraska; Dom Thomas Paprocki, de Springfield, Illinois; e Dom David Kagan, de Bismark, Dakota do Norte. Eu não pude entrar em contato com outros dois bispos aposentados que também assinaram o documento, Dom Robert Finn, ex-bispo da cidade do Kansas, Missouri, e Dom Rene Gracida, anteriormente da cidade de Corpus Christi, Texas. Apenas Dom Conley respondeu com uma declaração:

"Eu assinei a Declaração de Fé para apoiar os sacerdotes dos Estados Unidos que afirmam a sua fidelidade à doutrina da nossa fé sobre o matrimônio e a família. A declaração destina-se a incentivar os Padres Sinodais a proclamar a liberdade em Cristo, através da graça de conhecer e responder à verdade. Esta declaração é assinada por sacerdotes que amam e apoiam o Santo Padre, em resposta ao seu convite universal ao diálogo em antecipação do Sínodo. Como todos os demais católicos, eu rezo pelo Santo Padre e por todos os Padres sinodais, e encorajo a todos a aprender com o bom trabalho do Sínodo".

Agradeço a Dom Conley por sua resposta, mas ela levanta uma questão, também levantada pelo texto da própria declaração. Ele afirma que o documento é "em resposta ao convite universal do papa ao diálogo". Na seção "About Us" [Quem Somos] do website do "Credo Priests" onde está colocada a petição está escrito:

"Nós estamos pedindo a vocês, sacerdotes, que considerem assinar uma declaração de apoio ao ensinamento da Igreja, no espírito desejado pelo Papa Francisco de que sejamos sempre francos e honestos com nossos bispos: "... é necessário dizer tudo o que, no Senhor, sentimos a necessidade de dizer: sem deferência educada, sem hesitação. E, ao mesmo tempo, é preciso ouvir com humildade e acolhimento, com o coração aberto, o que nossos irmãos dizem" (Papa Francisco, saudando os Padres Sinodais durante a Primeira Congregação Geral da 3ª Assembléia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, 06 de outubro de 2014)".

É óbvio que esta petição cumpre a primeira metade do pedido do Santo Padre, para falar com franqueza, mas para mim não está claro como os signatários dessa petição pretendem "ouvir com humildade". Petições são veículos de única via de uma posição ou de uma opinião. Não há diálogo, não há escuta. E, além disso, o Santo Padre estava falando para os Padres Sinodais que estavam prontos para passar as próximas duas semanas juntos, muitas vezes em pequenos grupos, formais e informais, de discussão, onde o seu convite à manifestação livre e franca estava protegido pelo fato de que as intervenções não seriam divulgadas, para grande consternação da imprensa. Da mesma forma, o papa apelou a uma discussão franca e a uma escuta humilde no contexto de discernimento espiritual.

Isso é importante. O Papa quer que o Sínodo e a Igreja, de uma forma mais ampla, estejam em sintonia com o Espírito Santo, o que requer discernimento espiritual. Eu li essa petição on-line e confesso que não vejo nela nenhum mecanismo de discernimento espiritual. Em vez disso, ela parece precisamente o tipo de coisa que o papa advertiu em sua homilia da manhã da última sexta-feira, sobre a formação de "lobbies" destinados a alcançar um objetivo predeterminado, em vez de um diálogo que constrói a unidade da Igreja.

Essa petição é também estranha na medida em que a Santa Sé conclamou todos os bispos a realizar uma consulta ampla e profunda com os fiéis e o clero de suas dioceses. Fiquei desapontado com a Conferência Episcopal dos EUA (USCCB) por não ter sido mais pró-ativa em sua metodologia de consulta. Um telefonema para o Centro de Pesquisas Avançadas no Apostolado (CARA) poderia render alguns dados importantes, não? Mas, os bispos ficaram livres para conceber qualquer sistema que quisesem e, então, apresentar as suas conclusões à Conferência e daí elas seriam enviadas à Roma. Alguns bispos realmente fizeram uma consulta séria, usando as organizações existentes, como os conselhos presbiterais e os conselhos diocesanos de religiosos e religiosas, de forma a lidar com as questões com alguma profundidade e relatar os resultados de suas discussões. Alguns colocaram questionários on-line. Alguns, aparentemente, fizeram muito pouco. A declaração do "Credo Priests" não falha no processo de consulta, mas a existência da declaração é em si uma espécie de repreensão a esse processo.

Seria essa petição, se não em conteúdo mas em forma, diferente do anúncio de página inteira no jornal San Francisco Chronicle solicitando a saída do arcebispo Salvatore Cordileone? Pelo menos os leigos de San Francisco tinham a desculpa de que ninguém estava atendendo as suas chamadas. Certamente Dom Conley poderia ter chamado o arcebispo Charles Chaput, que é um delegado do Sínodo, visto que Conley foi bispo auxiliar de Chaput em Denver antes de ser transferido para Lincoln. Estou certo de que o presidente da Conferência, Dom Joseph Kurtz, que também é um delegado do Sínodo, teria atendido o telefonema de qualquer um desses bispos.

Eu não vou comentar o conteúdo da declaração de qualquer forma. Afirmar que o ensinamento da Igreja sobre o casamento é "imutável" é simplesmente errado. Ele mudou, ou como é descrito com mais precisão, desenvolveu, de forma bastante dramática no Concílio de Trento e, mais uma vez, com a adoção do Código de Direito Canônico em 1917. Eu sou conservador o suficiente para acreditar que o desenvolvimento do ensinamento da Igreja sobre casamento foi uma evolução positiva e eu não percebo uma enorme necessidade de mexer com ele. Mas, a questão diante do Sínodo é um pouco diferente. A pergunta sobre o casamento é esta: será que a disciplina da Igreja estende adequadamente seu ensino "imutável" sobre a misericórdia ilimitada de Deus a uma pessoa cujo casamento falhou, e como a disciplina da Igreja deveria refletir melhor ambos os ensinamentos?

Seja o que for essa petição, ela não é uma forma de discernimento espiritual, e é isso que o Papa Francisco pediu para que o Sínodo colocar em prática. Na verdade, o Papa Francisco pediu a todos os católicos para realizar um discernimento espiritual, não só em relação à família, mas em termos de o que significa ser um seguidor de Jesus Cristo e membro de Sua Igreja, uma Igreja que acreditamos é animada e guiada pelo Espírito Santo. Argumentos e, nesse caso, a utilização de um método apropriado para uma campanha política não é a forma adequada para enfrentar os problemas da Igreja. Os bispos deveriam retirar suas assinaturas dessa petição - assim como os sacerdotes.

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